A recente morte de um jovem de 19 anos após invadir o recinto de uma leoa no Parque Arruda Câmara, em João Pessoa (PB), volta a colocar a saúde mental no centro do debate nacional. O episódio é extremo, raro e violento, mas não surge no vazio. Ele nasce de uma trajetória marcada por transtornos psiquiátricos, abandono, descontinuidade terapêutica e sucessivas tentativas de intervenção que não se sustentaram no tempo. O ataque, registrado por visitantes, é apenas o último capítulo de uma história que se desenha por anos sem acolhimento adequado.
Para além das manchetes sensacionalistas do ataque, é importante focar na tragédia social e humana por trás do ocorrido e nas falhas sistêmicas que culminaram na morte do jovem. O caso trouxe à tona novos detalhes focados na trajetória de abandono social e nas falhas do sistema de saúde mental que levaram à tragédia.
Gerson de Melo Machado, de 19 anos, conhecido como Vaqueirinho, tinha diagnóstico de esquizofrenia, histórico de vulnerabilidade social e inúmeras passagens por abrigos, delegacias e serviços de saúde. Relatórios oficiais mostram que, dias antes do incidente, havia recomendação de acompanhamento mais intensivo.
Alguns pontos que merecem ser estudados
- Contexto de abandono e violações: A vida de Gerson foi marcada por uma infância difícil, abandono familiar e diversas formas de violência e negligência por parte do poder público.
- Falhas no acompanhamento de saúde mental: Embora Gerson tivesse diagnóstico de esquizofrenia e transtornos de conduta, ele não recebia um acompanhamento psicológico contínuo e adequado. A reportagem do Fantástico de domingo (7/12) discutiu a superlotação e a falta de profissionais em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), resultando em agendamentos demorados e falta de vagas, o que contribuiu para a ausência de tratamento efetivo.
- O ‘sonho’ e ironia: Familiares e conselheiros tutelares relataram que Gerson tinha uma obsessão por leões e um sonho de ser domador de animais, o que tornou a forma de sua morte uma ironia trágica do destino.
- Espetacularização nas redes sociais: Gerson, que já era conhecido por pequenos delitos e postagens nas redes sociais, foi usado como “espetáculo” na internet, com pessoas incitando-o a cometer atos absurdos em busca de engajamento, o que pode ter influenciado seu comportamento desafiador.
- Crítica ao sistema: O caso levantou um debate mais amplo sobre o desmonte dos hospitais psiquiátricos no Brasil sem a construção de um sistema sólido de assistência substitutivo, transformando a morte de Gerson em um símbolo do fracasso coletivo da sociedade e do Estado em cuidar de pessoas com transtornos mentais.
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A morte de Gerson também desperta atenção fora do país, mas não pelos elementos gráficos do ataque. O que chama atenção é o percurso que antecede o ato: a sequência de sinais ignorados, a ausência de cuidado estável e a falta de protocolos considerados essenciais em países que lidam com suicídio e impulsividade grave como problemas de saúde pública.
Para a DBT Brasil, é impossível compreender o que aconteceu no zoológico sem olhar para a dor acumulada. A vida de Gerson alternava breves períodos de tratamento com longos intervalos sem supervisão, justamente nos momentos em que apresentava maior risco. Essa intermitência é uma marca comum em sistemas de cuidado que não conseguem oferecer estabilidade emocional, rede de apoio e continuidade.
Vinícius Guimarães Dornelles, integrante da diretoria da Associação Mundial em DBT (WDBTA), afirma que episódios como esse são expressão de uma crise emocional profunda. “A pessoa que ultrapassa uma barreira de segurança não está em busca de espetáculo. Está tentando interromper uma experiência interna que se tornou insuportável. A impulsividade extrema é um marcador clássico da desregulação emocional quando não existe habilidade para lidar com a sensação de urgência.
O episódio no zoológico não é apenas uma tragédia individual. Ele funciona como alerta de um sistema que reage ao caos, mas não previne. Vinícius reforça que tragédias como essa não se explicam por um único momento, mas pelo acúmulo de anos sem estratégia.
O que aconteceu em João Pessoa não é um enigma. É o que acontece quando alguém vive anos sem a combinação de validação, tratamento estruturado e habilidades emocionais. Protocolos internacionais mostram que existe um caminho que reduz riscos. A pergunta é por que ele ainda não é acessível aqui.”
Protocolos de crise
A DBT Brasil vê o caso como um marco para discutir mudanças na política nacional de cuidado. A entidade defende a implementação de equipes treinadas em protocolos de crise, ampliação do acesso a terapias baseadas em evidências e construção de redes de proteção que não se rompam no primeiro obstáculo.
A DBT trabalha exatamente para evitar que alguém chegue ao ponto de agir sem avaliar consequências. Quando há treino de habilidades, acompanhamento contínuo e estrutura clínica, a impulsividade perde força. Sem rede, a pessoa fica sozinha diante da própria dor”, diz Êdela Nicoletti, psicóloga especialista em DBT.
A Terapia Comportamental Dialética é aplicada em centros especializados no mundo todo para pessoas em alto risco emocional. A literatura internacional já mapeia os elementos que precisam estar presentes para interromper espirais perigosas como a que marcou a vida do jovem. explica que o principal diferencial está no modelo estruturado de intervenção.
Nos Estados Unidos, na Europa e em diversas regiões da Ásia, existe uma prática consolidada de protocolos de crise baseados em DBT. Eles combinam avaliação contínua, intervenções de segurança, acompanhamento ativo da equipe e habilidades práticas que ajudam a estabilizar o paciente. A regulação emocional é ensinada como ferramenta de sobrevivência.”
Esses protocolos, usados em centros de referência, incluem monitoramento intensivo quando há risco iminente, planos de segurança construídos com o paciente, sistemas de aviso precoce e equipes organizadas para intervir rapidamente quando sinais de impulsividade surgem. No Brasil, iniciativas assim ainda não são amplamente implementadas na rede pública, o que deixa muitos jovens vulneráveis a ciclos de instabilidade que se repetem até explodirem em comportamentos de alto risco.
Leoa não agiu por maldade, diz Proteção Animal Mundial
O caso também trouxe à tona o debate sobre a segurança nos zoológicos e dividiu opiniões. A comoção foi enorme, e com ela surgiram interpretações que buscavam apontar culpados, muitas vezes direcionando a responsabilidade ao animal. O Ibama pretende revisar os protocolos de segurança dos zoológicos após o incidente, já que a equipe do parque enfrentou dificuldades para acessar o recinto e afastar a leoa do corpo de Gerson.
Ativistas da causa animal saíram em defesa da leoa que atacou Vaqueirinho após ele invadir o seu recinto. “Essa não é uma história de vilania. É uma história de ausência”, diz Rodrigo Gerhardt, da equipe de vida silvestre da Proteção Animal Mundial. Segundo ele, a leoa não agiu por maldade; ela respondeu com instinto, como qualquer felino selvagem faria diante de uma invasão de espaço. Segundo Gerhardt, é preciso olhar para o caso com mais delicadeza e profundidade.
Quando vidas desprotegidas se encontram, a reflexão precisa ser coletiva. O que faltou ali não foi controle sobre o animal, mas cuidado com o jovem, que vivia sofrimento mental e precisava de acolhimento real, contínuo e estruturado . Quando uma vida vulnerável encontra um animal que não pode deixar de ser o que é, o risco se torna visível. E é justamente por isso que este caso não deve ser reduzido a culpa ou reação, mas sim transformado em aprendizado”, diz o especialista.
A Proteção Animal Mundial trabalha para que animais silvestres não sejam usados como entretenimento, para que felinos não sejam exibidos como “pets” em vídeos virais, abraçados, controlados ou humanizados, que o público não confunda afeto com domesticação e que a internet deixe de romantizar o que nasce livre e selvagem.
E isso não é apenas sobre animais. É também sobre pessoas. Porque quando a sociedade falha em cuidar de uma vida humana em sofrimento, e ao mesmo tempo transforma a fauna em espetáculo, duas vulnerabilidades se encontram, e ninguém está protegido”, disse Rodrigo Gerhardt, em entrevista ao portal Um Só Planeta.
A Proteção Animal Mundial propõe algumas reflexões a partir do caso, em defesa dos felinos expostos em zoológicos:
- Questionar vídeos que mostram contato direto com felinos.
- Não compartilhar conteúdos que transformam vida selvagem em entretenimento.
- Valorizar iniciativas que priorizam habitat natural, reabilitação e não interação física.
- Apoiar políticas e serviços que acolhem pessoas em sofrimento mental.
Cuidar é verbo que atravessa espécies. Proteção é plural. E responsabilidade também”, diz o ativista.
Com Assessorias




