A liberdade de ir e vir e o direito ao crescimento profissional das brasileiras continuam sob constante ameaça. A pesquisa Viver nas Cidades: Mulheres, lançada nesta quinta-feira (5) pelo Instituto Cidades Sustentáveis e pela Ipsos-Ipec revela que sete em cada dez mulheres já sofreram assédio nas 10 principais capitais brasileiras. O estudo aponta as ruas (54%) e o transporte público (50%) como os cenários de maior hostilidade.
A insegurança é uma regra na nossa vida, não é uma exceção. Há uma proporção alta de mulheres que seguem dizendo que já sofreram assédio. O espaço público e o transporte público se destacam como os lugares mais hostis para as mulheres, sendo esse um problema recorrente e que limita a nossa liberdade, o nosso direito à cidade”, alerta Patrícia Pavanelli, diretora da Ipsos-Ipec.
O levantamento mostra que 5% das mulheres sofrem assédio em todos os espaços mensurados — da casa ao trabalho —, um dado alarmante considerando que as dez capitais pesquisadas concentram 33 milhões de habitantes. Foram ouvidas 3,5 mil pessoas, em dezembro de 2025, nas cidades de Belém, Belo Horizonte, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.
Entenda os dados da pesquisa
Apesar da queda em relação a 2014, quando o índice ficou em 74%, e das variações de acordo com as capitais, as entidades realizadoras do estudo consideram que a proporção de mulheres que sofreram assédio permanece elevada e persistente nas dez cidades.
Ruas e espaços públicos – como praças, parques e praias – são os lugares onde mais ocorrem assédios, sendo citados por 54% das mulheres. Em seguida, aparece o transporte público (citado em 50% das respostas) e, em outro patamar, o ambiente de trabalho (citado por 36% mulheres).
Bares e casas noturnas foram citados por 32%; o ambiente familiar aparece em 26% das menções; e transporte particular como táxi e ou por aplicativo, em 19% das respostas. A parcela de 5% das mulheres relatou que já sofreu assédio em todos os seis espaços mensurados na pesquisa.
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Maioria cobra aumento das penas contra agressores
© Rede Nossa São Paulo/Divulgação
A pesquisa ‘Viver nas Cidades Mulheres’ abordou ainda ações e medidas prioritárias que devem ser adotadas para combater a violência de gênero. Aumentar as penas contra os agressores aparece em primeiro lugar, com 55% das menções, seguida da ampliação dos serviços de proteção às vítimas, com 48%. Agilizar o andamento da investigação das denúncias foi uma ação citada por 37% das pessoas.
Embora 55% das mulheres defendam o aumento de penas, a promotora Fabíola Sucasas (MPSP) alerta que a via punitivista isolada não resolve o problema. “O feminicídio já tem a maior pena do Código Penal e isso não tem intimidado os agressores”, ressalta.
A solução, segundo especialistas, passa pelo cumprimento da Lei 14.457/2022, que obriga empresas com CIPA a implementar canais de denúncia eficazes, e pela criação de redes de apoio robustas que aproximem a população dos agentes de segurança.
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Distribuição desigual de tarefas domésticas
O abismo também se reflete em casa: enquanto 47% dos homens ouvidos pelo Instituto Cidades Sustentáveis acham que as tarefas domésticas são divididas igualmente, apenas 28% das mulheres concordam. Na prática, 44% das brasileiras afirmam que, embora a responsabilidade devesse ser de ambos, elas acabam fazendo a maior parte do trabalho sozinha.
Os números variam pouco entre as capitais, mas a percepção muda de forma significativa quando se observa o recorte por gênero. No total da amostra, quatro em cada dez entrevistados (39%) disseram que os afazeres de casa são responsabilidade de todos, mas as mulheres fazem a maior parte. Para parcela semelhante (37%), as atividades são divididas igualmente entre homens e mulheres.
Além disso, 32% dos homens reconhecem que as mulheres fazem a maior parte das tarefas, embora a responsabilidade seja de ambos, enquanto, entre as mulheres, esse percentual sobe para 44%.
Radiografia do assédio (dados 2025/2026)
| Local do assédio | Índice de ocorrência |
| Ruas e espaços públicos | 54% |
| Transporte público | 50% |
| Ambiente de trabalho | 35% (Sexual) / 38,2% (Moral) |
| Ambiente familiar | 26% |
Fonte: Agência Brasil



