Dentro de seis meses, pacientes atendidos na rede pública de saúde terão acesso a uma nova medicação para tratar infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) de origem bacteriana, especificamente a sífilis e a clamídia. O Ministério da Saúde oficializou a ampliação do uso da doxiciclina 100 mg no Sistema Único de Saúde (SUS). A inclusão de mais um medicamento na linha de cuidado do SUS reforça o combate ao avanço de ISTs, principalmente da sífilis, que ameaça a vida de mulheres e bebês.

A decisão, publicada no Diário Oficial da União após aprovação da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS), estabelece um prazo de até 180 dias para que a oferta seja efetivada na rede pública. A estratégia foca na redução da transmissão após situações de exposição de risco, funcionando de forma análoga ao que já ocorre com aProfilaxia Pós-Exposição (PEP) para o HIV.

O cenário epidemiológico: a persistência da sífilis

A incorporação da tecnologia chega em um momento crítico. Dados do Ministério da Saúde revelam que a sífilis mantém um ritmo acelerado de crescimento no país.

  • Sífilis em gestantes: Entre 2005 e junho de 2025, o Brasil registrou mais de 810 mil casos em gestantes.

  • Transmissão vertical: Em 2024, a taxa de detecção alcançou 35,4 casos por mil nascidos vivos, evidenciando a falha no controle da transmissão da mãe para o bebê (sífilis congênita).

  • Distribuição regional: O Sudeste lidera o número de diagnósticos (45,7%), seguido pelo Nordeste (21,1%).

Gratuidade no SUS X custo no mercado

A ginecologista Helaine Maria Besteti Pires Mayer Milanez, membro da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), alerta que a sífilis é um desafio histórico. “É uma doença fácil de diagnosticar e barata de tratar, mas ainda não conseguimos o enfrentamento adequado para a redução significativa entre mulheres jovens e recém-nascidos”, explica a médica.

A inclusão da doxiciclina como profilaxia no SUS representa um avanço importante no acesso à saúde. No mercado brasileiro, o preço de uma caixa de doxiciclina 100 mg (com 15 a 20 comprimidos) varia entre R$ 25,00 e R$ 70,00, dependendo da região e da marca.

Diferente do Brasil, em países como os Estados Unidos, o acesso a esses medicamentos costuma ser mediado por seguros de saúde privados. Para quem não possui seguro, o custo de apenas 14 cápsulas de doxiciclina pode chegar a US$ 97 (cerca de R$ 480,00) em farmácias de varejo. Com a nova portaria, o cidadão brasileiro terá acesso ao tratamento preventivo de forma totalmente gratuita, garantindo que o fator financeiro não seja um impedimento para a prevenção.

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Mudança de comportamento: o fim do “terror” e a baixa guarda

A abordagem comportamental ajuda a explicar por que os números continuam subindo apesar da disponibilidade de tratamento. Dois grupos geracionais preocupam as autoridades de saúde:

  1. Jovens (15 a 25 anos): Com o avanço do tratamento para o HIV, que transformou a Aids em uma condição crônica controlável, houve uma queda na percepção de risco. O “medo” das ISTs diminuiu, levando ao abandono dos métodos de barreira (preservativos).

  2. Terceira idade: O aumento da vida sexual ativa nesta fase, impulsionado por medicamentos para performance sexual e pela ausência de risco de gravidez, também resultou em menor uso de camisinha.

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Entenda as doenças contempladas

  • Sífilis: Infecção bacteriana que pode ser assintomática por longos períodos (fase latente). Se não tratada, evolui para lesões cutâneas, manchas nas mãos e pés, e pode causar danos graves ao sistema nervoso e cardiovascular a longo prazo.

  • Clamídia: Frequentemente silenciosa, pode atingir órgãos genitais, garganta e olhos. Em mulheres, se não tratada, é uma das principais causas de infertilidade e dor pélvica crônica.

Barreiras no diagnóstico e tratamento

Um dos principais entraves para o controle da doença é o subdiagnóstico e a interpretação equivocada de exames como o VDRL.

Segundo especialistas, profissionais de saúde por vezes confundem resultados positivos com “cicatriz sorológica”, deixando de tratar pacientes que continuam transmitindo a bactéria Treponema pallidum.

Além disso, o não tratamento do parceiro sexual é um fator determinante para a reinfecção das gestantes, perpetuando o ciclo da doença e colocando em risco a saúde do feto.

Mais sobre a medicação

A doxiciclina é um antibiótico da classe das tetraciclinas, indicado para tratar infecções bacterianas como acne, clamídia (uretrite/vaginose), sífilis, infecções respiratórias, urinárias e doenças por carrapatos (febre tifoide, erliquiose). Age inibindo a síntese proteica das bactérias, sendo geralmente usada na dosagem de 100mg, sob prescrição médica.

Principais condições médicas tratadas:
    • Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs): Clamídia, gonorreia não complicada, linfogranuloma venéreo.
    • Doenças respiratórias: Pneumonia bacteriana, bronquite.
    • Doenças de pele e tecidos moles: Acne vulgaris, infecções cutâneas.
  • Doenças infecciosas: Febre das Montanhas Rochosas, Febre Q, Malária (profilaxia e tratamento), Leptospirose.
  • Uso veterinário: Amplamente usada em cães e gatos para tratar infecções como erliquiose (doença do carrapato).
Informações importantes:
  • Contraindicações: Gestantes, lactantes e crianças menores de 8 anos (risco de manchas nos dentes e problemas ósseos).
  • Efeitos colaterais: Náuseas, vômitos, diarreia, dor abdominal, fotossensibilidade (sensibilidade ao sol).
  • Modo de uso: Recomenda-se tomar com bastante água para evitar irritação esofágica.

Estratégia de prevenção combinada

A nova profilaxia com doxiciclina soma-se a outras estratégias, como a PrEP (Pré-Exposição) e a PEP para HIV, mas os especialistas reforçam que o uso do preservativo continua sendo a forma mais eficaz de evitar não apenas a sífilis e a clamídia, mas também hepatites e outras infecções.

A implementação desta nova linha de cuidado no SUS reforça a necessidade de integrar a saúde humana e as políticas públicas de vigilância epidemiológica para frear um avanço que compromete gerações futuras. Para mais informações sobre protocolos clínicos, o Ministério da Saúde disponibiliza diretrizes atualizadas em seus canais oficiais (saude.gov.br).

Com informações da Agência Brasil.

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