A resposta brasileira ao HIV ganhou um novo e potente aliado na última semana, mas o otimismo científico vem acompanhado de um severo alerta humanitário. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o registro do lenacapavir, a primeira profilaxia pré-exposição (PrEP) de aplicação semestral.
Se por um lado a tecnologia da Gilead Sciences promete revolucionar a prevenção com apenas duas doses anuais, por outro, o preço de tabela praticado pela farmacêutica acende o sinal vermelho sobre a viabilidade de sua incorporação no Sistema Único de Saúde (SUS).
O abismo entre o custo de produção e o preço de mercado
A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) foi rápida em posicionar-se de forma crítica. Embora celebre a aprovação, a entidade alerta que o benefício corre o risco de ficar restrito a uma elite econômica. Nos Estados Unidos, o preço de tabela do lenacapavir ultrapassa os US$ 28 mil anuais (cerca de R$ 155 mil).
Em contraste, um estudo publicado pela revista The Lancet HIV revela a face cruel do lucro farmacêutico: a versão genérica do mesmo medicamento poderia ser fabricada e comercializada com lucro por valores entre US$ 35 e US$ 46 (aproximadamente R$ 192 a R$ 253) por ano. Ou seja, o preço cobrado pela detentora da patente é quase 600 vezes maior do que o custo estimado de uma versão genérica.
É essencial que o medicamento seja comercializado a preços acessíveis e transparentes”, afirma o MSF, lembrando que instituições e voluntários brasileiros participaram ativamente das pesquisas que viabilizaram o fármaco.
A eficácia que beira a perfeição
Os dados que sustentam a aprovação pela Anvisa são robustos. Nos estudos clínicos de Fase 3 (PURPOSE 1 e 2), o lenacapavir demonstrou eficácia superior a 99,9%. No estudo PURPOSE 1, não houve sequer uma infecção entre as participantes.
O grande diferencial, porém, não é apenas biológico, mas comportamental: ao substituir a ingestão diária de comprimidos por uma injeção a cada seis meses, o medicamento resolve o principal gargalo da PrEP atual: a adesão.
Para o diretor médico da Gilead Brasil, André Abrahão, a aprovação é um marco que oferece esperança especialmente para pacientes com resistência múltipla a outras drogas. Contudo, é no campo da prevenção que a batalha pelo acesso será mais intensa.
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A encruzilhada ética
No entanto, a chegada do lenacapavir coloca o Brasil diante de uma encruzilhada ética e financeira. O país, que já foi referência mundial na quebra de patentes e no acesso universal a antirretrovirais, terá de negociar com uma gigante farmacêutica que detém uma tecnologia de ponta, mas impõe valores que podem asfixiar o orçamento público.
A crítica que ecoa entre as organizações de saúde é clara: uma inovação que não chega aos braços de quem precisa não é um avanço científico pleno, mas um privilégio de mercado. O desafio agora é transformar o “milagre” da injeção semestral em uma política pública real, antes que o abismo de preços condene mais uma geração à vulnerabilidade.
Fiocruz: o caminho para o SUS passa pela ciência nacional
Enquanto o debate sobre preços ganha fôlego, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) já se movimenta para testar a viabilidade da droga no contexto da saúde pública brasileira. Através do estudo ImPrEP LEN Brasil, a fundação irá monitorar a aplicação do injetável em sete cidades (incluindo capitais como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Manaus).
O foco da Fiocruz é estratégico: homens gays e bissexuais, pessoas não binárias e transgênero entre 16 e 30 anos. A escolha deste público-alvo não é por acaso, já que são as populações que enfrentam maiores barreiras de estigma e dificuldades de manter tratamentos preventivos diários.
O estudo da Fiocruz será o termômetro para uma futura incorporação ao SUS. As doses já foram disponibilizadas pela Gilead, mas o início depende de detalhes logísticos, como a chegada de agulhas específicas ao país.




