A chegada de Maria Catarina, hoje com cinco meses, foi o desfecho de uma jornada de superação para a empresária Valéria Monteiro, de 28 anos. Após uma primeira experiência positiva e uma segunda marcada pelo trauma de uma cesárea eletiva com complicações, Valéria encontrou na enfermagem obstétrica o suporte necessário para retomar a confiança em seu próprio corpo.
“Foi o que me deu coragem e força”, relata. O caso de Valéria ilustra uma mudança de paradigma que o Brasil tenta acelerar: o protagonismo de profissionais que enxergam o parto não como uma patologia, mas como um evento fisiológico e humano.
O gargalo dos especialistas
Apesar da importância vital desses profissionais, o cenário nacional revela uma carência estrutural. O Brasil conta com apenas 13 mil enfermeiros obstétricos registrados no Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). Destes, menos da metade possui vínculo ativo com estabelecimentos de saúde.
A disparidade com o resto do mundo é gritante. Enquanto em países desenvolvidos a média é de quatro enfermeiros obstétricos para cada médico, no Brasil essa lógica se inverte: temos um enfermeiro para cada quatro médicos. Em termos de densidade, o país registra apenas cinco profissionais para cada mil nascidos vivos, muito abaixo da média internacional, que chega a 68 por mil.
Para enfrentar esse déficit, o Ministério da Saúde iniciou, através da Rede Alyne, a formação de 760 novos especialistas, com um investimento de R$ 17 milhões. O objetivo é fortalecer o SUS e garantir que a assistência chegue especialmente às regiões mais vulneráveis.
O escudo contra a violência obstétrica
A presença do enfermeiro obstétrico é apontada como uma das principais ferramentas para reduzir os alarmantes índices de violência obstétrica. No Rio de Janeiro, dados da Pesquisa Nascer no Brasil 2, da Fiocruz, revelam uma realidade dura: dois terços das mulheres fluminenses relataram ter sofrido algum tipo de violência durante o parto.
As queixas mais frequentes incluem:
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Toques vaginais inadequados: Realizados sem consentimento ou explicação (46% dos casos).
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Negligência: Longa espera por atendimento e a sensação de ser ignorada pela equipe (31%).
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Abuso psicológico: Repreensões e “broncas” de profissionais (22%).
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Manobra de Kristeller: Procedimento proibido onde o profissional pressiona o útero da mulher, ainda praticado em milhares de casos no estado.
“O enfermeiro obstétrico obedece à fisiologia do parto. Ele deixa o corpo agir, baixando o número de intervenções desnecessárias e iatrogenias”, explica o conselheiro do Cofen, Renné Costa. Segundo ele, o modelo brasileiro atual, focado excessivamente em cesáreas (partos operatórios), aumenta em até 70 vezes o risco de morte materna.
A Rede Alyne e o resgate da dignidade
O nome da nova rede de cuidados do Ministério da Saúde não é casual. Homenageia Alyne Pimentel, jovem negra que morreu em 2002 por negligência médica, caso que gerou a primeira condenação do Brasil em direitos humanos por morte materna. A meta da Rede Alyne é ambiciosa: reduzir a mortalidade materna em 25% e a de mulheres negras em 50% até 2027.
No Rio de Janeiro, embora a capital apresente uma rede de maternidades bem assistida, o desafio reside na experiência prática dos profissionais e na interiorização do atendimento. Na Baixada Fluminense, exemplos como o Hospital da Mãe de Mesquita já mostram o caminho: lá, mais de 70% dos partos vaginais são conduzidos por enfermeiras obstétricas.
Para Valéria, o acompanhamento da enfermeira Maria Luiza Bezerra foi o diferencial entre o medo e a realização. “Ela foi a parte teórica. Eu deixei meu corpo agir”, resume a empresária. O desafio do Brasil, agora, é garantir que essa segurança deixe de ser um “luxo” de quem tem informação e se torne um direito garantido em cada leito do SUS.
Com informações da Agência Brasil




