No Brasil, há uma crença quase coletiva de que o ano só começa, de fato, depois do Carnaval. Esse pensamento coletivo circula há décadas no imaginário brasileiro e carrega mais do que um tom de brincadeira.  Essa percepção está profundamente enraizada na cultura do país, onde o período entre o Réveillon e o Carnaval é visto como uma espécie de transição entre o descanso e o retorno às responsabilidades.

Mais do que um costume, trata-se de um paradigma cultural profundamente enraizado, que faz com que muitas pessoas entrem em “modo de espera” nos primeiros meses, adiando decisões, projetos e compromissos. De fato, muitas pessoas realmente procrastinam e deixam para colocar os planos do Ano Novo em ação somente depois da data, seguindo à risca essa mentalidade.

Segundo a especialista em comportamento humano Gisele Hedler, essa sensação de adiamento está diretamente ligada a fatores culturais, sociais e psicológicos, que influenciam a forma como as pessoas lidam com a produtividade e o planejamento de suas metas.

O Carnaval funciona como um marco psicológico. Até ele passar, muitas pessoas ainda estão em ritmo de férias ou descompromisso, e isso interfere na retomada das rotinas”, explica Gisele Hedler. Esse fenômeno está relacionado à forma como o cérebro lida com transições: após um longo período de festas e descanso, como Natal, Ano Novo e férias escolares, o Carnaval se torna um último grande evento antes do retorno definitivo às obrigações.

Ansiedade de início de ano: até que ponto é “normal” ou patológica?

O problema é que o início de ano é uma época típica em que a ansiedade pode surgir, ou aumentar em quem já convive com esse problema, especialmente num país onde  9,3% da população brasileira sofre de ansiedade patológica. De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), o país ocupa o primeiro lugar no ranking dos mais ansiosos.

Estamos falando de um transtorno mental, ou seja, de uma doença, que afeta grande parte da população e diminui consideravelmente a qualidade de vida dessas pessoas”, alerta Ariel Lipman, médico psiquiatra e diretor da SIG – Residência Terapêutica.

O transtorno mental pode ser grave se não acompanhado e tratado, no entanto, existe um outro lado da ansiedade, em que ela é considerada “transitória”, e não uma doença. “Todo mundo passa por situações em que desencadeiam uma ansiedade, é normal, por exemplo, a pessoa não conseguir dormir antes de uma prova importante”, comenta o especialista.

A “ansiedade normal”, ou melhor, ansiedade não patológica, faz parte da vida de qualquer pessoa, causando sintomas, segundo o Dr. Lipman, como dilatação da pupila, aumento de frequência cardíaca e respiratória e até mesmo insônia.

Os sintomas podem ser parecidos com os da ansiedade patológica, o que muda é a intensidade e a frequência. Nosso corpo tem um limite e se os sintomas negativos começam a se apresentar corriqueiramente, é necessário procurar ajuda”, explica.

Ou seja, quando essas alterações passam a fazer parte da vida da pessoa com muita frequência, de forma intensa e duradoura, atrapalhando sua qualidade de vida, ela pode significar um transtorno mental.

Causas e sintomas da ansiedade

São diversas as causas da ansiedade, podendo ocorrer por problemas familiares, desequilíbrios cerebrais, traumas, entre outros. Os sintomas também variam e podem ser tanto físicos quanto psíquicos.

Esses pacientes podem ter tensão muscular, taquicardia ou palpitações, dor no peito, transpiração em excesso, dor de cabeça, tontura, além de sensação de desrealização, quando o ambiente parece todo diferente, ou sensação de despersonalização, quando a pessoa parece não se reconhecer mais”, resume o médico psiquiatra.

Ele alerta que é fundamental ficar sempre atento a esses indícios e, caso necessário, procurar ajuda especializada o quanto antes for possível.

Após o Carnaval, o ano começa “de verdade” e muitos querem colocar em prática as resoluções de final de ano, o que pode desencadear ou piorar quadros ansiosos

O peso da procrastinação

Segundo Maria de Lurdes Zamora Damião, especialista em Desenvolvimento Gerencial e Gestão de Carreira na Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), essa percepção impacta diretamente o planejamento, a organização e o bem-estar.

Até o Carnaval passar, é como se o tempo ficasse suspenso. Isso cria um atraso simbólico que afeta metas, produtividade e até a motivação”, explica. O problema, segundo ela, surge quando, após o feriado, as pessoas tentam compensar tudo o que não foi feito, sobrecarregando agendas e estabelecendo metas irreais. “Esse movimento gera estresse, ansiedade, exaustão e frustração”, alerta.

Além disso, a procrastinação pode desempenhar um papel fundamental na vida das pessoas. “É comum que as pessoas deixem para ‘começar de verdade’ após essa data, adiando metas e decisões importantes. O problema é que, ao fazer isso, elas podem acabar sentindo que os primeiros meses do ano foram desperdiçados”, alerta Gisele Hedler

 

Estratégias práticas para vencer a procrastinação

Para evitar essa sensação e aproveitar melhor o início do ano, Gisele Hedler sugere algumas estratégias práticas:

  1. 1. Planejamento antecipado – Estabelecer objetivos claros já em janeiro pode fazer toda a diferença. Crie um planejamento anual e quebre suas metas em pequenas etapas mensais. Dessa forma, mesmo que o Carnaval seja um marco importante no calendário, ele não interromperá o progresso do que foi iniciado antes.
  1. 2. Divisão de metas – Em vez de adiar todas as tarefas para depois do Carnaval, distribua suas responsabilidades ao longo dos primeiros meses do ano. Isso evita a sobrecarga e ajuda a manter um ritmo produtivo sem grandes interrupções.
  1. 3. Rotina gradual – Voltar ao ritmo de trabalho e estudos de forma gradual facilita a adaptação e evita a sensação de choque após o Carnaval. Pequenas ações diárias, como retomar hábitos saudáveis e organizar compromissos com antecedência, ajudam a manter a disciplina.
  1. 4. Compromisso consigo mesmo – A disciplina não precisa ser vista como um fardo. Criar hábitos consistentes desde o começo do ano permite que a produtividade flua naturalmente, tornando-se parte do cotidiano sem a necessidade de uma data específica para dar início às ações.

Março pode ser o mês mais produtivo do seu ano, desde que você encare cada dia como uma oportunidade de crescimento e evolução. Não espere uma data específica para começar”, conclui Gisele Hedler. Independentemente do Carnaval, o segredo para um ano produtivo está na constância e no planejamento. Aqueles que conseguem superar a mentalidade de adiamento e iniciar suas metas desde cedo colhem melhores resultados ao longo dos meses. Afinal, o tempo não espera, e cada dia conta na construção de um ano verdadeiramente novo.

Princípios para um recomeço produtivo e equilibrado

Para Maria de Lurdes,, a solução está em ressignificar esse modelo mental, enxergando o pós Carnaval não como um atraso, mas como uma oportunidade de recomeço consciente — um “segundo réveillon”. “É o momento ideal para reorganizar prioridades, redefinir metas e estruturar rotinas mais saudáveis e eficientes”, afirma.

Alguns princípios universais ajudam a retomar o ritmo de forma mais leve, sem cair na armadilha da sobrecarga:

  • Proatividade: assumir o controle do próprio ritmo, em vez de esperar que as circunstâncias definam o andamento do ano;
  • Clareza de objetivos: definir metas realistas e sazonais, começando com o fim em mente;
  • Prioridade consciente: focar no que realmente importa, evitando excesso de tarefas;
  • Mentalidade colaborativa: buscar soluções que beneficiem tanto o indivíduo quanto a equipe, fortalecendo o trabalho coletivo;
  • Escuta ativa: prestar atenção aos próprios limites físicos e emocionais, prevenindo estresse e ansiedade;
  • Sinergia: valorizar o trabalho em conjunto, potencializando resultados;
  • Autocuidado contínuo: investir em pausas conscientes, limites digitais e hábitos saudáveis.

Esses princípios, segundo a especialista, ajudam não apenas a reorganizar metas e combater a procrastinação, mas também a equilibrar produtividade e bem-estar emocional. “Pequenas mudanças na rotina, como melhorar a qualidade do sono, cuidar da alimentação, praticar atividades físicas e reduzir o tempo excessivo nas telas, já geram impactos significativos no foco, na energia e na disposição”, explica.

Tecnologia, foco e qualidade de vida

O uso excessivo de telas e redes sociais também merece atenção. Para a docente, a hiper conectividade compromete a concentração e amplia a sensação de sobrecarga. “Estabelecer limites digitais e criar períodos de desconexão é fundamental para preservar o foco e a saúde mental”, orienta.
Um novo começo para 2026

O principal conselho da especialista para quem deseja iniciar 2026 com mais organização, produtividade e qualidade de vida é simples: tratar o pós Carnaval como um novo marco de início. “Mais do que correr atrás do tempo perdido, é preciso criar tempo de qualidade, com rotinas sustentáveis que unam eficiência, equilíbrio e leveza”, resume.

A educadora da FECAP conclui: “O Carnaval é celebração, encontro e alegria. Incorporar essa energia ao cotidiano talvez seja o maior princípio de todos, transformar a festa em combustível para um ano mais humano, produtivo e inspirador.”

Com Assessorias

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