Violência invisível: quase metade não busca ajuda
Os números alarmantes de violência contra a mulher no Brasil evidenciam a necessidade urgente de políticas de prevenção e de apoio, não apenas para combater este tipo de crime, mas também para promover a equidade e o respeito nas instituições de saúde.
Segundo levantamento da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), 47,4% das mulheres não procuram ajuda. Por outro lado, alguns estudos apontam que mulheres em situação de violência tendem a buscar mais serviços de saúde do que aquelas que não sofrem agressões.
O médico ginecologista ocupa uma posição estratégica na linha de frente. Isso faz da consulta ginecológica um momento crucial: a escuta do médico pode ser a única chance de a vítima ser acolhida e encaminhada de forma segura.
No entanto, a falta de preparo de parte dos profissionais de saúde ainda é um entrave. Capacitações, protocolos de escuta ativa e parcerias com redes de proteção são essenciais para que o atendimento vá além do exame clínico. Também reforçam a necessidade de um olhar mais atento e humanizado por parte dos profissionais de saúde, especialmente ginecologistas e obstetras.
Cada consulta ginecológica é uma oportunidade de salvar uma vida
Para Maria Celeste Osório Wender, presidente da Febrasgo, é fundamental compreender que o ciclo de violência contra a mulher só será rompido com a atuação de uma rede articulada, comprometida e preparada. Neste sentido, os consultórios ginecológicos tornam-se espaços privilegiados de acolhimento.
Cada consulta ginecológica é uma oportunidade de salvar uma vida. Ao enxergar para além do exame físico, oferecemos cuidado integral e esperança às mulheres em situação de vulnerabilidade. É papel da ginecologia ir além da técnica e o atendimento deve ser humanizado. Segundo ela, o ginecologista deve estar preparado para o acolhimento, garantindo uma escuta sem julgamentos. “Cada consulta ginecológica é uma oportunidade de salvar uma vida. Ao enxergar para além do exame físico, oferecemos cuidado integral e esperança às mulheres em situação de vulnerabilidade”, reforça Dra. Maria Celeste.
Os sinais da violência contra a mulher percebidos na consulta ginecológica
Trato genital inferior pode ser a porta de entrada para o diagnóstico e acolhimento de mulheres vítimas de violência
Quando se fala em saúde da mulher, algumas áreas permanecem, ainda hoje, à margem do debate público. Uma delas é o trato genital inferior – composto pela vulva, vagina, colo do útero e suas estruturas adjacentes. Essa região do corpo feminino, além de demandar atenção clínica, pode ser também um importante ponto de alerta para identificar sinais de violência doméstica.
No contexto ginecológico, sinais como dor persistente durante o exame de toque, lesões repetidas na vulva e na vagina, sangramentos inexplicáveis, infecções recorrentes e até o medo ou recusa em se despir para uma avaliação podem indicar mais do que uma condição clínica: podem ser vestígios de agressão sexual ou emocional.
Os médicos e médicas ginecologistas e obstetras podem exercer um importante papel no acolhimento e orientação das mulheres, pois mantêm um contato próximo e recorrente com elas nas diferentes fases da vida. Assim, é preciso estarmos atentos para estas situações de violência”, explica a especialista.
Entre as boas práticas de atendimento médico está afastar situações de vulnerabilidade para apresentar resistência em consentir a relação sexual, como nos estados de embriaguez, sob efeito de drogas, com déficit cognitivo ou mesmo ser coagida ao ato por pressão do namorado ou de amigos, entre outras”, comenta
Nós devemos agir e amparar as mulheres na identificação da violência e na capacitação para as tomadas de decisões. O conhecimento permite que o médico atue, desde a escuta adequada, o acolhimento, notificação, registro, acompanhamento e encaminhamento articulado e intersetorial. Ao enxergar para além do exame físico, oferecemos cuidado integral e esperança às mulheres em situação de vulnerabilidade”, afirma.
O papel de outros profissionais de saúde na rede de proteção
Iniciativa destaca o papel estratégico de cirurgiões-dentistas e demais profissionais de saúde na identificação e acolhimento de vítimas
Não são apenas ginecologistas e obstetras. A violência contra a mulher deixa marcas que vão além do psicológico, manifestando-se frequentemente em traumas orofaciais. Por isso, o consultório odontológico é, muitas vezes, o primeiro local onde marcas físicas de agressão podem ser detectadas.
Diante desta realidade, a capacitação de dentistas para identificar sinais de agressão e saber como proceder legalmente é vital para reduzir as estatísticas de violência contra a mulher e evitar que culminem em feminicídio.
Com este propósito, recentemente, o Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (Crosp), em parceria com o projeto Vozes da Saúde e o Fórum dos Conselhos das Atividades Fim da Saúde (FCAFS), oficializou uma união estratégica para enfrentar a violência contra a mulher.
A iniciativa, debatida durante o 43º Congresso Internacional de Odontologia de São Paulo (CIOSP), é vista como um “momento histórico” no encontro entre os diversos conselhos de saúde. “A proposta é transformar o atendimento clínico em um espaço de reflexão, diálogo e, sobretudo, segurança para a paciente”, ressaltou Roberta Spinosa, secretária do CROSP.
Profissionais de diferentes áreas da saúde envolvidos
A parceria envolve uma rede ampla que inclui representantes da Enfermagem, Fisioterapia, Terapia Ocupacional, Nutrição, Serviço Social, Medicina Veterinária, Psicologia e Educação Física. Essa visão multidisciplinar garante que, independentemente da porta de entrada da paciente no sistema de saúde, exista um profissional treinado para enxergar o que, muitas vezes, o silêncio tenta esconder.
Como parte das ações práticas dessa união, os profissionais agora contam com recursos educativos fundamentais para o manejo desses casos. Um dos destaques é o Guia de Violência no Trabalho do programa Capacita+, um e-book gratuito disponibilizado pelo Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP). O material oferece diretrizes sobre como agir diante de situações de abuso e assédio.
A violência contra a mulher não atinge só mulheres, mas toda a sociedade e todos os corpos”, afirmou Raphaela Fini, representante do Conselho Regional de Serviço Social de São Paulo (CRESS-SP), durante o painel de debates.
Para a psicologia, o primeiro passo para a solução é o reconhecimento técnico do crime. Beatriz Dotta, representante do Conselho Regional de Psicologia (CRP), enfatiza que é preciso “dar nome” às agressões para combatê-las.
Seja física, psicológica, moral, patrimonial ou sexual, é preciso identificar a violência, procurar ajuda nos canais de denúncia e se educar para desconstruir e debater. Esses são os passos principais para promover a prevenção”, declarou Beatriz.
E quando a profissional é a vítima?
6 em cada 10 mulheres médicas já relataram algum tipo de assédio
Realizada desde março de 2025, junto com as sociedades estaduais, entre elas a Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (Sogesp), a campanha nacional #EuVejoVocê – Pelo fim da violência contra a mulher em todas as fases da vida, é focada em capacitar esses especialistas na luta pela redução da violência contra a mulher em todas as fases da vida, incluindo a mulher médica em exercício.
Além de atuar no combate à violência, a mulher médica é, muitas vezes, uma vítima e sofre, inclusive, no ambiente de trabalho. Por isso, outro aspecto tratado durante a campanha #EuVejoVocê é a “Violência contra a mulher médica”.
Dados apontam que seis em cada dez mulheres médicas já relataram algum tipo de assédio, seja moral ou sexual, no ambiente de trabalho. A pesquisa, conduzida pela Associação Médica Brasileira e pela Associação Paulista de Medicina, revelou que 51,14% das médicas já sofreram agressões verbais ou físicas.
Campanha inclui mulheres médicas
As entidades médicas de ginecologia e obstetrícia de todo o país se uniram na organização de debates e encontros entre os profissionais das especialidades para a discussão de ações efetivas para redução da violência contra a mulher em todas as fases da vida, além da produção de conteúdo para sensibilizar e informar a sociedade, celebrando e empoderando a profissão de ginecologista, destacando sua relevância no cuidado à mulher.
Com estas ações, as entidades buscam empoderar seus profissionais, colocando-os como agentes sempre atentos e preparados para prevenir e oferecer suporte às mulheres em situação de vulnerabilidade, bem como promover discussões e ações para garantir as condições ideais de trabalho a todas as mulheres.
A iniciativa tem, entre os seus objetivos, discutir ações que possam impactar na redução da violência contra a mulher, incluindo a mulher médica em exercício“, destaca Marair Gracio Ferreira Sartori, diretora de Defesa Profissional da Sogesp. A entidade inseriu o tema entre os eventos científicos realizados em 2025 e na programação do 30º Congresso Sogesp 2025, promovido em agosto.
As múltiplas faces da violência em cada fase da vida da mulher
De acordo com a Febrasgo, a violência contra a mulher está presente em todas as fases da vida:
Na infância e adolescência:
- Mais de 50% das vítimas de abuso sexual são meninas com menos de 13 anos.
- Uma em cada 3 meninas sofreu algum tipo de violência antes dos 18 anos.
Na idade adulta:
- O Brasil registra cerca de 2.500 novos processos judiciais por dia ligados à violência contra a mulher.
- Entre mulheres de 18 a 24 anos, 1 em cada 5 já sofreu abuso sexual.
- De janeiro a maio de 2024, foram contabilizadas 380.735 ações judiciais por violência doméstica.
- 30% das brasileiras afirmam já ter sofrido violência dentro de casa.
Mulheres 60+:
Entre 2020 e 2023, o país teve 408.395 denúncias de violência contra idosos.
- 15% das mulheres idosas sofrem abusos físicos ou psicológicos.
- A violência contra idosas inclui apropriação de bens, controle financeiro, abandono, isolamento e agressões emocionais e físicas dentro do lar.
As cinco faces da violência contra a mulher
A violência de gênero acompanha a mulher desde a infância até a vida adulta, manifestando-se de cinco formas principais, conforme definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS): física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. A OMS reconhece a violência doméstica como uma grave violação dos direitos humanos e um problema de saúde pública.
Dados divulgados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024 apontam um crescimento em todas as modalidades de violência contra mulheres. Segundo o documento, houve aumento de 48,7% nos casos de importunação sexual (41.371 registros), de 33,8% nos casos de violência psicológica (38.507 registros) e de 9,8% nas agressões decorrentes de violência doméstica (258.941 registros).
- Física – Agressões que causam dor ou ferimentos.
- Psicológica – Controle emocional, intimidação e manipulação.
- Sexual – Qualquer ato sem consentimento.
- Patrimonial – Apropriação ou destruição de bens e recursos.
- Moral – Calúnias, difamações e insultos à honra.
Saiba mais sobre a campanha #EuVejoVocê
Ginecologistas e obstetras se unem em campanha pelo fim da violência contra a mulher
O acesso à informação é uma das principais maneiras de combater esse mal. Assim, a campanha #EuVejoVocê busca sensibilizar e informar a sociedade sobre a violência contra a mulher, promover a discussão sobre o tema e engajar a comunidade médica, bem como estruturar pastas permanentes sobre diretrizes, mensagens-chaves e ações efetivas no combate à violência contra a mulher.
A Febrasgo reforça a necessidade de ação coletiva e imediata no combate à violência contra a mulher em todas as fases da vida. A instituição destaca o papel essencial da escuta médica como ferramenta de proteção, acolhimento e rompimento do ciclo de violência. O objetivo da campanha é desconstruir os discursos que sustentam a violência, promovendo uma reflexão constante sobre o tema”.
A campanha #EuVejoVocê compartilha duas cartilhas para ampliar a conscientização e oferecer orientação prática:
- Para a população geral: informações claras sobre os tipos de violência mais comuns em cada fase da vida da mulher e orientações sobre como buscar ajuda. Acesse: Cartilha “Eu Vejo Você”
- Para ginecologistas e obstetras: um checklist com diretrizes práticas para identificar e encaminhar casos de violência contra a mulher em todas as fases da vida.
Acesse: Cartilha Médica Orientativa
Como denunciar e buscar ajuda
Se você suspeita de algum caso de abuso ou é vítima de violência, utilize os canais oficiais:
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Disque 100: Direitos Humanos (gratuito e anônimo).
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Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher.
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Polícia Militar (190): Para casos de emergência e flagrante.





