O Espectro: reflexões sobre os conflitos do cotidiano feminino

Conto fala de solidão, invisibilidade, envelhecimento, finitude e dificuldades enfrentadas pelas mulheres, mas também de possibilidades

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Neste espaço especial que ocupamos mensalmente, trago hoje um conto de minha autoria com reflexões a respeito da vida cotidiana e seus conflitos para mulheres que ultrapassaram a barreira dos 50 anos.

Dentre eles, a solidão, a invisibilidade, o envelhecimento, a finitude e as dificuldades de fazermos contato com nossas necessidades, desejos, dores, percepções, sentimentos e sensações.

O conto aborda, também, as possibilidades que a vida pode nos oferecer, se quisermos e tivermos a coragem de nos libertar e estarmos abertas ao novo!

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O Espectro

Ela abriu vagarosamente a porta do armário do quarto. Ouviu-a ranger, denunciando a falta de uso, e viu o espelho. Olhou-se, de frente, como há muito não fazia. Quase não se reconheceu. A imagem refletida parecia-lhe uma sombra do que fora um dia, uma quimera. Virou-se de lado, para analisar o perfil, como a estudar um objeto desconhecido ou que não se vê há anos.

Os contornos do rosto não mudaram tanto, pensou. Apenas nos detalhes havia um sem número de diferenças entre a mulher que fora e a que hoje era. Mapeou, detalhadamente, os defeitos que mais lhe chamaram a atenção, como se o rosto pertencesse a uma terceira pessoa.

As bolsas na pálpebra e as olheiras, profundas e escuras, foram os primeiros sinais dos efeitos do tempo e da falta de cuidados com sua pele. As manchas, provocadas pelo excesso de exposição ao sol, e os vincos, demasiadamente marcados no mapa da face, denunciavam o longo e tortuoso caminho percorrido em uma existência sofrida.

Cabelos longos totalmente brancos finalizavam a impressão de abandono, de esquecimento da mulher em relação ao seu corpo. Nenhuma dessas visões a espantou de fato. A mudança não acontecera de uma hora para outra, ela sabia. Os primeiros sinais da decrepitude prematura, quase premeditada, nasciam de dentro, das entranhas. E para senti-los e sabê-los, ela não precisava de espelho.

Tornou-se um fantasma, um espectro que não era percebido

Com o tempo, foi perdendo a noção de posse, de intimidade e cumplicidade com aquele corpo. Assemelhava-se a um fantasma, um espectro que se movia, sorrateiro, sem emitir som, sem ser percebido. Acostumou-se.

Caso outras conexões com a realidade não persistissem em invadir seu apartamento, escorregadias, por entre as frestas de portas e janelas, ela poderia acreditar que superara os limites da matéria, se tornara um espírito capaz de transitar entre dois mundos sem ser notada, exilado numa dimensão própria, solitário.

Após o longo período de reconhecimento, a mulher apanhou de uma bolsa deixada no fundo do armário, um pequeno pote redondo, com tampa transparente, cujo conteúdo servia para corrigir as imperfeições da pele. De olhos fechados, tateando as linhas do rosto, foi preenchendo, com o espesso creme, os espaços demarcados anteriormente na sua memória.

Pegou, também, na mesma bolsa, um delineador, abaixou com uma das mãos a área que contorna os olhos e deslizou o lápis pelo fino caminho sobre os cílios, na parte inferior dos olhos. Olhou-se novamente no espelho e teve a impressão de que o espectro começava a se materializar, já não era uma sombra completa.

Pegou uma escova, de dentes largos, e passou-a pelos cabelos, devagar, sentindo-a massagear-lhe a cabeça, quase como a acariciá-la. Um arrepio lhe perpassou o corpo, tirando-a do estado de torpor.

Além dos 50: as marcas dos anos de solidão e sofrimentos

Quantos anos tinha de verdade ela sabia. Passara dos 50. Mas quantos anos os anos de sofrimento e solidão lhe haviam acrescentado? Não saberia precisar, nem o queria. O que essa descoberta poderia mudar?

O batom, de um tom dourado, mais para fosco, como ouro velho, e um rímel que lhe alongou os cílios, projetando-os para frente, finalizaram a maquiagem, não experimentada desde os tempos de juventude. E a cor que a face ganhou ressuscitou a mulher morta naquele corpo. Ou seria o corpo morto que teria feito da alma da mulher prisioneira? De que valeria saber? Quem se importaria?

Ato contínuo, procurou entre as roupas escuras, na penumbra do guarda-roupa, uma saia, não muita curta que deixasse parte das pernas de fora, nem muito comprida que as encobrisse totalmente. Escolheu ainda uma blusa. Sem pensar muito, retirou do cabide uma tomara-que-caia. Seu colo ainda era bonito, acreditava, e as manchas senis não haviam se alastrado totalmente por ali.

Ela queria que parte do seu corpo ficasse em contato com o ar, precisava despir-se o mais possível, precisava que a pele respirasse, como um recurso fundamental para se sentir viva.

Abriu a gaveta de sapatos, abaixo da porta lateral do guarda-roupa, e de lá sentiu subir um forte cheiro de mofo, de coisa morta. Sorriu ao pensar que os sapatos, como ela, jaziam como numa tumba, um lugar esquecido, com pouca luz, trancafiados, inertes.

Escolheu uma sandália de salto fino. Não era um modelo moderno, como nada o era naquele apartamento, mas possuía uma tira no tornozelo, acessório que certamente daria algum charme ao visual. Precisou limpá-lo para tirar as manchas de fungo, acinzentadas, que se acumulavam na superfície do couro.

E a mulher finalmente se reconheceu no espelho

A despeito da ausência de vaidade, tão prolongada que deixava sequelas visíveis, a mulher finalmente se reconheceu no espelho. Por um momento, lembrou-se de como era, de quando gostava de se admirar, tinha prazer no vestir, maquiar e pentear, ainda que fosse apenas para si.

As lembranças da vaidade atraíram outras e ela percebeu, após muitos anos, que a vida não era feita de cenas em preto e branco, como supunha em suas lembranças remotas. Ela tinha cores, cheiros, sabores, texturas. Estava decidida, nem sabia por que razão, a expiar as consequências do tempo e experimentar esquecidas sensações.

Deu uma derradeira olhada de soslaio no espelho e saiu do cômodo, sem fechar a porta. Deteve-se por um minuto e resolveu abrir as cortinas e janelas, pela primeira vez em anos. Abriu, também, todas as portas dos armários, as gavetas internas, as da cômoda e a da mesa de cabeceira, que ladeava a cama de viúva. Enquanto abria a última gaveta, ouviu sons que vinham da janela.

Escolheu, por fim, uma bolsa, da mesma cor da sandália, colocou dentro a carteira, o batom e o delineador. Olhou pela janela repleta de visões impróprias, esquecidas. O grito fino de uma criança feliz, um pássaro apressado e o chiado ritmado de uma vassoura anunciavam um dia comum, incomum para ela, que, depois de anos, se sentiu fazendo parte.

Abriu a porta, saiu e bateu-a vigorosamente. Saiu em busca de outros pedaços de si, para juntar com as outras peças do seu quebra-cabeça: o batom, o delineador e seu colo quase sem manchas.

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