A pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA) possui dificuldade para interagir socialmente, manter o contato visual, de comunicação e compreender gestos. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que 1% da população mundial – ou uma em cada 100 crianças no mundo – esteja dentro do espectro autista. Em todo o mundo, o número pode ultrapassar 70 milhões.

Segundo o Ministério da Saúde, embora ainda não existam estudos sobre a prevalência do transtorno no Brasil, a OMS estima que o país tenha mais de 2 milhões de pessoas com TEA.  No Estado do Rio de Janeiro, a projeção é de 160 mil pessoas vivendo com autismo, uma condição cuja incidência vem aumentando nos últimos anos.

Os números reforçam a necessidade de ampliação do acesso a tratamentos adequados. Com mais diagnósticos de TEA a cada ano, cresce também a procura por serviços especializados para este público, tanto na rede pública, quanto privada. Dentro dessa perspectiva, o  Rio de Janeiro tem bons motivos para celebrar o Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo (2 de abril).

Na data voltada a combater o preconceito e garantir mais inclusão para as pessoas diagnosticadas, a Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR) dá um passo importante na inclusão e no atendimento especializado ao inaugurar um espaço exclusivo para o tratamento de crianças com TEA em sua unidade no bairro Jardim Botânico, zona sul carioca. A iniciativa visa proporcionar um ambiente acolhedor e terapias especializadas que promovam o desenvolvimento motor, cognitivo e social dos pacientes.

Entre os diferenciais do tratamento oferecido estão as Terapias sensoriais, para ajudar no processamento e regulação das informações sensoriais; e a Fisioterapia e terapia ocupacional: para trabalhar coordenação motora, equilíbrio e habilidades do dia a dia. Além disso, a ABBR pretende estabelecer parcerias com escolas e outras instituições para ampliar a inclusão e a adaptação das crianças nos diversos ambientes sociais.

Hospital público cria espaço para exame com sedação

Em fevereiro, o Hospital Estadual Getúlio Vargas, no bairro da Penha, zona norte carioca, abriu um novo serviço para acompanhamento do TEA. Com a realização das obras de modernização do HEGV, nos seus 86 anos de atividade, foi implantado o Espaço de Acolhimento TEA, com assistência especializada e humanizada.

O local agora conta com atividades lúdicas para pacientes da enfermaria pediátrica que precisam fazer exame de eletroencefalograma com sedação. Mais de 200 crianças e adolescentes, com idade entre 2 anos e 17 anos, já foram atendidos pelo serviço.

As crianças e os adolescentes contam com apoio de pediatras, enfermeiros, psicólogos, neurologistas, nutricionistas, anestesistas e técnicos de eletroencefalograma. Todo o atendimento é acompanhado por psicólogos do hospital. O atendimento aos pacientes, que acontece de segunda a sexta, das 8h às 16h, conta com dois ambientes: uma sala de espera voltada para as crianças e os adolescentes e outra para realizar o exame, que é marcado via Sistema Estadual de Regulação (SER).

Compromisso da ABBR com a inclusão e reabilitação

O novo espaço na ABBR foi projetado para proporcionar conforto e segurança às crianças, com salas equipadas para terapias multidisciplinares, brinquedos sensoriais e estratégias baseadas em metodologias reconhecidas no tratamento do TEA. O objetivo é criar um ambiente propício para o aprendizado, socialização e melhora da qualidade de vida dos pequenos pacientes.

A ABBR estruturou um projeto inovador que alia a expertise de seus profissionais à necessidade de um atendimento mais individualizado e humanizado para crianças com TEA. A equipe será composta por fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais, que trabalharão em conjunto para garantir que cada criança receba um atendimento individualizado e adaptado às suas necessidades específicas”, diz a instituição.

Com mais de 70 anos de atuação no Rio de Janeiro, a ABBR é referência em tratamentos de reabilitação, atendendo milhares de pacientes anualmente. Segundo a ABBR, “‘a criação deste novo espaço para crianças com TEA reforça o compromisso da instituição em oferecer tratamentos inovadores e acessíveis, sempre com foco na inclusão e na qualidade de vida dos pacientes”.

Nosso objetivo é proporcionar um atendimento que vá além da reabilitação tradicional, garantindo um espaço onde as crianças e suas famílias se sintam acolhidas e apoiadas. O TEA exige abordagens especializadas, e a ABBR está preparada para oferecer um tratamento que respeita as necessidades de cada paciente”, destaca João Grangeiro, diretor médico da instituição.

Mãe se encanta com espaço lúdico no hospital

Especialmente elaborado para as necessidades dos pacientes, o espaço criado no Hospital Getúlio Vargas possui brinquedos voltados para a interação. As paredes foram decoradas com estampas, que privilegiam as formas, e o ambiente possui um grande tubo de bolhas sensorial, que muda de cor e emite sons, estimulando a percepção. O ambiente também possui poltronas para os responsáveis descansarem, enquanto aguardam o atendimento.

Brenda Cristina Vale, de 26 anos, e Suelen Alves, de 40 anos, são moradores de Realengo e se tornaram amigas na Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR), durante o tratamento de seus filhos – respectivamente Giovana, de três anos, e Davi, de dois. Por uma coincidência, ambas tiveram o exame de eletroencefalografia de seus filhos marcados no Hospital Estadual Getúlio Vargas no mesmo dia.

Isso facilitou ainda mais esse processo de preparação do exame, já que eles se conhecem e brincam um com o outro”, disse Brenda, cuja filha também tem acompanhamento no Hospital Universitário Pedro Ernesto. 

Suelen estava esperando ansiosamente pela realização do exame de seu filho, que ao nascer, tinha constantes convulsões. Ela também disse estar apaixonada pelo local de acolhimento dos pacientes.

Fiquei um pouco apreensiva, devido ao histórico dele, mas ao conhecer o local tudo passou. As crianças se envolvem com os brinquedos e com o cenário encantador. Estava preocupada com o tempo de espera, pois Davi se irrita com muita facilidade, principalmente quando está com fome. E o exame foi feito em jejum”, concluiu Suelen.

Leia mais

‘Meu filho, nosso mundo’: filme ajuda a compreender o autismo
‘Já ouvi muitas vezes que eu não era autista de verdade’
Como fazer valer as leis que protegem os direitos dos autistas?

Especialista explica a importância do eletroencefalograma para o autista

Amanda Trevisani, coordenadora médica do CTI Pediátrico do Hospital Estadual Getúlio Vargas, destaca a importância da realização do exame de eletroencefalograma no diagnóstico preciso do nível de transtorno do paciente.

O exame é essencial para avaliar os padrões de funcionamento dos neurônios das crianças e dos adolescentes com TEA e, assim, ajudar no fornecimento de informações do seu grau de transtorno, como um possível quadro de epilepsia, por exemplo. Logo depois do exame, o paciente aguarda, em outra enfermaria, o efeito da sedação para que aconteça a avaliação do médico responsável”, explica Trevisani.

Centro Estadual para o Autista na Gávea completa um ano

A secretária de Estado de Saúde, Claudia Mello, disse que a assistência especializada a pessoas com Transtorno do Espectro Autista é um compromisso da pasta. Em 2024, foi inaugurado o primeiro Centro Estadual para o Autista, na Gávea, com capacidade para realizar até 100 atendimentos por semana.
Inaugurado em abril de 2024, o Centro Estadual de Diagnóstico para Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (CEDTEA) vem se consolidando a cada dia como um importante aliado para as famílias de crianças com TEA. O objetivo da unidade é oferecer um diagnóstico precoce a pacientes com autismo, principalmente crianças e adolescentes.

Entre abril e a primeira quinzena de dezembro de 2024, foram realizados mais de 3,2 mil atendimentos.  As famílias são das 92 cidades do estado do Rio de Janeiro e chegam ao CEDTEA após terem sido inseridas no Sistema Estadual de Regulação (SER)  e  pela Regulação Municipal (SISREG).

Cerca de 57% dos pacientes são da Região Metropolitana do Rio, sendo 38% deles da capital. Do total, 78% são meninos. A faixa etária para qual mais se busca atendimento é a das crianças com idades entre um e cinco anos. Elas correspondem a 44% do total.

O Centro conta com uma equipe multiprofissional composta por neurologista, neuropediatras, psiquiatras, psicólogos, neuropsicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais , enfermeiros, fisioterapeutas, assistentes sociais e nutricionistas. Todos esses profissionais são especializados no diagnóstico do TEA.

 

O contato com o paciente e as famílias, desde o momento que pisam a unidade até o momento de ir  embora, é muito importante. A nossa equipe é focada nisso e trabalha de maneira muito afinada, sempre falando a mesma linguagem. É isso que garante o sucesso do trabalho”, diz Sayra Casanova de Brito, diretora administrativa e RH. “A nossa satisfação é chegar ao objetivo que é a entrega do laudo às famílias, que passam a ter um norte para buscar a abordagem adequada ao tratamento para essas crianças”.

Agenda Positiva

Estado do Rio promove diversas atividades para marcar o Abril Azul

 

Cristo Redentor é iluminado de azul em homenagem ao Dia Mundial do Autismo (Foto: DoisC Editoração Eletronica)

O mês de abril é marcado por ações voltadas à conscientização sobre a importância da inclusão de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Também conhecido como Abril Azul, o movimento tem o propósito de informar a sociedade, combater a desinformação e fortalecer o respeito às diferenças.

Criada em 2007 pela Organização das Nações Unidas (ONU), a campanha convida a sociedade a refletir sobre a importância do diagnóstico precoce e da construção de ambientes mais acolhedores e acessíveis para pessoas autistas. As iniciativas também são oportunidade para ampliar o debate sobre como tratar o autismo adequadamente, reunindo profissionais de saúde, educadores e familiares.

No estado do Rio de Janeiro, diferentes cidades estão mobilizadas com caminhadas, seminários, atividades culturais e debates públicos que reforçam a pauta. O Dia Mundial do Autismo será celebrado nesta quarta-feira, 2 de abril, com a iluminação do monumento ao Cristo Redentor em azul, a partir das 20h. O objetivo é promover conhecimento sobre o espectro autista, bem como sobre as necessidades e os direitos das pessoas autistas, reforçando a importância da inclusão de pessoas neurodivergentes na sociedade.

No dia 2 de abril, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) recebe o seminário Autismo: vivendo no espectro”. O evento vai contar com palestras da neuropediatra Jessyca Ramos e da psiquiatra Ana Aguiar, mulher autista e especialista em autismo em adultos. A programação acontece das 9h30 às 13h no Palácio Tiradentes, e é aberta ao público, com direito a certificado.

No dia 5, o “Concerto Azul” promete emocionar o público no Teatro Mário Lago, no Colégio Pedro II, em São Cristóvão. O espetáculo reúne crianças e jovens com TEA, acompanhados por musicoterapeutas. Desde 2016, a iniciativa tem se destacado e já foi reconhecida com premiações da Câmara Municipal e da Alerj.

Caminhadas em Copacabana, Bangu, Niterói, Queimados e Paraty

Diferentes regiões do Rio de Janeiro estão preparando atividades ao longo do Abril Azul. Em Niterói, o Espaço CEL irá promover uma manhã de entretenimento para crianças e adolescentes com TEA no Campo de São Bento, marcada para o dia 5. Também será realizado um evento fechado no Fluminense, organizado em parceria com o projeto Autistas do Flu.

Já no dia 6 de abril, estão previstas duas caminhadas de conscientização. Em Copacabana, na Zona Sul da capital, o Instituto Autismo Rio de Janeiro realiza a 4ª edição da marcha, com concentração a partir das 8h, no Posto 6.

No mesmo dia, Niterói promove a 10ª Caminhada de Conscientização do Autismo, com início às 9h, na Praia de Icaraí, e trajeto até o Museu de Arte Contemporânea (MAC).  O Espaço CEL – clínica de autismo em Niterói – é uma das patrocinadoras e participantes da caminhada na cidade.

Ainda dentro da programação do Abril Azul, a Associação de Mães Atípicas de Paraty (AMAP) organiza a 3ª Caminhada de Conscientização do Autismo no dia 5 de abril, com saída da Praça do Chafariz. A programação inclui atividades esportivas, culturais e interativas, além de suporte para famílias da zona rural.

Também estão previstas ações em Campo Grande, onde ocorre uma mobilização no Parque Oeste, no dia 12 de abril, e em Queimados, na Baixada fluminense, com a 1ª Caminhada do Autismo organizada pelo Instituto Neurodiversidade, no dia 27.

Já em Bangu, bairro na Zona Oeste do Rio, o Shopping Bangu inaugura a “Sala Azul”, um espaço de acolhimento para crianças atípicas e suas famílias, que funcionará de 7 a 13 de abril, das 15h às 18h. Todos os eventos reforçam a importância da empatia, do respeito e da equidade no tratamento de pessoas autistas.

Com Assessorias

 

 

Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *