Apesar de potencialmente fatal, a tuberculose é uma doença tratável e curável, mas o sucesso da cura depende da rapidez do diagnóstico e tratamento. Neste Dia Mundial de Combate à Tuberculose (24 de março), a Organização Mundial da Saúde (OMS) cobrou maiores esforços para erradicar a doença e ampliar o acesso a novas tecnologias, incluindo testes diagnósticos que podem ser feitos no próprio local de atendimento e swabs de língua que detectam a bactéria mais rapidamente.
Em nota emitida nesta terça-feira (24), a entidade destacou que as novas tecnologias representam mais um passo rumo à detecção precoce e ao tratamento mais rápido de uma das doenças infecciosas mais mortais do mundo. “Esses testes portáteis e fáceis de usar aproximam o diagnóstico da tuberculose dos locais onde as pessoas normalmente buscam atendimento”.
A OMS informa que esses testes custam menos da metade do preço de exames moleculares já existentes e podem ajudar diversos países a expandir o acesso à testagem: “os testes podem funcionar por meio de bateria e fornecem resultados em menos de uma hora, permitindo que os pacientes iniciem o tratamento mais cedo”, completou a nota.
Em todo o mundo, mais de 3,3 mil pessoas morrem por dia vítimas da doença. Os números da agência mostram ainda que há 29 mil novos casos de tuberculose por dia.
Os esforços globais para combater a tuberculose salvaram cerca de 83 milhões de vidas desde 2000; no entanto, os cortes no financiamento global da saúde ameaçam reverter esses avanços”.
A adoção de ferramentas de diagnóstico rápido tem sido um desafio em muitos países, em parte, devido aos altos custos e à dependência do transporte de amostras para viabilizar os testes em laboratórios centralizados”, destacou a entidade.
Para a OMS, esses esforços podem contribuir para alcançar metas globais de acesso aos testes de tuberculose e resistência a medicamentos, além de reduzir atrasos no início do tratamento e conter a transmissão.
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No Brasil, a testagem da Infecção Latente por Tuberculose (ILTB) está disponível para crianças maiores de dois anos e menores de dez, que tiveram contato com pessoas com tuberculose ativa, candidatos a transplantes de órgãos e pessoas vivendo com HIV ou doenças inflamatórias imuno mediadas, como a psoríase, doença de crohn e artrite reumatoide.
No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza o teste IGRA, exame de sangue recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para identificar a tuberculose latente com alta precisão, O teste IGRA é essencial para pessoas que se enquadram nesses grupos, devido à fase inicial assintomática da doença, que pode durar muito tempo até que a imunidade do paciente seja afetada.
O método presenta um diagnóstico rápido e seguro, com a precisão de testes laboratoriais, e não requer uma análise clínica do paciente após sua realização, como antes era feito com o teste tuberculínico, o antigo PPD. O sangue do paciente é coletado e levado para análises laboratoriais que levam até até 24 horas para dar o resultado, com alto potencial de precisão, agilizando o manejo clínico e a tomada de decisão.
Esse novo exame é essencial para reduzir as margens de falso-negativo, que costumava acontecer com mais frequência entre as pessoas que convivem com HIV. A partir de um resultado positivo, a pessoa já é direcionada para o tratamento, que pode ser feito pelo próprio SUS, com medicamentos e duração variáveis, compatíveis com a fase e a gravidade em que a doença foi diagnosticada. Além do SUS, o teste IGRA está disponível na rede privada, em 59 redes de laboratórios em todo o país.
Para orientações sobre onde realizar o teste rápido, acesse o portal do Ministério da Saúde.
Especialistas alertam para diagnóstico precoce
O Dia Mundial de Combate à Tuberculose (24 de março) reforça o compromisso global iniciado em 1882 por Robert Koch para desfazer estigmas e garantir que o diagnóstico precoce e o tratamento adequado chegue a todos os perfis sociais.
Especialistas ouvidos pelo VIDA E AÇÃO fazem um alerta importante sobre a realidade da tuberculose no Brasil, reconhecendo que, embora a doença seja cercada de desafios, a estratégia mais eficaz para o controle público é a identificação rápida dos sintomas.
A tuberculose é transmitida por aerossóis respiratórios, como tosse, fala ou espirro de pessoas com a doença ativa e não tratada. O diagnóstico precoce é a ferramenta mais eficaz para interromper essa cadeia. Aos primeiros sinais de suspeita de contato ou sintomas, é recomendada a busca por ajuda e orientação médica.
A transmissão é significativa: uma pessoa com tuberculose pulmonar ativa e sem tratamento pode infectar de 10 a 15 pessoas em sua comunidade. Portanto, é crucial o diagnóstico precoce para interromper a disseminação e garantir um tratamento eficaz”, destaca André Doi, médico patologista clínico e diretor científico da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML).
Diagnóstico e tratamento pelo SUS
No Brasil, tanto o diagnóstico quanto o tratamento podem ser feitos por meio do Sistema Único de Saúde, o SUS. O diagnóstico é realizado de forma acessível na rede pública por meio de exames de escarro, radiografias e testes rápidos.
Exames laboratoriais convencionais na interrupção da disseminação da doença, bem como na garantia de um tratamento eficaz. O diagnóstico pode ser feito por exames laboratoriais, como a baciloscopia do escarro, e complementado por raios-x de tórax.
Os exames laboratoriais convencionais desempenham um papel fundamental nesse processo, permitindo a detecção precisa da doença e a determinação da sensibilidade do patógeno aos antibióticos”, explica André Doi.
Sintomas e o marco dos 15 dias
Tosse persistente por três semanas é o principal sinal de alerta; tratamento gratuito pelo SUS garante a cura e interrompe a cadeia de transmissão
A detecção precoce continua sendo a principal ferramenta para frear a transmissão e evitar lesões pulmonares progressivas. De acordo com Filipe Piastrelli, infectologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, é preciso estar atento aos sinais clássicos que muitas vezes são negligenciados.
Tosse persistente por mais de três semanas, emagrecimento inexplicado e suor noturno precisam acender o alerta: é hora de procurar uma unidade de saúde”, afirma o Dr. Piastrelli.
O infectologista Frederico Zago, do Mário Palmério Hospital Universitário (MPHU), orienta que qualquer pessoa com tosse por três semanas ou mais deve procurar uma unidade de saúde. A investigação clínica imediata é o que impede que novas pessoas sejam infectadas. “Quanto mais cedo identificarmos a doença, maiores são as chances de cura e menor o risco de transmissão”, explica
A infectologista Juliana Caetano Barreto Cypreste Oliveira, que atua em Goiânia, enfatiza que o tempo de persistência da tosse é o principal divisor de águas para a investigação médica.
Se você tem uma tosse por mais de 15 dias, perdendo peso, com ou sem catarro, procure o médico. A tosse prolongada indica uma possível lesão pulmonar causada pela micobactéria”, alerta a especialista.
Além da tosse, outros sinais de alerta incluem:
- Febre baixa (geralmente ao final da tarde);
- Suor excessivo durante a noite;
- Falta de apetite e emagrecimento acentuado;
- Cansaço, fraqueza e dor no peito;
- Escarro com sangue (em casos mais avançados).
O perigo do abandono do tratamento
É fundamental reforçar que a tuberculose tem cura. O tratamento padrão dura, no mínimo, seis meses e é oferecido de forma integral e gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em todo o território nacional e, se seguido rigorosamente, garante a recuperação total do paciente.
Os tratamentos típicos geralmente incluem uma mistura de antibióticos administrada ao longo de vários meses. Segundo André Doi, seguir rigorosamente o tratamento é determinante para prevenir complicações e diminuir a chance de resistência aos medicamentos.
É crucial ressaltar que o tratamento não só ajuda o paciente individualmente, mas também tem um impacto relevante na saúde pública, diminuindo a propagação da doença e evitando novos casos”, detalhou o especialista, acrescentando que para que o tratamento tenha bom resultado, o diagnóstico precisa acontecer o mais cedo possível.
Embora o paciente deixe de transmitir a doença em cerca de duas a três semanas após o início da medicação, a melhora clínica rápida costuma levar ao abandono precoce do tratamento — um erro grave que gera a tuberculose multirresistente. Nesses casos, a cura torna-se muito mais difícil, exigindo medicamentos mais caros, com maiores efeitos colaterais e um tempo de terapia que pode chegar a um ano.
A conscientização e o fim do preconceito são os primeiros passos para que o Brasil consiga, finalmente, tratar a tuberculose como uma doença do passado, e não uma ameaça do presente. Enquanto a vacina BCG protege contra formas graves na infância, a prevenção no adulto envolve etiqueta respiratória (uso de máscaras por infectados) e manutenção de ambientes ventilados.
Para acompanhar os boletins epidemiológicos oficiais, consulte o site do Ministério da Saúde ou a plataforma da OMS.
Mitos e verdades sobre a tuberculose
Para ajudar a esclarecer sobre a doença, a infectologista Tassiana Galvão, do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH) do Cejam – Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”, responde a alguns dos principais mitos e verdades relacionados ao quadro. Confira:
Tuberculose não tem cura?
Mito! O tratamento é longo, geralmente de 6 a 12 meses, dependendo da forma clínica da doença. No entanto, realizando o tratamento completo e seguindo as orientações médicas, as chances de cura são altíssimas. Mas é fundamental que o paciente mantenha as consultas em dia, controle as comorbidades existentes e esteja ciente das possíveis interações que podem ocorrer com o uso de outras medicações concomitantes.
O tratamento só é realizado de forma particular?
Mito! O tratamento é totalmente disponibilizado pelo Sistema único de Saúde (SUS). As medicações são retiradas em centros específicos ou unidades básicas de saúde (UBS).
A tuberculose pode levar ao óbito?
Verdade! A tuberculose pode ser uma doença fatal. Se não diagnosticada e tratada precocemente, a tuberculose pode causar danos irreversíveis aos pulmões, levando à insuficiência respiratória e, consequentemente, à morte.
Existe teste rápido para tuberculose?
Verdade! Em alguns locais, há a possibilidade de realizar o GeneXpert, um teste rápido que pode detectar a presença da bactéria causadora da doença e identificar a resistência ao antibiótico rifampicina, usado no tratamento de tuberculose. No entanto, é importante ressaltar que esse teste não substitui outros exames complementares, como a baciloscopia de escarro.
Essa doença só afeta o pulmão do paciente?
Mito! A bactéria Mycobacterium tuberculosis, que causa a tuberculose, pode afetar várias partes do corpo. A doença pode se espalhar para outros órgãos, como ossos, rins e sistema nervoso central, resultando em complicações graves. Porém, os pulmões são os órgãos mais comumente afetados.
A tuberculose se transmite pelo compartilhamento de roupas, lençóis, copos e outros objetos?
Mito! A transmissão ocorre, principalmente, por via aérea, quando uma pessoa infectada libera partículas contendo as bactérias no ar ao tossir, espirrar ou falar.
Pessoas que fumam cigarros correm mais risco de ter a doença?
Verdade! Tabagistas e ex-fumantes geralmente já têm lesões prévias nos pulmões. E o acometimento sobreposto em um órgão já frágil pode gerar complicações mais sérias e até dificultar o tratamento em caso de diagnóstico.
Existe um público que é mais atingido?
Verdade! A população mais vulnerável inclui pessoas com baixo nível socioeconômico, portadores do vírus HIV/Aids, usuários de drogas, indivíduos privados de liberdade e populações indígenas. Outra observação: a tuberculose afeta, frequentemente, adultos jovens, entre 20 e 40 anos. No entanto, pode acometer qualquer faixa etária.
A tuberculose pode ser agravada se a pessoa já tiver outros problemas de saúde?
Verdade! Principalmente, em casos que a pessoa já tem algum acometimento pulmonar prévio, como Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), neoplasia, fibrose pulmonar ou imunossupressão.
Para mais informações sobre sintomas e locais de atendimento, consulte o portal do Ministério da Saúde ou acesse o portal da Anvisa. Veja ainda as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Com Assessorias e Agência Brasil






