Transplante de córnea: fila de espera leva em média 21 meses no RJ

Médico cria técnica que amplia chance de paciente transplantado. Hospital de Itaperuna realiza primeiro transplante de córnea da região

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transplante de córnea é responsável pela recuperação da visão de 90% das pessoas com deficiência visual causada por problemas nessa parte do olho, mas, apesar disso, o tempo médio de espera pelo procedimento no Brasil pode chegar a 13,2 meses, gerando muita angústia para quem precisa da cirurgia para voltar a enxergar. Em alguns estados, o tempo pode chegar a quase dois anos. Números do Sistema Nacional de Transplantes (SNT) mostram que o Rio de Janeiro ocupa o terceiro lugar nesse ranking: o tempo médio de espera chega a 21,4 meses – no Pará, é de 26,2 e no Maranhão, de 22,6 meses.

No ‘Setembro Verde’, mês que destaca a conscientização sobre doações de órgãos e tecidos, os dados acendem um alerta para as dificuldades em relação ao transplante que tem a maior procura no Brasil. De acordo com o último relatório anual da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), a córnea foi o órgão mais transplantado em 2022. Foram quase 14 mil procedimentos, mas o número ainda ficou abaixo do esperado para cobrir a demanda necessária pelo procedimento no país.

Segundo a ABTO, o Registro Brasileiro de Transplantes aponta que 21.161 pessoas aguardavam pelo transplante de córnea, em 2022, ficando atrás apenas do tamanho da fila de rim. Com isso, cerca de 4,9 mil pessoas que precisavam do transplante no ano passado ainda estão na fila de espera, que alcançou tamanho inédito – pela primeira vez, mais de 50 mil pessoas aguardam por um transplante de órgão.

Já dados coletados do SNT pelo Observatório do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) revelam que havia 24.319 pacientes (dados de março de 2023) à espera do procedimento na fila única do Sistema Único de Saúde (SUS) – que engloba também pacientes das redes privada e suplementar. A fila quase dobrou com relação a 2019, quando eram 12.212 indivíduos. Em 2020, esse total já era de 16.337 e, em 2021, um total de 20.134.

Mais de 4.200 pacientes aguardam chance de voltar a enxergar no RJ

A alta demanda por córneas saudáveis contrasta com a oferta limitada, o que resulta em uma fila de espera significativa em todo o Brasil e, especialmente, no Rio de Janeiro. O período de espera prolongado é um desafio que muitos pacientes enfrentam enquanto aguardam por um transplante de córnea que pode significar a diferença entre a escuridão e a luz.

“O Rio de Janeiro enfrenta uma crescente demanda por transplantes de córnea, com mais de 4.200 pacientes aguardando ansiosamente por uma oportunidade de enxergar novamente. Hoje estamos operando pacientes que entraram na fila em 2019”, diz Paulo Philippe, oftalmologista e chefe do ambulatório de córnea do Hospital Federal de Bonsucesso e do Hospital do Olho de Duque de Caxias.

Dois casos recentes na cidade do Rio de Janeiro, atendidos pelo médico, ilustram a importância das doações de córnea: Maria Helena, uma recém-nascida que nasceu cega devido a uma rara anomalia ocular, e Manuella Vianna, uma jovem que inicialmente acreditou se tratar de uma alergia por conta do uso de lentes de contato e, infelizmente, perdeu a visão em ambos os olhos.

“As pacientes tiveram a chance de recuperar a visão por meio de transplantes de córnea, mostrando como a generosidade dos doadores pode trazer esperança e transformar vidas”, pontua o especialista. “Minha principal preocupação é aumentar o acesso ao transplante de córnea, pressionando autoridades e buscando soluções para melhorar a situação. A generosidade dos doadores também é fundamental, proporcionando uma nova perspectiva de vida para aqueles que dependem desse ato solidário”, afirma o Dr. Paulo.

Paulo Philippe, oftalmologista e chefe do ambulatório de córnea do Hospital Federal de Bonsucesso e do Hospital do Olho de Duque de Caxias (Foto: Divulgação)

Nova técnica devolve visão a recém-nascida com anomalia ocular rara

Logo ao nascer, em fevereiro de 2022, Maria Helena foi diagnosticada com Anomalia de Peters Tipo 1, uma condição rara que afeta a visão devido à opacidade das córneas, que resultou em sua cegueira. Devido à gravidade do caso, um transplante de córnea foi considerado a solução mais adequada. No entanto, o hospital onde o Dr. Phillipe atuava enfrentava limitações, pois não possuía o equipamento necessário para realizar a cirurgia.

Diante desse desafio, o Dr. Phillipe recorreu a sua própria técnica, conhecida como IP-DSEK, que foi crucial para o sucesso do procedimento, realizado quando Maria Helena tinha apenas dois meses de idade no Hospital Federal de Bonsucesso. Dois meses depois, o segundo olho também passou pelo procedimento, alcançando resultados igualmente positivos. Essa intervenção cirúrgica permitiu que a criança experimentasse a visão pela primeira vez, trazendo alegria e esperança para sua família.

A nova técnica desenvolvida pelo médico do Rio de Janeiro envolve a inversão do botão corneano, com o endotélio voltado para cima, e um corte mais preciso, resultando em uma lâmina mais fina e uniforme.  Essa abordagem, baseada em modificações da técnica DSEK desenvolvida pelo Dr. Melles, melhorou o prognóstico visual de Maria Helena e reduziu o risco de rejeição.

Reconhecimento do Cremerj – A nova técnica vem chamando a atenção da comunidade médica por apresentar resultados promissores no tratamento de pacientes e no transplante de córnea, um avanço significativo no campo da oftalmologia, reafirmando o potencial da medicina para transformar vidas. O sucesso desse caso e o trabalho pioneiro do Dr. Phillipe foram reconhecidos pelo Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj), que concedeu ao médico a Medalha Redentor.

Essa distinção ressalta não apenas o talento e a dedicação do profissional, mas também evidencia o impacto positivo que a medicina pode ter na vida dos pacientes. O especialista está empenhado em capacitar médicos altamente qualificados para atender a essa crescente demanda e fornecer os cuidados necessários aos pacientes.

Da suspeita de alergia a lentes à cegueira: uma nova vida graças ao transplante

Moradora de Campo Grande, na zona oeste do Rio, Manuella Vianna, de 27 anos, relembra o início de seu desafio ocular em outubro de 2019. Ela acordou um dia com a visão extremamente irritada, hipersensibilidade à luz e inicialmente pensou que fosse apenas uma reação alérgica devido ao uso de lentes de contato. No entanto, a situação logo se agravou.

Na consulta médica inicial, o profissional suspeitou de herpes ocular e iniciou o tratamento, mas nenhum progresso foi alcançado e o quadro se agravou nas duas vistas, tornando a visão cada vez mais difícil devido às manchas brancas que obscureciam sua visão. Manuella passou a depender completamente dos outros para realizar as atividades diárias.

Sua família, em busca de uma solução, a encaminhou ao Hospital Municipal Souza Aguiar, onde finalmente obteve o diagnóstico: herpes zóster oftálmico, uma condição que exigiria um transplante de córnea para recuperar a visão. Foi nesse momento que o nome do Dr. Paulo Philipe surgiu como uma esperança.

Ele estava inaugurando um setor de transplantes de córneas no Hospital dos Olhos em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, e Manuella foi encaminhada para prosseguir com o tratamento na unidade. “Eu tinha medo de ficar cega para sempre porque, na maioria das notícias, vemos o quanto é demorado conseguir um órgão e recuperar a visão”, conta a paciente.

Sob os cuidados do Dr. Paulo e sua equipe, Manuella passou por uma jornada desafiadora até maio de 2020, quando finalmente recebeu um transplante no olho esquerdo. Atualmente, ela ainda aguarda na fila para o transplante no olho direito. No entanto, graças à cirurgia bem-sucedida, ela conseguiu retomar sua vida normal com os devidos cuidados e voltar ao trabalho enquanto aguarda a chamada para sua próxima cirurgia.

Hospital de Itaperuna (RJ) realiza primeiro transplante de córnea da região

Outra boa notícia para o Estado do Rio de Janeiro, onde o número de pessoas à espera de um transplante de córnea é grande, veio no dia 12 de setembro: o Hospital São José do Avaí, em Itaperuna, realizou o primeiro procedimento do tipo nas regiões Norte e Noroeste fluminense. O nome e a idade do paciente não foram revelados, mas ele teve alta no mesmo dia após receber o órgão transplantado.

“Estamos muito felizes e gratos não só por esse feito inédito mas por mais uma vida mudada através da dedicação de nossos grandes colaboradores e principalmente da nobre decisão da família doadora em salvar vidas. Doar órgãos é um gesto nobre, vamos nos conscientizar e falar com nossos familiares sobre o desejo de ser um doador”, afirmou o hospital no instagram.

O procedimento foi realizado pelos médicos Gustavo Rabelo e Rafaela Carvalho. “O paciente que recebeu o transplante já não enxergava do olho direito por problemas na retina. Ficou inviável recuperar este olho. Já o outro que a gente transplantou estava somente com a córnea ruim, opaca, mas todas as estruturas estavam boas e vemos uma possibilidade de melhora da visão deste senhor com o procedimento”, explicou a Dra Rafaela à TV Globo.

A médica oftalmologista, que já foi chefe da equipe de transplante de córnea do Hospital Federal de Bonsucesso, contou que o procedimento é simples e o paciente não precisa ficar internado no dia da cirurgia, entretanto, deve seguir o protocolo do pós-operatório. Durante um ano, são realizadas consultas de rotina, para verificar a possibilidade de rejeição, a retirada de pontos, o grau e o edema no olho do paciente.

Segundo ela, a córnea só fica transparente após 20 dias, quando o paciente recupera a visão. Já existem 25 pacientes inscritos em toda a região para o transplante de córnea no Hospital São José do Avaí. No ano passado, a unidade realizou 15 transplantes renais e hepáticos e este ano, com o transplante de córnea, soma 27.

São Paulo responde por um terço dos transplantes de córnea

Apesar de o tempo na fila poder chegar a mais de um ano em todo o Brasil, a ordem na espera pode variar bastante. Depois do Rio de Janeiro, aparecem Rio Grande do Norte, com 18,4 meses, e Alagoas, 17,7 meses, como os estados onde a demora na lista de espera por um transplante de córnea é maior. A demora é menor nos estados do Ceará (1,2), Amazonas (2,2), Santa Catarina (4,9), Mato Grosso (6,1) e Paraná (6,5).

“No Estado de São Paulo, por exemplo, o tempo pode ser de três meses até dois anos, dependo da região em que o paciente está inscrito”, explica Luiz Brito, chefe da especialidade de Córnea do H.Olhos – Hospital de Olhos. Segundo Brito, as filas podem diminuir se houver uma melhora na logística envolvendo os transplantes.

 “O ideal seria a distribuição entre os Estados, a exemplo do que ocorre com alguns órgãos, para tentar equalizar a diferença das filas, em parceria com o Serviço Nacional de Transplante (SNT). Porém, por inabilidade logística, que é da responsabilidade do Serviço Nacional de Transplante, a distribuição de córnea é bem regionalizada e injusta, inclusive no estado de São Paulo”, explica o médico.

Divulgado em maio, o levantamento do CBO apontou que o número de transplantes de córnea no SUS recuou ao patamar do que era executado em 2013. Em 2020, durante a pandemia de covid-19, a série histórica registrou o seu pior desempenho (4.374 cirurgias) na década. Desde então, em 2021 e 2022, os números seguiram o caminho da recuperação, mas ainda continuam abaixo do que era feito na fase pré-pandemia.

O total de intervenções realizadas no Sistema Único de Saúde (SUS), em 2022, ainda é menor do que o era executado no início da década passada. Ainda, segundo o levantamento do CBO, entre 2012 e 2022, a rede pública realizou cerca de 86 mil transplantes de córnea no Brasil. No entanto, as cirurgias estão concentradas no Sudeste, que responde por 46% do total de procedimentos. Na sequência, aparecem o Nordeste, com 25%; Sul (13%); Centro-Oeste (9%); e Norte (5%).

Quando os dados são avaliados do ponto de vista de produção por Estado, as unidades da Federação que possuem mais Bancos de Tecidos Oculares têm melhor desempenho. É o caso de São Paulo, que contabiliza nove unidades e responde por um terço das cirurgias desse tipo no período analisado, ou seja, 29,9 mil intervenções entre 2012 e 2022.

Nas posições subsequentes, mas com números modestos aparecem: Pernambuco (5.770), Minas Gerais (5.696), Paraná (4.946) e Ceará (4.727). Na outra extremidade desse ranking, estão Tocantins (145), Acre (237), Rondônia (569), Alagoas (625) e Paraíba (1.115). No Brasil, 24 estados possuem pelo menos um Banco de Tecidos Oculares na rede pública. Essas estruturas não foram instaladas ainda no Acre, Amapá e Roraima.

Em termos gerais e em nível nacional, o volume de transplantes é dividido praticamente ao meio entre homens (50,7%) e mulheres (49,3%). Porém, nas regiões geográficas, essa proporcionalidade muda. Os homens são maioria entre os beneficiados no Norte (59%), Centro-Oeste (56%), Sul (53%) e Nordeste (51%). Apenas no Sudeste, a população feminina apresenta percentual ligeiramente maior, com 51% dos casos.

Outro ponto que os números destacam é o volume significativo de intervenções nas faixas etárias de 40 a 69 anos (39,2%) e de 20 a 39 anos (27%). Outros grupos também são favorecidos, como idosos com mais de 70 anos (25% dos casos) e crianças e adolescentes (8,4%). “São pessoas que, com os transplantes, recuperam sua visão e podem retomar suas vidas, produzindo, trabalhando, estudando”, disse Wilma Lelis, 1ª secretaria do CBO.

Número de transplantes de córnea é menor que antes da pandemia

Com uma fila de espera que praticamente dobrou nos últimos cinco anos e um volume de procedimentos que ainda não retomou os níveis pré-pandemia de covid-19, os transplantes de córnea no Brasil exigem ações por parte do Estado, que é responsável por organizar o atendimento das demandas da população por esse tipo de assistência. O desafio é grande, segundo o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO).

O aperfeiçoamento do modelo em vigor depende da adoção de medidas consideradas fundamentais para mudar esse cenário. A entidade reconhece que o Sistema Nacional de Transplantes (SNT) tem buscado superar os problemas que afetam o segmento. Porém, o CBO entente que ainda é preciso agir para, por exemplo, facilitar a captação de tecidos e melhorar a logística de transporte das córneas, sobretudo no Sistema Único de Saúde (SUS).

As conclusões foram apresentadas após a divulgação de relatório no qual o CBO faz um perfil sobre a performance dos transplantes de córnea na rede pública. O trabalho é o primeiro fruto do Observatório CBO, plataforma criada pela entidade médica para monitorar e dar visibilidade aos resultados alcançados pelas políticas focadas na oftalmologia. De acesso público e gratuito, o website Link agrupa informações sobre consultas, exames, cirurgias e transplantes realizados por essa especialidade, dando transparência aos números da gestão.

Para Frederico Pena, diretor-tesoureiro do CBO, o volume de transplantes e a celeridade no atendimento das demandas está diretamente vinculada à existência de uma rede ativa de captação de córneas em cada localidade. Segundo ele, “esse trabalho é fundamental para que o Brasil aumente a produção desse tipo de procedimento”.

“Este é o único tratamento que depende da população. Desde 1998 a política de transplantes no Brasil está ancorada em quatro pilares: legislação, organização, financiamento e educação. Contudo, é preciso que haja aprimoramento desse sistema”, afirma Valter Duro Garcia, médico e editor do relatório.

Transplante de córnea foi o tipo mais prejudicado durante a pandemia

Segundo as considerações da ABTO, a recuperação das taxas de transplante e doadores evolui em ritmo lento desde a pandemia, sugerindo que outros fatores estejam no caminho de retomada para as taxas obtidas em 2019, quando foram registrados 18,1 doadores por milhão de pessoas.

A mesma taxa fechou em 16,1 pessoas no último ano — apenas um doador a mais do que o ano mais crítico durante a pandemia, em 2021. Isto reflete em taxas de efetivação de doação abaixo do esperado pela associação.

Sobre o fator de pandemia na lentidão da retomada, Garcia explica que os transplantes de córnea foram os procedimentos mais prejudicados. Como postergar a operaçãoo salva a vida dos pacientes, ela precisou parar. “Tu permitiu que ninguém morresse, ou ficasse exposto à Covid-19. Agora tem que correr atrás”, finaliza.

Atraso no transplante pode levar à cegueira

O oftalmologista Ricardo Filippo, da Clínica de Oftalmologia Integrada (COI) alerta que o setor médico já retomou a capacidade operacional e logística do período pré-pandemia, para realizar os transplantes. No entanto, o médico também aponta que um dos fatores que podemos mencionar em relação ao aumento da fila de transplante de córnea é o fato de a quantidade de doadores ainda não ter voltado ao normal após a pandemia. Portanto, o grande desafio para mudarmos essa realidade das córneas é a conscientização das famílias dos possíveis doadores”, ressalta.

Na avaliação de Fillipo, a depender da doença de base que o paciente possui, o atraso do transplante pode levar à cegueira definitiva, como em casos onde há perfuração ocular e infecção grave sem resposta ao tratamento. Filippo explica também que, em episódios menos urgentes, a espera impacta diretamente na qualidade de vida do paciente.

Camada anterior à dimensão frontal do olho, a córnea tem função de proteger e focalizar a luz.  Ao concentrar esta luminosidade na retina — parte do fundo dos olhos — a disfunção no local pode gerar quadros cegueira, como na trombose ocular, pois é na retina onde ocorre a troca de sinais com o cérebro na formação de imagens.

O paciente pode sofrer prejuízos na qualidade de vida, como em atividades sociais e do dia a dia, e também no trabalho, podendo muitas vezes o impedir de trabalhar e forçando uma aposentadoria por invalidez”, afirma Filippo.

De acordo com o oftalmologista, entre os danos e as doenças que estão na raiz pela necessidade do transplante, são doenças com maior ocorrência a ceratocone, distrofias corneanas, ceratopatia bolhosa, infecções corneanas graves, leucomas (cicatrizes corneanas secundárias a trauma, queimaduras e infecções), entre outras.

Mais campanhas de incentivo à doação de córnea

Diante da gravidade do cenário de transplantes no país, o presidente do CBO, Cristiano Caixeta Umbelino, enfatiza a importância de serem realizadas campanhas de massa para incentivar as doações de córnea, informando a população a respeito do funcionamento desse processo.

“A doação de córnea só é possível após o falecimento do doador, ou seja, ela não pode ser doada em vida. É um ato de generosidade, que ajuda a transformar vidas. Vale lembrar que a doação precisa ser autorizada pela família e que a técnica cirúrgica não deixa vestígios”, esclarece.

Pertencente ao Ministério da Saúde, o Sistema Nacional de Transplantes, na avaliação de Garcia, já realiza com eficiência demandas logísticas, como envio de tecido e órgãos para transplante entre estados. Somado a isto, ele afirma, existem unidades hospitalares e equipes médicas suficientes para realizar todos os transplantes necessários de córnea, por exemplo.

O ideal era a lista de transplantes de córnea ser zero. Alguém ingressa na fila de espera e aguarda apenas 90 dias pelo procedimento. No entanto, como faltam córneas no Brasil, as pessoas deixam de transplantar e a fila tende a continuar crescendo”.

Para ele, é necessário um trabalho educativo junto à população: “A população tem que ser favorável. É a única forma de tratamento que depende da população. E por meio de campanhas educativas e de conscientização, este cenário pode mudar”.

Garcia cita o aspecto legal como obstáculo para maior cobertura de transplantes. Hoje, as doações são efetuadas apenas se a família do doador permitir, mesmo quando a pessoa tenha escolhido doar em vida.

“A minha decisão de doar estaria documentada em vida e, quando fosse o momento, a base de sistema dos transplantes recebia minhas documentações assinadas para permitir a doação, independente do crivo familiar”.

Quem tem prioridade na fila de espera?

A boa notícia é que qualquer pessoa entre 2 e 80 anos pode ser doadora de córnea ao falecer, no prazo de 6 horas após a parada cardiorrespiratória (PCR) ou, em caso de refrigeração do corpo, em até 24 horas. Após manifestação de interesse, é realizada uma triagem. Diante da aplicação de questionário ao grupo familiar, é feita uma análise do histórico médico da família e, posteriormente, a coleta de exames de sangue para dar prosseguimento aos procedimentos necessários.

Os pacientes que necessitam de um transplante de córnea têm duas opções para entrar na lista de espera. Eles podem ser encaminhados por um médico ou iniciar o processo por conta própria, se inscrevendo no próprio serviço de saúde, onde deverá realizar o transplante. Em ambos os casos, uma equipe de transplante credenciada pelo Ministério da Saúde cuidará da inscrição no Sistema Informatizado de Gerenciamento (SIG), que é coordenado pelo Sistema Nacional de Transplantes (SNT).

Como resultado, cada paciente receberá automaticamente o Registro Geral de Cadastro Técnico (RGCT), um número de identificação que fornece informações essenciais, como a posição na lista de espera. Seja pelo SUS, convênio ou particular, a fila é única. Existe, porém, a possibilidade de priorização, preenchendo alguns critérios, que incluem avaliação da câmara técnica da Secretaria de Saúde do Estado.

O critério para a ordem de prioridade na fila de transplante de córnea é cronológico, ou seja, os pacientes inscritos anteriormente terão prioridade para o procedimento. É importante destacar que existe apenas uma lista de espera por estado. Portanto, cada paciente só pode estar inscrito na fila de transplante de córnea de um estado específico. As centrais de transplante, que estão integradas ao Sistema Nacional de Transplantes, são responsáveis por supervisionar e gerenciar todo o processo.

Segundo o especialista do H.Olhos, existem critérios para identificar quais pacientes devem ter prioridade no recebimento de transplante de córnea:

Crianças abaixo de 7 anos com Opacidade Corneana Bilateral (perda de transparência na córnea)

Pessoas com úlcera de córnea intratável

Descemetocele (condição oftalmológica grave em que a córnea é tão fina que começa a protuberar para fora do olho, formando uma bolsa ou saco. É causada por uma lesão ou úlcera que afeta a camada mais profunda da córnea, conhecida como membrana de Descemet)

Perfuração corneana

Falência primária

  • Segundo Garcia, ainda que seja observada uma demanda maior pelos transplantes de córnea, a fila de espera pelo novo rim é maior devido à condição do doador. Ele explica que grande parte dos transplantes só podem ser realizados quando o doador tem morte encefálica, o que ocorre apenas em 1% dos doadores ativos. Por outro lado, é clinicamente viável realizar o procedimento de córnea a partir de doadores com morte circulatória — os outros 99% dos casos.

Com Assessorias

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