A detecção de sete pacientes infectados pela bactéria multirresistente Klebsiella pneumoniae carbapenemase (KPC) levou o Hospital Municipal Mário Gatti, em Campinas (SP), a restringir temporariamente o atendimento em sua Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Adulto. A medida, anunciada nesta terça-feira (10), visa conter a disseminação do micro-organismo, uma das maiores ameaças à segurança do paciente em ambientes hospitalares devido à sua alta resistência aos antibióticos convencionais.
De acordo com a Rede Municipal Mário Gatti, os pacientes identificados foram isolados em uma ala específica da UTI com equipe assistencial exclusiva. Outros três pacientes que não apresentam a bactéria foram transferidos para unidades de mesma complexidade na rede de saúde. Como protocolo de segurança, a UTI parou de receber novos casos, que estão sendo redirecionados para o Hospital Ouro Verde e outras unidades via central de regulação e Samu.
A recente interrupção nas internações da UTI do Hospital Municipal Mário Gatti coloca em evidência um fenômeno que especialistas já monitoravam desde o fim da emergência sanitária de Covid-19: o avanço silencioso das bactérias multirresistentes. O cenário em Campinas – obrigou a unidade a adotar medidas rígidas de isolamento e desinfecção nesta semana – não é um fato isolado.
Dados de uma pesquisa da Afip Medicina Diagnóstica, premiada no congresso da Association for Diagnostics & Laboratory Medicine (ADLM), revelam que o perfil de resistência bacteriana nos hospitais brasileiros mudou drasticamente após a pandemia de Covid-19. O estudo, que analisou 70 mil culturas de vigilância, aponta a KPC como o principal patógeno de risco, seguida de perto pela Acinetobacter baumannii.
O “efeito colateral” da pandemia
De acordo com o estudo, divulgado em 2024, a explosão de casos de superbactérias está diretamente ligada ao manejo clínico durante os anos críticos da Covid-19. Estima-se que cerca de 59% dos pacientes internados com o vírus receberam antibióticos, muitas vezes sem a presença de uma infecção bacteriana confirmada.
O uso excessivo de antimicrobianos entre 2020 e 2022 potencializou a resistência dessas bactérias”, explica a pesquisadora Jussimara Monteiro, gerente do Núcleo de Apoio ao Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (NASCIH) da Afip.
Segundo a especialista, o aumento de patógenos como a Acinetobacter baumannii é alarmante, pois são agentes que conseguem sobreviver por longos períodos no ambiente hospitalar, aguardando uma brecha na imunidade dos pacientes.
A ciência da vigilância: olhando a “base do iceberg”
A situação no Hospital Mário Gatti segue sob monitoramento contínuo das equipes técnicas. Enquanto o atendimento não é normalizado, a orientação é que casos de urgência sigam o fluxo estabelecido pela central de regulação municipal.
Para conter surtos como o do Hospital Mário Gatti, a estratégia fundamental reside nas chamadas culturas de vigilância. Enquanto o tratamento foca na “ponta do iceberg” — os pacientes já doentes —, a vigilância busca identificar quem está apenas colonizado pela bactéria, ou seja, carrega o microrganismo sem apresentar sintomas, mas pode transmiti-lo a outros.
Hospitais de referência, como o Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, conseguiram reduzir drasticamente infecções por KPC ao adotar protocolos rigorosos baseados nesses dados laboratoriais:
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Coletas periódicas de amostras de pacientes em áreas de risco.
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Isolamento imediato de portadores de germes resistentes.
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Uso de antissépticos específicos no banho e higienização rigorosa das mãos.
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O desafio da resistência antimicrobiana
A KPC é um exemplo clássico da crise global de resistência antimicrobiana. Essas bactérias produzem uma enzima capaz de inativar os carbapenêmicos, uma classe de antibióticos de “última linha”, geralmente reservados para infecções graves.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a resistência aos medicamentos torna tratamentos comuns — como cirurgias e quimioterapias — muito mais arriscados, podendo elevar as taxas de mortalidade e o tempo de internação.
A disseminação da KPC em ambientes hospitalares ocorre frequentemente por meio do contato direto ou superfícies contaminadas, o que exige protocolos rigorosos de higienização. No Mário Gatti, a prefeitura confirmou o reforço das medidas de limpeza e desinfecção para estabilizar o cenário assistencial.
Saúde Única: uma barreira além do hospital
O surgimento e a propagação de bactérias multirresistentes como a KPC reforçam a urgência da abordagem de Saúde Única (One Health). Este conceito – que guia a linha editorial do PORTAL VIDA E AÇÃO – reconhece que a saúde de humanos, animais e o equilíbrio do meio ambiente estão intrinsecamente ligados.
A resistência antimicrobiana não nasce apenas dentro dos hospitais. representando hoje um desafio transversal para as autoridades sanitárias. Os mesmos medicamentos usados em UTIs são frequentemente utilizados na pecuária para evitar doenças entre animais de corte, como bois, vacas, porcos e galinhas.
Resíduos farmacêuticos e também de antibióticos de uso animal são descartados incorretamente e acabam em rios e solos, criando um ciclo de seleção de bactérias cada vez mais potentes.
Sob a ótica da Saúde Única, o controle de um surto hospitalar é apenas uma parte da solução. É necessário monitorar como esses genes de resistência circulam entre o meio ambiente e os seres vivos para evitar que novos patógenos surjam. A vigilância sanitária, apoiada por órgãos como a Anvisa, desempenha um papel crucial ao monitorar alertas de segurança e implementar diretrizes de controle de infecção que protejam a coletividade.
Tratar a crise no Hospital Mário Gatti como um evento isolado é ignorar a raiz do problema. A resistência antimicrobiana é uma ameaça à saúde pública global que exige ações coordenadas entre órgãos como a Anvisa e o CDC, focadas não apenas no ambiente hospitalar, mas também no controle ambiental e no uso racional de medicamentos em todos os setores.
Com informações da Agência Brasil e Afip




