Aos 86 anos, o icônico ator Fulvio Stefanini celebra 70 anos de carreira vivendo nos palcos um personagem memorável. André é um octogenário rabugento, mas extremamente divertido, cuja mente começa a fragmentar-se diante do Alzheimer. Diante dos sucessivos lapsos de memória, sua filha vive um grande dilema: cuidar do pai ou interná-lo em uma instituição de longa permanência (ILPI) para seguir sua vida ao lado de um novo amor?
A dúvida da filha expressa a de muitas famílias que se veem diante do desafio de cuidar de uma pessoa que, de uma hora para outra ou aos poucos, vai esquecendo a própria identidade – e algumas vezes, até os próprios filhos. Após rodar diversas cidades emocionando mais de 150 mil espectadores pelo Brasil, a peça “O Pai”, protagonizada pelo veterano ator global, está em cartaz no Rio de Janeiro, em curta temporada, somente até 22 de março.
A montagem brasileira é uma obra-prima da dramaturgia contemporânea. O texto do francês Florian Zeller — que também deu origem ao filme vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado e melhor ator, com Anthony Hopkins — consegue o equilíbrio raro entre o humor ácido e a emoção devastadora. Divertido, sensível e profundamente comovente, o espetáculo se desenvolve com delicadeza, tocando o público pela humanidade com que aborda as relações familiares.
Peça humaniza uma estatística que cresce a cada ano
Mais uma vez, o teatro assume o papel de educador e espelho social. O texto humaniza uma estatística que cresce a cada ano: o Brasil já soma mais de 1 milhão de pessoas vivendo com Alzheimer.
A doença, que cresce progressivamente, muitas vezes é confundida com o envelhecimento natural, mas ainda desafia a ciência e a medicina e, sobretudo, impacta profundamente a vida de familiares e cuidadores. Muita gente que enfrenta o mesmo drama familiar, com certeza, deve se identificar.
A peça cumpre um papel de conscientização e acolhimento, mostrando a força do teatro como ferramenta de reflexão”, destaca Fulvio Stefanini, vencedor do Prêmio Shell por este papel.
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Quando o esquecimento deixa de ser ‘coisa da idade’
Fora da ficção, o cenário brasileiro exige atenção máxima. Segundo o neurologista Edson Marquez, do Mário Palmério Hospital Universitário (MPHU), a distinção entre o envelhecimento natural e a patologia é crucial.
O que muitos confundem com “coisas da idade” pode ser, na verdade, o início de uma jornada complexa e desafiadora. O esquecimento começa de forma silenciosa, uma pergunta repetida diversas vezes ou a dificuldade de reconhecer um caminho familiar.
Esquecer não é normal quando começa a apagar quem você é”, pontua o especialista.
Enquanto no envelhecimento comum a pessoa pode demorar a lembrar de algo, no Alzheimer a informação pode simplesmente desaparecer. A enfermidade neurodegenerativa – uma das três doenças crônicas lembradas neste Fevereiro Roxo – apaga lembranças recentes, mas exige uma presença emocional cada vez mais profunda de quem cuida.
A ciência por trás do esquecimento
O Alzheimer compromete áreas do cérebro responsáveis pelo armazenamento e organização das memórias. O diagnóstico precoce, portanto, torna-se a ferramenta mais poderosa para garantir qualidade de vida. Embora não exista cura, intervenções multidisciplinares e medicações adequadas conseguem retardar a evolução dos sintomas, preservando a autonomia do paciente pelo maior tempo possível.
A maioria dos casos começa com pequenos esquecimentos que muita gente considera ‘coisas da idade’. Mas quando esses lapsos passam a interferir na rotina e na autonomia da pessoa, é preciso investigar”, explica o especialista.
Diferentemente do esquecimento comum, onde a pessoa recupera a informação minutos depois, no Alzheimer a memória pode simplesmente não voltar. O diagnóstico precoce é o que garante que o paciente mantenha sua identidade por mais tempo. Segundo dados do Ministério da Saúde, o tratamento multidisciplinar e o suporte familiar são os pilares para retardar a evolução do quadro.
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Mitos sobre a genética e sinais de alerta

Um dos pontos que mais gera dúvidas é a relação da doença com a hereditariedade. Embora esse medo seja comum entre familiares, o Dr. Marquez esclarece que a genética não é a protagonista na maioria dos diagnósticos.
Apenas cerca de 5% dos casos têm origem genética direta, o que significa que 95% das ocorrências não possuem uma causa hereditária aparente definida, reforçando que o estilo de vida e o ambiente são determinantes.
Fique atento aos sinais:
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Esquecer fatos recentes e repetir perguntas.
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Dificuldade para lembrar compromissos ou realizar tarefas simples.
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Confusão temporal e alterações bruscas de humor.
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Perda de autonomia e da percepção da própria identidade.
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Mais sobre a peça ‘O Pai’
Ator contracena com os dois filhos no palco
Na produção, um verdadeiro presente para o ator, que atua ao lado de Fulvio Filho e Leo Stefanani – este último, também diretor da peça. Em entrevista a Jorge Ramos no programa Painel, da Rádio Roquette Pinto, na última segunda-feira (23/3), o veterano diz ser um desafio extra atuar junto com os filhos. Nada que assuste um artista acostumado a grandes papeis, em uma carreira longeva e consistente.
Fulvio Stefanini estreou em 1955, na antiga TV Tupi, e construiu uma trajetória sólida no teatro, no cinema e na televisão. Atuou em novelas de praticamente todas as emissoras do país e, na TV Globo, participou de produções marcantes como “Gabriela”, “Pátria Minha”, “Porto dos Milagres” e “Chocolate com Pimenta”. No cinema, esteve em filmes como “Absolutamente Certo”, “O Bem Dotado” e “Quincas Borba”.
SERVIÇO
Espetáculo: “O Pai”
Elenco: Fulvio Stefanini, Lara Cordula, Fulvio Stefanini Filho, Deo Patricio, Carol Mariottini e Leo Stefanini.
Produção: Foco3 e Cora Produções Artísticas.
Apresentação: Ministério da Cultura e RD Saúde.
Local: Teatro TotalEnergies – Rua do Russel 804, Glória, Rio de Janeiro.
Temporada: de 27 de fevereiro a 22 de março
Sessões: Sextas e sábados, às 20h/ Domingos, às 17h
Duração: 70 minutos
Classificação: 12 anos
Ingressos:
Plateia Central: R$ 150,00 (inteira) / R$ 75,00 (meia)
Plateia Lateral: R$ 50,00 (inteira) / R$ 25,00 (meia)



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