No quadro semanal Vida e Ação desta segunda-feira (18) na Rádio Roquette Pinto, a jornalista Rosayne Macedo destaca uma questão muito séria que atinge as famílias brasileiras: a adultização infantil,  tema que voltou ao centro do debate na última semana após denúncias do influenciador Felipe Bressanim, mais conhecido como Felca. O quadro é transmitido toda segunda-feira, no programa ‘Painel’, apresentado por Jorge Ramos e produzido por Alicinha Silveira. A emissora pode ser sintonizada na 94.1 FM e também acessada pela internet – veja aqui.

Ao mostrar casos concretos de exposição e sexualização de crianças nas redes sociais, abordando o papel das plataformas digitais e das famílias, o vídeo-denúncia publicado pelo influencer trouxe à tona um tema urgente e ainda pouco enfrentado com a seriedade necessária no Brasil, apesar de inúmeros alertas ao longo dos últimos anos”, disse a editora do Portal Vida e Ação. 

Felca denunciou, em seu canal, a adultização e exploração de crianças em conteúdos digitais. Especialistas em saúde mental alertam que o fenômeno compromete o desenvolvimento emocional e cognitivo das crianças, aumentando os riscos de ansiedade, depressão, baixa autoestima e dificuldades de socialização.

O episódio resultou na prisão do influenciador Hytalo Santos e seu marido, Israel Nata Rezende, o Euro. A repercussão foi imediata e ganhou novos desdobramentos e tem gerado muitas discussões no Congresso Nacional. No Senado Federal, 70 parlamentares já assinaram o pedido de abertura de uma CPI para investigar o papel de influenciadores e plataformas na exploração infantil online.

Pelo menos 32 projetos de lei foram apresentados à Câmara dos Deputados para criminalizar a adultização infantil, suspender a monetização de conteúdo produzido por menores e criar exigências legais para publicações envolvendo crianças. O tema entrou na pauta prioritária da Câmara e deve ser votado ainda esta semana. No Rio de Janeiro, também ganhou espaço na pauta da Assembleia Legislativa (Alerj).

Infelizmente, há parlamentares que se manifestam contra as regras propostas para regular as plataformas digitais que permitem crimes diversos, alegando que isso poderia ferir a ‘liberdade de expressão’. Mas liberdade para cometer crimes contra as nossas crianças  e adolescentes pode???”, questiona, indignada, a jornalista, que é mãe de uma jovem de 19 anos e há nove anos vem falando sobre o tema aqui no Portal Vida e Ação. 

Mais de 71 mil denúncias de imagens de abuso e exploração sexual infantil.

Adultização precoce é quando crianças são expostas precocemente a responsabilidades, comportamentos e conteúdos do universo adulto. Esse debate tem se intensificado com a influência das redes sociais e o acesso irrestrito à internet.  No programa, Rosayne Macedo citou dados de pesquisas recentes que acendem o alerta sobre o tema.

No Brasil, os casos mais graves envolvem exploração e violência sexual online, que têm crescido de forma alarmante: em 2023, foram registradas mais de 71 mil denúncias de imagens de abuso e exploração sexual infantil, como alerta o Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP SP).

Nos últimos 12 meses, mais de 300 milhões de crianças em todo o mundo — cerca de 12,6% da população infantil global — foram vítimas de exploração ou abuso sexual on-line, incluindo produção e distribuição não consentida de imagens e vídeos sexuais, de acordo com um estudo da ONG ChildLight.

Em outro estudo, da Internet Watch Foundation, estima-se que 70% das vítimas deste tipo de material tenham menos de 12 anos. Mas apesar da gravidade, apenas 30% dos países criminalizam de forma abrangente todas as formas de exploração sexual contra crianças e adolescentes, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Já os casos de extorsão de menores com motivação financeira aumentaram 1000% entre 2019 e 2023, de acordo com o National Center for Missing & Exploited Children (NCMEC).

Na América Latina, uma pesquisa inédita realizada pelo ChildFund no Equador (2025) identificou os principais riscos digitais enfrentados por crianças e adolescentes: cyberbullying, assédio em redes sociais, perfis falsos, violência sexual digital e sexting – que é o compartilhamento ou recebimento de mensagens, fotos ou vídeos de conteúdo sexual por meio de celulares, redes sociais ou outros meios digitais.

Segundo o estudo, 1 em cada 10 já sofreu ameaças, chantagens ou divulgação não consentida de imagens íntimas, muitas vezes por pessoas próximas ou desconhecidos. O grooming (prática criminosa em que um adulto ou adolescente estabelece contato com uma criança ou outro adolescente pela internet com intenção de abuso e exploração sexual) representa mais de 50% das denúncias de violência sexual, afetando principalmente meninas entre 11 e 17 anos.

O debate ganhou ainda mais visibilidade nas últimas semanas quando o youtuber Felca denunciou, em seu canal, a adultização e exploração de crianças em conteúdos digitais. O episódio resultou em denúncia do Ministério Público, derrubada de perfis no Instagram e discussões no Congresso Nacional, evidenciando que os “monstros” virtuais são uma ameaça real e cotidiana.

Precisamos cuidar das nossas crianças e não incentivar que se exponham de forma inapropriada nas redes sociais. Afinal, os “monstros” virtuais são uma ameaça real e cotidiana. E precisamos todos agir para coibir isso”, disse a jornalista, lembrando que o Portal Vida e Ação traz uma série de matérias sobre o tema em nossa editoria Família. Acompanhe e fique por dentro desse debate.

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Denúncias de abuso contra crianças crescem 114% após vídeo

Acesso internet celular
© Marcello Casal Jr/Agência Brasi

As denúncias de material explícito envolvendo crianças e adolescentes recebidas pela organização não governamental (ONG) SaferNet, que atua na promoção e defesa dos direitos humanos na internet, aumentaram 114% desde que o influenciador e humorista Felca contou como os criadores de conteúdo ganham dinheiro explorando menores de idade em situações sexualizadas.

Ao gravar o vídeo, que teve mais de 46 milhões de visualizações até esta segunda-feira (18(, o influenciador denunciou a monetização de vídeos em que crianças e adolescentes são exploradas sexualmente.

A medição foi realizada na última terça-feira (12) no sistema de denúncias da ONG, que mantém há quase 20 anos o Canal Nacional de Denúncias de Crimes e Violações a Direitos Humanos na web. Entre 6 de agosto, data em que foi postado o vídeo, e 0h de terça-feira (12), a SaferNet recebeu 1.651 denúncias únicas. No mesmo período do ano passado, o hotline da organização havia recebido 770 denúncias, um aumento de 114%.

Para a comparação, a SaferNet levantou os números do primeiro semestre de 2025 (28.344 denúncias) em relação ao primeiro semestre de 2024 (23.799 denúncias). O aumento de pornografia infantil entre um ano e outro havia sido de apenas 19%, considerado normal após a queda de 26% anotada em 2024. 

Denúncias únicas são as que a SaferNet recebe de forma anônima de usuários da internet e disponibiliza ao Ministério Público Federal (MPF), após a filtragem que realiza. Nessa avaliação, a SaferNet coleta evidências, exclui os links repetidos e agrupa os comentários recebidos com os links.

A análise do mérito (do teor dos links denunciados e se há indício de crime) é feita por técnicos e analistas do Ministério Público Federal, com atribuição legal para iniciar e conduzir investigações cíveis e criminais em temas de direitos humanos. 

Denúncias crescem

Para o presidente da SaferNet, Thiago Tavares, esse crescimento de denúncias de imagens de abuso de exploração sexual infantil na internet em agosto é efeito do vídeo viral de Felca. “Há anos, o tema do abuso sexual infantil online não gerava um debate tão grande na sociedade brasileira e a repercussão do vídeo, obviamente, estimulou as pessoas a denunciar” opina.

Felca, em seu vídeo, apontou duas questões que a SaferNet vem denunciando sistematicamente desde o ano passado: o uso do Telegram como plataforma para distribuir e vender os vídeos produtos dos abusos e exploração de crianças, e o uso por esses criminosos de acrônimos, siglas e emojis para falar desse tipo de conteúdo sem chamar atenção, tanto ao vender as imagens dos abusos, quanto para aliciar novas vítimas.

É o caso, por exemplo, da sigla cp (child porn), encontrada em vários grupos de troca e venda de pornografia infantil e mostrada no vídeo viral do influenciador.  SaferNet não recomenda o uso da expressão pornografia infantil porque ela minimiza a gravidade que têm esses crimes. A posse, o registro, a distribuição e a venda de imagens de abuso e exploração sexual infantil perpetuam e multiplicam a dor de crimes mais graves: o estupro, o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes.

Campanha alerta: monstros na internet são reais 

Metade dos adolescentes brasileiros já sofreu violência sexual on-line

Embora o tema tenha ganhado repercussão agora, com o debate e viralização do assunto sobre sexualização e adultização infantil, o ChildFund – organização que há quase 60 anos atua no Brasil na defesa dos direitos de crianças e adolescentes – lançou um estudo no final de 2024 chamado Mapeamento dos Fatores de Vulnerabilidade de Adolescentes Brasileiros na Internet, que já tinha revelado dados alarmantes no Brasil, como:

  • 54% dos adolescentes brasileiros já sofreram algum tipo de violência sexual on-line — cerca de 9,2 milhões de jovens, com ou sem interação direta de um agressor;
  • Apenas 35% dos adolescentes recebem supervisão parental;
  • 94% dos adolescentes não sabem como proceder no caso de alguma violência sofrida;
  • Com o aumento da idade, cresce o tempo de uso da internet e o risco de exposição — jovens de 17 e 18 anos têm até 1,3 vezes mais chances de sofrer violência on-line que adolescentes de 15 anos.

Diante do momento atual, o ChildFund reforça a proteção on-line como prioridade com a campanha internacional “Os Monstros na Internet São Reais”, lançada em seis países da América Latina (Brasil, México, Guatemala, Honduras, Equador e Bolívia). A iniciativa utiliza relatos reais de adolescentes, vídeos impactantes, materiais educativos e recursos gratuitos para apoiar famílias e educadores na identificação e prevenção de riscos digitais, como assédio, cyberbullying, grooming e exploração sexual.

A metáfora dos “monstros” traduz o medo do desconhecido e dá forma concreta a ameaças virtuais que muitas vezes passam despercebidas. Com garras, dentes e olhos atentos, os monstros simbolizam predadores digitais, conteúdos abusivos e manipulações disfarçadas de entretenimento ou amizade, ajudando crianças, famílias e educadores a reconhecer, nomear e enfrentar os perigos da internet.

A campanha completa, com vídeos, orientações e formas de engajamento, está disponível em: www.monstrosnainternetsaoreais.com. O ChildFund também oferece cartilhas acerca do tema e o curso “Safe Child” de proteção para crianças e adolescentes na internet, disponível aqui.

Sobre a SaferNet

A Safernet completará 20 anos em dezembro deste ano. Durante sua trajetória, essa ONG brasileira tornou-se referência na promoção dos direitos humanos na internet. A ONG mantém o Canal Nacional de Denúncias, conveniado ao Ministério Público Federal e o Canal de Ajuda.org.br, o Helpline, para vítimas de violência e outros problemas online. A Safernet promove o uso seguro da internet com projetos educacionais como a Disciplina de Cidadania Digital.

Com Assessorias e Agência Brasil

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