Parkinson: tratamentos podem proporcionar sobrevida de até 20 anos

Tratamento de Parkinson reúne medicamentos, equipe multidisciplinar e cirurgia. Conheça a história de Lucas, que melhorou a qualidade de vida

Lucas Fernando Rossi Peloggia, morador de Taubaté SP, passou por cirurgia para corrigir sinais do Parkinson (Foto: Divulgação)
Gostou desse conteúdo? Compartilhe em suas redes!

Embora o Parkinson não tenha cura, atualmente a Medicina conta com diversos recursos que contribuem para diminuir sintomas significativos da doença, proporcionando muito mais qualidade de vida para os pacientes. O tratamento é feito com medicamentos, equipe multidisciplinar (fisioterapia, fonoaudiologia, nutricionista e enfermeira) e, em alguns casos, cirurgia.

A boa notícia neste Dia Mundial da Conscientização da Doença de Parkinson (11 de abril) é que novas terapêuticas têm proporcionado uma sobrevida de 15 a 20 anos entre os pacientes. “Com o tratamento adequado, é possível devolver ao paciente mais autonomia, fazendo com que ele tenha qualidade de vida por mais tempo”, explica Nilton Lara, neurocirurgião da Rede de Hospitais São Camilo (SP).

De acordo com o especialista, o tratamento com medicamentos costuma trazer ótimos resultados em pacientes por um período de cinco a 10 anos. No entanto, ao longo do tempo, os remédios começam a causar efeitos colaterais que podem ser mais prejudiciais que os próprios sintomas da doença. “Esse é o melhor momento para realizar a cirurgia”, afirma.

O implante de estimulador cerebral (uma espécie de “marca-passo cerebral”) é um importante aliado no processo de tratamento da doença de Parkinson, devendo ser indicado corretamente por um médico neurologista especializado.

Cirurgia com o paciente acordado corrige o tremor das mãos

Para o tremor das mãos, pode ser indicado um procedimento cirúrgico que é realizado com o paciente acordado. Conhecida como Estimulação Cerebral Profunda, do inglês Deep Brain Stimulation, a técnica consiste no implante de eletrodos em regiões específicas do cérebro que são responsáveis pelo controle dos movimentos.

É um método minimamente invasivo e com excelente resposta, que já pode ser observada no ato enquanto o cirurgião testa o alvo relacionado aos movimentos”, diz o neurocirurgião funcional e doutor pela Unifesp, Claudio Corrêa.

Os eletrodos são conectados a um neuroestimulador, que funciona como um marca-passo. Trata-se de um equipamento muito pequeno implantado sob a pele na região abdominal ou abaixo da clavícula”, explica o médico.

O procedimento é pouco invasivo e pode ser executado sob sedação, permitindo rápida recuperação. A partir daí, o implante é regulado progressivamente e leva cerca de três meses para chegar ao ponto de estimulação máximo.

‘Hoje tenho planos e sonhos’, diz paciente que se submeteu a cirurgia

De acordo com os especialistas, essa neuroestimulação por meio do implante diminui os sintomas motores, o tremor, a rigidez e os movimentos involuntários, além de reduzir os problemas com equilíbrio, a marcha e a fala, levando o paciente a adquirir mais independência para se locomover e se comunicar.

Esses foram alguns dos benefícios obtidos por Lucas Fernando Rossi Peloggia, morador de Taubaté (SP), que realizou a cirurgia quando já apresentava sintomas altamente incapacitantes. Diagnosticado aos 42 anos, ele viu a doença evoluir muito ao longo dos anos, comprometendo suas funções motoras e cognitivas. “Lucas tinha muitos tremores, rigidez, marcha comprometida e perda da qualidade vocal, além de sofrer com insônia e depressão”, conta a esposa Josiane.

Depois de realizar o implante com o neuroestimulador, o paciente afirma ter percebido melhoras importantes logo nos primeiros dias. “Voltei a ter mais qualidade de vida, consigo ser mais independente e tenho minha capacidade intelectual preservada. Se não tivesse feito a cirurgia, estaria fisicamente dependendo de um cuidador”, conta Lucas, hoje com 56 anos.

Hoje sou uma pessoa muito grata pela oportunidade de ter feito essa cirurgia. O meu único desejo é ter uma vida longa com essa atual qualidade de vida. Tenho muitos planos e sonhos, e agora sei que consigo realizá-los”, finaliza o paciente.

Existe um tratamento adequado?

O tratamento do Parkinson é pensado para atender as demandas apresentadas, variando de acordo com o quadro. Entretanto, em comum está a necessidade de um atendimento multidisciplinar, composto por diferentes áreas de atuação. Entre elas estão a fisioterapia, fonoaudiologia e psicologia, que somam na reabilitação física e mental.

Dr Nilton ressalta que o apoio de uma equipe multidisciplinar também é muito importante para a melhora na qualidade de vida do paciente, como no caso de Lucas, que faz acompanhamento com especialistas, como fonoaudiólogos e fisioterapeutas. “Esse suporte faz toda a diferença, pois as terapias de reabilitação ajudam a potencializar os resultados e, principalmente, ampliar o bem-estar do paciente”, destaca o especialista.

“A terapia é individualizada e muda no decorrer do tempo”, explica o neurologista Willians Lorenzatto, assessor médico do Grupo FQM. Apesar do aumento na expectativa de vida do paciente, os procedimentos não têm o poder de cura, mas proporcionam maior qualidade de vida para a pessoa com Parkinson. Ele aconselha que haja uma preocupação com a rotina do indivíduo, para que se tenha alimentação equilibrada e pratique exercícios físicos.

Sobre os medicamentos, existem diversos grupos de remédios que podem ser utilizados. “Mas é importante frisar que a grande maioria deve atuar na elevação de concentração da dopamina no cérebro, o neurotransmissor que geralmente se encontra em níveis muito baixos em quem possui a doença de Parkinson”, afirma D=Alexandre Venturi, médico neurologista da Clínica IMUVI..

Ele destaca os Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT), criados pelo Ministério da Saúde. São documentos que estabelecem critérios para o diagnóstico da doença ou do agravo à saúde; o tratamento preconizado, com os medicamentos e demais terapias apropriadas; assim como as posologias recomendadas.

O PCDT inclui todos os aspectos em torno de uma doença que devem ser cumpridos por gestores do Sistema Único de Saúde e profissionais da área de saúde. A doença de Parkinson, no Brasil, também possui um PCDT e a última versão foi atualizada em 2017.

É muito importante que todos se conscientizem que, ainda que as doenças degenerativas sejam irreversíveis, todos os recursos disponibilizados pela Medicina para amenizar os sintomas desses pacientes, podem e devem ser utilizados. Todos merecem uma vida melhor”, afirma Alexandre.

Os principais sintomas e diagnóstico

O tremor nas mãos é um dos principais sinais do Parkinson, mas não é o único (Banco de Imagens)

Assim como o Alzheimer, o Parkinson é uma das doenças neurodegenerativas que mais acometem pessoas no mundo. A enfermidade progressiva afeta, principalmente, os neurônios produtores do neurotransmissor dopamina, que têm relação direta com o controle dos movimentos do corpo. Este processo de destruição das células nervosas ocorre em vários pontos do cérebro e, geralmente, apresenta sintomas como lentificação dos movimentos, rigidez muscular e tremores involuntários.

De acordo com Alexandre Venturi, o diagnóstico da doença é clínico e se dá pela detecção dos principais sinais e sintomas que uma pessoa pode vir a apresentar. Os mais frequentes podem ser tremores involuntários, rigidez muscular, lentidão dos movimentos, perda das expressões faciais, lentificação do raciocínio, alterações do sono, depressão e perda do olfato.

Portanto, é primordial a busca por um atendimento médico adequado, feito, nestes casos, por um neurologista. “Como não há, infelizmente, um exame específico que consiga detectar a presença da doença com precisão. Grande parte dos diagnósticos acontece tardiamente, por isso é fundamental que as pessoas busquem tratamento o quanto antes. Isso pode, sim, proporcionar mais bem-estar e qualidade de vida aos portadores do Parkinson”, afirma.

Leia mais

Estudo aponta risco 30% maior de Covid entre pessoas com Parkinson

Parkinson: a cura ainda não chegou. Chega de preconceito! 

Parkinson: 10 coisas que você precisa saber sobre a doença

Doença de Parkinson também afeta os mais jovens

Terapia Gênica pode ser promessa no tratamento do Parkinson

Por Marcelo Valadares, neurocirurgião*

O uso de material genético como tratamento para uma série de doenças é uma evolução na medicina e ganhou repercussão em razão da pandemia, justamente por conta da aplicação deste tipo de tecnologia no desenvolvimento de vacinas contra a Covid-19. Algumas delas injetam pequenas pedaços de RNA nas células que passam a produzir proteínas, as quais combatem o vírus. Mas qual a relação disso com a Doença de Parkinson?

Há uma série de pesquisas mundiais, algumas a serem concluídas já no ano que vem, que usam a terapia gênica para atenuar e/ou melhorar a função motora de pacientes com Parkinson. A proposta dos pesquisadores é autorregular a produção de dopamina, neurotransmissor responsável pela mensagem entre as células nervosas e que tem queda intensa na Doença de Parkinson.

Dentre elas, há uma pesquisa realizada por um grupo francês que estuda a injeção de material genético diretamente em estruturas cerebrais relacionadas à doença. Este DNA carrega informação correspondente não apenas a uma enzima, mas três enzimas (TH, CH1 e a AADC) envolvidas na produção de dopamina.

Se os resultados deste estudo forem favoráveis, as células do cérebro destes pacientes se tornarão capazes de produzir a substância em quantidades adequadas para o alívio dos sintomas da Doença de Parkinson, podendo eliminar a necessidade de terapia medicamentosa. Embora ainda não acessível, precisamos ver que finalmente é possível falar na possibilidade de cura do Parkinson num futuro talvez não tão distante.

Na verdade, a medicina vem trabalhando constantemente para trazer melhor qualidade de vida aos pacientes de Parkinson, segunda condição neurodegenerativa mais incidente em pessoas com mais de 60 anos. Hoje temos medicamentos que ajudam a controlar os principais sintomas da doença, como os tremores, a rigidez e os movimentos involuntários.

Outra alternativa segura e eficaz consiste na Terapia de Estimulação Cerebral Profunda (DBS), cirurgia que utiliza um dispositivo médico implantado, semelhante a um marcapasso cardíaco. Já disponível no rol de procedimentos da rede pública de saúde, a DBS também tem evoluído. Indicada para pacientes que não absorvem bem a medição devido ao seu uso prolongado, a neuroestimulação, como a técnica também é conhecida, traz resultados bem precoces, notados horas depois da cirurgia.

Hoje existem tecnologias que nos permitem captar os sinais cerebrais do paciente e monitorá-los remotamente. Em breve, possivelmente nos “comunicaremos com o cérebro”, e não apenas interviremos. Ou seja, além das consultas regulares, ganhamos maior precisão no controle do Parkinson e passamos a atender de forma ainda mais assertiva às necessidades individuais de cada paciente.

Como aprendemos no último ano, é preciso confiar na ciência e na capacidade do ser humano de inovar e surpreender. As respostas podem não ser tão rápidas como queremos, mas estaremos sempre caminhando para trazer terapias que realmente fazem a diferença na vida dos pacientes com a Doença de Parkinson, bem como seus familiares.

* Marcelo Valadares é neurocirurgião, médico da Disciplina de Neurocirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Hospital Israelita Albert Einstein.

Dia da Mundial do Parkinson

Estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1998, o Dia Mundial da Conscientização da Doença de Parkinson aborda a condição neuro-degenerativa com objetivo de incentivar pesquisas e a inovação no setor. A data também homenageia o famoso cirurgião e farmacêutico inglês James Parkinson, que fez o primeiro relato da doença, em 1817.

Com Assessorias

Gostou desse conteúdo? Compartilhe em suas redes!

You may like

In the news
Leia Mais
× Fale com o ViDA!