Em uma resposta direta ao crescimento do vício em jogos eletrônicos no Brasil, o Ministério da Saúde anunciou nesta terça-feira (3) o início do teleatendimento em saúde mental focado em apostas (bets). O serviço, realizado em parceria com o Hospital Sírio-Libanês por meio do Proadi-SUS, busca acolher brasileiros que enfrentam o sofrimento mental e o descontrole financeiro causados pela compulsão.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou que a iniciativa visa romper a barreira do estigma. “A procura por atendimento presencial ainda é baixa, muitas vezes por vergonha ou medo de julgamento. O teleatendimento foi estruturado para ser reservado, seguro e acessível”, afirmou.
Como funciona o suporte digital
O atendimento é realizado por uma equipe multiprofissional (psicólogos, terapeutas ocupacionais e psiquiatras) e as consultas ocorrem por vídeo, com duração média de 45 minutos. O ciclo de cuidado pode chegar a 13 consultas por paciente, contemplando tanto sessões individuais quanto em grupo, incluindo a rede de apoio familiar.
Passo a passo para acessar:
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Baixe o aplicativo Meu SUS Digital (disponível para Android, iOS ou web).
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Faça login com sua conta gov.br.
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Na página inicial, acesse o menu “Miniapps”.
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Selecione a opção “Problemas com jogos de apostas?”.
Ao iniciar o processo, o usuário passa por um autoteste baseado em evidências científicas e validado por especialistas brasileiros. Se o resultado indicar risco moderado ou elevado, o agendamento para a teleconsulta é automático.
Impacto social e econômico
A medida surge em um cenário alarmante. Estudos recentes indicam que as perdas econômicas e sociais geradas pelas bets no Brasil alcançam a cifra de R$ 38,8 bilhões anuais. Além do prejuízo financeiro, a compulsão está intrinsecamente ligada a transtornos de ansiedade, depressão e conflitos familiares graves.
Nota Editorial: Embora esta matéria foque no comportamento humano, vale ressaltar que o conceito de One Health (Saúde Única) nos ensina que o bem-estar da população está conectado ao equilíbrio do ambiente em que vivemos. Em crises de saúde pública — sejam elas epidêmicas ou comportamentais — a integração de políticas públicas e o acesso facilitado à saúde são pilares fundamentais para a resiliência da sociedade.
Bloqueio e prevenção
Além do suporte terapêutico, o Governo Federal reforça a importância da Plataforma de Autoexclusão Centralizada. Através dela, o cidadão pode bloquear seu CPF de sites de apostas e impedir o recebimento de publicidades do setor por períodos que variam de dois meses a tempo indeterminado.
Até o momento, mais de 300 mil pessoas já utilizaram a ferramenta de bloqueio, demonstrando uma demanda reprimida por mecanismos de proteção contra a exposição ao risco das apostas digitais.
O gigante das redes: 71 milhões de acessos por dia
O anúncio ocorre em um momento em que os números do setor atingem patamares históricos. Segundo dados do Painel das Bets, o mercado de apostas legalizadas encerrou 2025 com a marca impressionante de 26,4 bilhões de acessos — um crescimento de 237% em relação ao ano anterior.
A escala do consumo de apostas no Brasil é um dos principais fatores de alerta para as autoridades de saúde. Para colocar o volume em perspectiva:
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As bets são hoje o segundo destino mais visitado na internet brasileira, perdendo apenas para o Google.
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A média é de 2,2 bilhões de visitas mensais, impulsionada por patrocínios massivos em times de futebol e eventos esportivos.
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O setor movimentou uma receita estimada de R$ 36,1 bilhões em plataformas legais e outros R$ 14,8 bilhões no mercado ilegal em 2025.



