O mês de fevereiro de 2026 consolida uma tendência preocupante para a saúde pública no Rio de Janeiro: a combinação de altas temperaturas e a aglomeração característica do Carnaval pressionou severamente o Sistema Único de Saúde (SUS). Dados das secretarias estadual e municipal de Saúde indicam que o calor extremo se tornou um dos principais protagonistas nas planilhas de atendimento de urgência e emergência.

Durante o período de Carnaval, a rede estadual registrou uma média de cinco pacientes por hora chegando às unidades com sintomas diretamente ligados à exposição solar e às altas temperaturas. Nos grandes hospitais de emergência, como o Getúlio Vargas e o Alberto Torres, a rotina foi intensa.

Apenas nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) estaduais, o volume de pacientes chegou a 27.433, um aumento de 2,05% em relação ao ano anterior.  Ao todo, 647 pessoas buscaram socorro devido ao excesso de calor entre os dias 13 e 17 de fevereiro, com maior concentração de casos em bairros como Realengo, Botafogo e Irajá. 

Mais de 3.200 atendimentos pelo Samu da capital

O balanço operacional do Governo do Estado revelou que o Samu 192 realizou 3.262 atendimentos na capital, com foco em ocorrências cardiovasculares e neurológicas. Bairros como Campo Grande, Centro e Copacabana lideraram os chamados.

Quando analisado o cenário da capital, os números são ainda mais expressivos. O Carnaval de 2026 no Rio de Janeiro foi marcado por altas temperaturas e uma intensa movimentação de foliões, o que refletiu diretamente nos indicadores de saúde da capital.

Segundo o balanço final da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), a estrutura montada para o evento realizou um total de 4.970 atendimentos entre os desfiles na Marquês de Sapucaí e os circuitos de blocos de rua. Para efeito de comparação, entre 9 e 13 de janeiro, a SMS-RJ havia registrado 3.119 atendimentos possivelmente associados ao calor, um salto de 26,84% acima da mediana histórica.

A operação, que se estendeu por 13 dias desde o final de janeiro, revelou o impacto do esforço físico aliado ao clima extremo. Somente no Sábado das Campeãs (21/02), 601 pessoas precisaram de assistência. No Sambódromo, considerando os sete dias de desfiles (Série Ouro, Grupo Especial e Escolas Mirins), o volume chegou a 3.530 atendimentos.

Calor e esforço físico: os vilões da folia

As principais causas que levaram cariocas e turistas aos postos médicos evidenciam como os fatores ambientais influenciam o bem-estar humano. De acordo com a SMS, o mal-estar e a fadiga devido ao forte calor foram motivos recorrentes de busca por ajuda.

Além dos agravos pelo calor, as unidades reportaram que a embriaguez, quedas da própria altura e traumas leves (como cortes e entorses) figuram entre as causas mais comuns de internação temporária durante o período festivo. A descompensação de doenças crônicas, picos de pressão arterial, dores de cabeça completaram o quadro de ocorrências.

No caso específico do Sambódromo, o peso das fantasias e o esforço físico do desfile também contribuíram para o desgaste dos componentes.

Eficiência no atendimento pré-hospitalar

A estratégia de montar postos de pronto-atendimento nos grandes circuitos — dois no Centro e dois na Zona Sul, além dos seis postos no Sambódromo — mostrou-se eficaz para não sobrecarregar as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e hospitais da rede.

Dos quase 5 mil atendidos, 92,5% tiveram seus problemas resolvidos no próprio local. Apenas 374 pacientes (cerca de 7,5%) apresentaram quadros mais complexos e precisaram de transferência para unidades hospitalares. No Carnaval de rua, os postos deram suporte a 55 blocos, incluindo os 10 megablocos da cidade.

Vigilância Sanitária e monitoramento epidemiológico

Para garantir a segurança dos foliões, o Instituto Municipal de Vigilância Sanitária (Ivisa-Rio) realizou 320 visitas sanitárias desde o dia 13 de fevereiro, fiscalizando serviços de alimentação e bebidas. Foram coletadas 167 amostras de alimentos para análise laboratorial, visando prevenir surtos de doenças transmitidas por alimentos.

Além disso, a Superintendência de Vigilância em Saúde, por meio do CIEVS-Rio, continuará monitorando o cenário epidemiológico da cidade por 45 dias após o Carnaval. O objetivo é detectar precocemente possíveis doenças ou agravos de notificação que possam ter surgido durante a aglomeração das festas.

Operação de hidratação e ‘Saúde na Torneira’

Para mitigar os efeitos do clima, o governo estadual e a Cedae realizaram uma megaoperação de hidratação. A campanha “Saúde na Torneira” instalou bebedouros nas áreas externas de todas as 27 UPAs estaduais, facilitando o acesso gratuito à água para moradores e foliões.

Nos megablocos e na Passarela da Intendente Magalhães, equipes da Cedae distribuíram água gelada e utilizaram pistolas vaporizadoras para refrescar o público. A frota do Samu também foi reforçada com 150 veículos, incluindo motolâncias para garantir agilidade em locais de difícil acesso.

Saúde Única: a conexão entre ambiente e bem-estar

O aumento de episódios de calor extremo, como os registrados neste verão 2026 no Rio de Janeiro, é um reflexo direto do desequilíbrio ambiental que impacta diretamente o bem-estar da população urbana. O cenário observado neste Carnaval reforça a importância do conceito de Saúde Única (One Health), reconhecendo que o equilíbrio do ecossistema é fundamental para prevenir o colapso dos sistemas de saúde pública.

Diante da crise climática global, esta abordagem – que faz parte dos pilares do Portal Vida e Ação – reconhece que a saúde humana está intrinsecamente ligada à saúde animal e ao meio ambiente. Em eventos de massa sob condições climáticas extremas, fica claro como o desequilíbrio ambiental impacta diretamente a saúde pública. A vigilância constante e o manejo adequado desses fatores são pilares essenciais para garantir a segurança da população em um ecossistema urbano cada vez mais desafiado pelas crises climáticas.

Nota de utilidade pública: Para mais informações sobre cuidados com o calor e a localização das unidades de saúde, acesse os portais oficiais da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro e da Secretaria Municipal de Saúde.

Com Assessorias (atualizado em 22/02/26)

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