Olho seco: os riscos da exposição às telas em adultos e crianças

Exposição excessiva a telas acelera riscos de problemas oculares em crianças e adultos. Saiba também como identificar a obstrução da via lacrimal

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As telas estão presentes em quase todos os momentos da nossa rotina. No trabalho, nas escolas, universidades e nos momentos de lazer a tecnologia se faz presente, através da tela de computadores, celulares, tablets, kindles e outros. Essa exposição frequente e contínua à iluminação artificial dos aparelhos eletrônicos pode ser responsável por exemplo, a progressão da miopia em crianças e adolescentes. Uma das principais complicações resultadas pela exposição às telas é o ressecamento dos olhos, ou “olho seco”, como é conhecido popularmente.
A síndrome do olho seco, causada por redução na produção ou por alteração na qualidade das lágrimas, provoca o ressecamento da superfície ocular e desencadeia sintomas que interferem diretamente na qualidade de vida dos pacientes, causando ardor, coceira, secura, sensação de “areia” nos olhos e fotofobia. “Em casos mais graves, quando não tratada adequadamente, essa condição compromete, inclusive, as atividades diárias, impactando negativamente a qualidade de vida”, destaca.
“Ao olharmos para telas tendemos a piscar menos vezes do que o normal. O olho acaba ficando menos lubrificado do que deveria, causando sensação de ardência, desconforto e cansaço”, explica Jovanni Gomes, médico oftalmologista do Núcleo de Oftalmologia.
Já em crianças, o profissional discorre que a intensa exposição dos olhos aos aparelhos com telas pode levar ao desenvolvimento e agravamento de casos de miopia nas crianças.
“As telas podem causar alterações no globo ocular, que provocam a miopia. Em alguns casos, a exposição à luz artificial pode piorar da miopia, tornando o quadro irreversível”, pontua o Dr. Jovanni.
O uso diário de telas recomendado pode variar de acordo com a idade, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). A instituição recomenda ainda que crianças menores de dois anos não sejam expostas aos aparelhos com tela.
Já a Sociedade Brasileira de Oftalmologia discorre que se o uso de telas ultrapassar quatro horas diárias, deve-se ser feitas pequenas pausas com o objetivo de evitar a intensificação do desconforto visual.
Um estudo recentemente publicado aponta que metade da população mundial será míope em 2050 e desta, um a cada 10 serão de alto grau, e, portanto, predispostas a complicações oculares bem como pelo risco de perda progressiva e irreversível da visão. Nos últimos dois anos estudos na população de crianças asiáticas mostraram cerca de 40% de crescimento de miopia. Esse fator foi atribuído ao excesso de uso de telas e falta de atividades outdoor trazidos durante a pandemia do Covid 19.
De acordo com Patrícia Ferraz Mendes, oftalmologista e chefe da equipe de Oftalmologia do Sabará Hospital Infantil, além do surgimento da miopia, essa exposição às telas em excesso de atividades pode trazer outros danos à saúde ocular.

“Crianças que ficam muito tempo em celulares, tablets ou atividades indoor estão em constante exposição ao fator de risco para o desenvolvimento da miopia patológica. Além do fato do uso de telas sem descanso também desencadearem sintomas como fadiga e sinais de olho seco severo pela falta do piscar”, explica a médica.

Estima se que as taxas de desenvolvimento de miopia diminuam cerca de 2% cada hora adicional em atividades ao ar livre por semana em crianças que ainda não sejam míopes. “Além disso, recomenda se que, a cada 40 minutos de uso de tela, haja uma pausa de 10 minutos” , complementa Dra. Patrícia.

Embora o uso faça parte da rotina, pais e responsáveis não devem fornecer telas as crianças com idade inferior a dois anos. Segundo a Academia Americana de Pediatria, entre dois e cinco anos, o uso destes dispositivos deve ser restringido a uma hora por dia, pois desenhos e jogos causam irritabilidade, agitação e outros prejuízos no desenvolvimento cognitivo e da linguagem.

A especialista explica que o ideal é a criança ser levada ao oftalmologista ainda no primeiro ano de vida. Com isso, caso seja identificada alguma alteração ocular, o tratamento é realizado de forma precoce, uma vez que, os primeiros sete anos de vida, são os mais importantes no desenvolvimento visual.

Preste atenção no impacto das telas na saúde ocular

As telas apresentam um impacto direto na visão das crianças e adolescentes e, com isso, há uma preocupação crescente com possíveis danos no desenvolvimento visual. Os casos de miopia tem crescido em todo o mundo e o uso excessivo da visão de perto (não só nas telas) é um dos vilões. O uso por muitas horas estimula o crescimento do olho aumentando a miopia.

Essa é uma questão que os oftalmologistas têm estudado muito e na consulta orientamos as famílias em relação às mudanças de comportamento e aos tratamentos disponíveis, pois a miopia (especialmente quando mais alta) pode levar a alterações da retina e baixa visão. Hoje temos bons tratamentos para controlar esse aumento da miopia, mas evitar esse uso excessivo da visão de perto é também fundamental.

Além disso, as crianças apresentam cada vez mais sintomas como olho seco e cansaço visual devido ao excesso de tempo de tela. Isso ocorre porque durante a exposição da tela, piscamos menos do que o necessário, diminuindo a lubrificação. É fundamental fazer pausas periódicas para descansar a visão e melhorar a lubrificação. A cada 20 minutos usando a visão de perto deve-se desviar o olhar para algo a aproximadamente seis metros de distância (20 pés) e fixar a visão por 20 segundos (chamamos isso de 20/20/20).

É fundamental investir nos cuidados com a saúde ocular das crianças. Visitar regularmente um médico oftalmologista para a realização de exames preventivos, adotar alguns hábitos diários, além de proteger os olhos da exposição à luz solar são algumas das recomendações. Os pais também devem manter a atenção aos comportamentos e reclamações dos pequenos”, afirma o médico oftalmologista e consultor da HOYA Brasil. Celso Cunha.

Atenção às telas: realize atividades ao ar livre

Muitas crianças assistem a desenhos e outras programações infantis, além de ficar na tela dos celulares, tablets e outros aparelhos durante um tempo prolongado sem se dar conta de que pode ser prejudicial para a saúde ocular.

“Fazer pausas periódicas são importantes para descansar a visão. O exercício 20-20-20 pode ajudar na redução da fadiga dos olhos. A cada 20 minutos olhando para o smartphone, tela de computador, televisão, deve-se desviar o olhar para algo a aproximadamente seis metros de distância e fixar a visão por 20 segundos”, explica o especialista.

Algumas evidências, por exemplo, já sugerem que a exposição e o tempo ao ar livre podem auxiliar na proteção contra a progressão da miopia, podendo possivelmente aumentar o efeito do tratamento de uma intervenção de controle da doença. Isso destaca a importância de incentivar crianças míopes ou não, a participar de qualquer atividade ao ar livre, desde brincadeiras vigorosas até atividades silenciosas, como a leitura.

“A prática de atividades ao ar livre promove o contato com a iluminação natural, responsável por ajudar o desenvolvimento adequado do globo ocular”, conclui o médico.

Obstrução da via lacrimal: saiba quando identificar e tratar o problema

O canal lacrimal faz parte de uma delicada e complexa estrutura que compõe o olho humano. Atuando como uma espécie de duto, esse sistema liga a superfície ocular com o nariz, realizando a drenagem da maior parte do líquido lacrimal dos olhos para a área interna nasal. No entanto, o canal pode ter sua passagem obstruída, causando alguns desconfortos.

Segundo Cícero Narciso, médico oftalmologista do Núcleo de Oftalmologia, essa situação é mais recorrente entre recém-nascidos e crianças de até 3 anos, podendo acarretar também pessoas adultas, especialmente na casa dos 50 anos.

“Não existe uma concordância sobre as causas da obstrução, pois ela pode acontecer de forma adquirida, em pessoas adultas, ou congênitas, pré-nascimento”, complementa o médico.

Dentre os sintomas da obstrução, o médico elenca os principais e mais observados nesses casos. “Você pode começar tendo um lacrimejamento excessivo, ou epífora como é classificado na medicina ocular. Em seguida, o quadro pode evoluir para uma secreção, “olho húmido”, visão borrada ou turva, irritação ocular, olhos grudados ao acordar, infecções regulares do saco lacrimal e até desenvolver um pequeno relevo perto do nariz”, discorre.

O tratamento para a causa, ocorre conforme o quadro de cada paciente. Cícero aponta que em recém-nascidos com obstrução congênita, por exemplo, o problema tende a se resolver de forma espontânea ou com massagem, no caso de crianças com até 1 ano de idade, para maiores é indicado a sondagem cirúrgica do canal lacrimal.

“Já no caso de adultos,  o tratamento depende da localização e/ou causa da obstrução da via lacrimal, podendo serem realizadas soluções como punctoplastia, Dacriocistorinostomia ou Conjuntivo-dacriocistorinostomia”, conclui.

Olho seco também pode ser causado por cirurgia de catarata

Em dezembro de 2019, às vésperas das celebrações de final de ano, a esteticista Norma Brabo foi diagnosticada com catarata. A doença, causada pelo descontrole do diabetes — recém-descoberto, afetou parcialmente a visão do olho direito e provocou perda significativa da visão do olho esquerdo.

Após uma jornada de idas e vindas às clínicas e consultórios médicos, a esteticista conseguiu agendar as cirurgias de catarata e desde abril de 2020, Norma convive com lentes intraoculares que substituíram os cristalinos opacificados nos dois olhos.

“Foram dias difíceis. Conviver com a catarata nos traz momentos de angústia, porque eu quase perdi totalmente a minha visão, mas aprendi que é fundamental ter atenção redobrada com a saúde dos meus olhos. Hoje não saio de casa sem o colírio que levo na bolsa e que eu uso para lubrificar os olhos na correria do dia a dia”, explicou.

A história de Norma se confunde com as dos mais de 600 mil brasileiros que são anualmente submetidos à cirurgia de catarata, segundo dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, referentes ao ano de 2019. O sucesso da reabilitação visual do olho afetado depende de diversos fatores, incluindo de doenças sistêmicas à doenças oculares associadas à catarata, e, embora cada caso tenha suas particularidades, uma condição em comum afeta todos os pacientes: a síndrome do olho seco pós-cirúrgica, observa o médico oftalmologista e professor Dr. Milton Ruiz Alves.

“É preciso deixar claro que cirurgias para a extração da catarata, correção dos vícios de refração (refrativa) e para o controle da pressão ocular (glaucoma), desencadeiam sintomas do olho seco no pós-cirúrgico. Se o paciente já sofre com essa condição o quadro poderá ser agravado, e se não possui terá que lidar com sintomas intensos do olho seco por pelo menos 90-180 dias. Isso porque esses procedimentos cirúrgicos alteram a inervação da córnea e desencadeiam inflamação, promovendo descamação celular (ceratite superficial) e redução da estabilidade da camada de lágrima que protege a superfície ocular. Por isso, os olhos vão arder, queimar e ocasionar flutuação e baixa de visão durante a recuperação”, explica.

Segundo o especialista, essa condição não é particular da cirurgia de catarata. Ocorre, também, em procedimentos antiglaucomatosos, cirurgias refrativas, cirurgias para a correção de blefaroptose, cirurgias para correção do estrabismo e em resseção do pterígio ou de tumores da superfície ocular, entre outras.

O tratamento é viável e passa pela lubrificação dos olhos, que pode ser individualizada de acordo com as necessidades de cada paciente. Para a maioria, a indicação médica para a utilização de lubrificante artificial de forma rotineira contribui significativamente para o sucesso dos procedimentos.

“Como desenvolver sintomas do olho seco é um resultado esperado nas cirurgias oculares, o ideal é agir preventivamente indicando aos pacientes a instilação de lubrificante artificial adequado, conhecido popularmente como colírio de “lágrima artificial”, nos 30 dias que antecedem a intervenção e estender seu uso até três meses após a cirurgia”, recomenda.

Além disso, o médico destaca que pacientes com doenças da superfície ocular, como blefarite, disfunção de glândulas meibomianas e olho vermelho pelo uso crônico de colírios hipotensores para o tratamento do glaucoma, já sofrem e tratam a síndrome do olho seco com a instilação de gotas de colírio lubrificante livre de conservantes, cujos frascos previnem a contaminação bacteriana durante o tratamento.

“Esse é um cuidado que precisamos estender para todos os pacientes, já no pré-operatório da cirurgia de catarata, afinal estamos falando do procedimento oftalmológico mais realizado no Brasil e não desejamos que sintomas intensos do olho seco possam comprometer o sucesso da cirurgia e contribuir para que a expectativa dos pacientes não seja alcançada. Nosso papel como médico está não apenas no tratamento das enfermidades, mas também em levar bem-estar para pacientes, e essa é uma atitude simples que faz a diferença para as pessoas”, comenta o oftalmologista.

Com Assessorias

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