Violência nas escolas e a ‘banalidade do mal’: como enfrentar?

“Estamos perdendo a capacidade de pensar”, alerta psicólogo. Ele recomenda mais debates de Filosofia e Sociologia nas escolas

Foto: Pixabay
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É muito desconcertante ver a imagem de um santuário violado. Assim é uma sala de aula, um santuário que no nosso imaginário deveria ser apenas um lugar de aprendizado, de vivências significativas, um ambiente imaculado, mágico e acolhedor.

A repercussão dos últimos ataques violentos em escolas brasileiras tem rendido algumas afirmações para explicar este evento absurdo que vai da falta de estrutura das escolas, no baixo investimento na educação e na falta de acesso a serviços saúde mental de qualidade para a maior parte da população.

Nos Estados Unidos, onde este tipo de fato é mais frequente, no mesmo dia houve um ataque a uma escola PARTICULAR em Nashville que deixou seis mortos, três eram crianças. Nos EUA o problema é falta de investimentos?

Voltemos para o nosso quintal onde os casos têm surgido com mais frequência. Depois do caso do adolescente de 13 anos que entrou com uma faca numa escola e matou uma professora, a polícia de São Paulo registrou outras 7 tentativas de violência em escolas na mesma semana.

O massacre de Blumenau, no dia 5 de abril, que deixou quatro crianças mortas e cinco feriadas em uma creche, colocou o país inteiro de luto e em estado de alerta.

É natural que ao pensar em violência pensemos em educação. Para o psicólogo, especialista em saúde mental Wagner Rodrigues, a questão é muito mais complexa do que investir em educação e serviços de saúde mental.

“Não adianta fazer investimentos na educação e em serviços de saúde mental sem compreender o cenário mais amplo no qual todos nós estamos inseridos, que vai muito além da escola. Acho até que seria melhor nos perguntarmos se não estamos levando à inanição o que ainda resta de humano em nós”, ressalta.

‘Estamos perdendo a capacidade de pensar’

Para o psicólogo, o que vem acontecendo no ensino, e na nossa vida de uma forma geral, é que estamos perdendo a capacidade de pensar. Ele critica nosso sistema de aprendizado e o compara ao de uma programação de computadores que visa o maior percentual de acertos nas provas objetivas do vestibular. O ChatGPT da OpenAI foi aprovado nas provas mais importantes do mundo. Mas Wagner Rodrigues lembra: “O ChatGPT não tem sentimentos, logo ele não pensa.”

Um artigo do Financial Times trouxe de volta o ensaio de 2015 de Barry Schwartz sobre o que significa aprender a pensar. Schwartz, que é um psicólogo que estuda a intersecção da psicologia com a economia, e diz que para saber pensar é preciso ir além das habilidades cognitivas como perspicácia analítica ou flexibilidade conceitual.

Ele fala que é fundamental ter “virtudes intelectuais”, como por exemplo: Amor à verdade, Humildade, Empatia, Imparcialidade, Coragem, Saber ouvir, Honestidade e Perseverança. Mas para Wagner Rodrigues é urgente debatermos a saúde mental da população que continua abalada após a pandemia. O termo morte esteve muito presente na vida de todos.

Um outro fator é a banalidade da violência tratada por líderes do governo anterior que normalizaram e facilitaram o uso de armas, além de uma oratória hostil, preconceituosa e violenta. A filósofa Hannah Arendt cunhou o termo “Banalidade do mal”, referindo-se a um fenômeno de afastamento da pessoa do seu lado mais humano, onde há uma recusa da reflexão e da responsabilidade de seus atos. O conceito de Banalidade do Mal de Arendt estava relacionado à Segunda Guerra Mundial e ao Holocausto.

Intolerância atrofia a capacidade de refletir

Hoje, não vivemos em um sistema de cultivo ao ódio tão explícito e estruturado como o nazismo, mas quanto de intolerância ainda existe porque estamos permitindo que atrofiem nossa incapacidade de refletir? Quanto de nossos valores humanos são equiparáveis aos valores atribuídos às máquinas, tais como produtividade, erro zero, preço etc.

A atiradora americana, o adolescente que esfaqueou a professora em São Paulo e o monstro de Blumenau são responsáveis por suas escolhas criminosas e devem responder por elas. Mas o psicólogo questiona: “Resta saber que tipo de condenação caberá àqueles que olham para o lado, fingindo que o problema não é deles e que dão o exemplo de como fazer para nos afastarmos de nossas capacidades mais humanas, de pensar e sentir”.

Projeto de Vida: mais debates de Filosofia e Sociologia

Por fim, o especialista aponta uma saída para a problemática que vem desafiando especialistas em Educação e Segurança Pública nos últimos dias:

“Pode parecer panaceia, mas a solução está no próprio sistema educacional, principalmente no Ensino Fundamental e Médio. Além das teclas já batidas e rebatidas de maior investimento nas escolas e na valorização dos professores, a grade curricular nacional precisa contemplar mais tempo para estudos e vivências relacionadas a diversidade, inclusão, tolerância, empatia e envolvimento com sociais práticos”, afirma Wagner Rodrigues.

Ainda segundo ele, as disciplinas de Filosofia e Sociologia deveriam trazer para a sala de aula mais debates para a compreensão da formação das culturas, das crenças, valores, visão de mundo, ideologias etc., ao invés de esquemas que ajudem a decorar respostas para o vestibular.

“Talvez seja uma boa oportunidade aproveitar a disciplina PROJETO DE VIDA do novo Ensino Médio para abarcar todos estes temas sugeridos dentro de uma metodologia de trabalho em grupo verdadeiramente colaborativo”, ressalta.

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