‘Não tem nada de heroico em adotar uma criança’, diz mãe

Dificuldade para engravidar é principal motivo para mulheres buscarem uma adoção. Entenda os desafios que Aline enfrentou neste processo

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O sonho de ser mãe nem sempre pode ser realizado. Mas muitas mulheres estão encontrando na adoção o caminho para realizar o desejo da maternidade. É o caso da funcionária pública Aline Alves Silva e do seu companheiro, André Luís da Silva, que sempre planejaram ter um filho. Ambos hoje com 48 anos, eles começaram as tentativas de engravidar há 10 anos, com tratamentos hormonais e até a realização de uma FIV (Fertilização In Vitro).

Porém, mesmo com todos os esforços Aline não conseguia engravidar. Um processo complexo e doloroso, especialmente para ela, que sonhava em gestar uma criança. “É colocado sobre nós, mulheres, um peso, que nos obriga a gerar um filho, como se fosse simples e que quando não acontece, você acaba se sentindo menos capaz”, comenta Aline.

Em 2017, o casal se abriu a outra possibilidade: a adoção. E assim Aline entrou para as estatísticas de uma recente pesquisa da Famivita sobre interesse dos brasileiros em adotar uma criança. O levantamento aponta que quem tem dificuldades para engravidar lidera as respostas positivas, com 67% das pessoas afirmando que se veem adotando uma criança.

Com tantos elementos e subjetividades atravessando o tema, boa parte dos casais geralmente passa do tratamento da infertilidade para a adoção, após esgotar as opções médicas disponíveis, procurando antes ter certeza que a gravidez biológica está fora do seu alcance.

Mas não basta querer ser uma “mãe adotiva”. Há muitas etapas a serem cumpridas na jornada da adoção, para resguardar principalmente as crianças e os seus possíveis responsáveis. Para Fernanda Araújo, gestora de desenvolvimento institucional e responsável pela implementação das três casas de proteção especial de alta complexidade SAICA na ONG PAC, o caminho da adoção exige um enfoque amplo e um olhar amoroso, encarado não apenas da perspectiva de quem adota, mas do que é melhor para a pessoa adotada.

“É urgente desmistificarmos o tema, abordando a forma correta de realizar esse processo. Um serviço que deveria ser prestado com mais cuidado e informações reais no mundo das novelas e filmes. Somente assim, evitamos que principalmente as crianças sofram os impactos de um processo de adoção inadequado”, reforça.

Entenda os desafios neste processo:

Palestras e cursos para entrar na fila da adoção

Aline e o marido entraram com a documentação no fórum da região em que moravam e, durante todo o processo, participaram de inúmeras palestras e cursos obrigatórios e preparatórios, para que entrassem na fila da adoção, o que aconteceu no início de 2018. O casal inicialmente optou por crianças de 0 a 3 anos, mas depois estendeu até 4 anos, sem distinção de raça ou de gênero.

“As pessoas nos chamam de heróis pelo fato de adotarmos uma criança. Não tem nada de heroico nisso. Definimos o perfil da criança, de acordo com a nossa realidade. Não há romantização nisso, não é uma ação de caridade”, salienta Aline.

Até ver chegar ‘a sua vez’ na fila, o casal passou por entrevistas com psicólogos e a juíza, o que, segundo eles, colaborou para o entendimento de toda a dinâmica e desromantização do processo”. Em novembro de 2022, o fórum informou ao casal que havia uma criança com o perfil que eles esperavam e que eles aguardassem o contato do abrigo para conhecê-la.

A criança, um menino de 1 ano, estava acolhido em uma das unidades de abrigo do PAC (Projeto Amigos da Comunidade), que assim que recebeu a notificação do fórum, entrou em contato com a família.

“A responsável pelo abrigo, entrou em contato conosco e agendamos a visita para o dia seguinte. Foi muito emocionante, não acreditávamos que de fato estava acontecendo. Agendamos nova visita já para o dia seguinte e aí avisaram que a criança estava hospitalizada. Isso mexeu conosco e acompanhamos as visitas no hospital também”, comenta Aline.

Idas ao abrigo para criar e fortalecer vínculos com o bebê

Além das idas ao hospital, o casal realizou visitas no abrigo, o que facilitou estabelecer mais vínculos com a criança e entender as dinâmicas do dia a dia dela.

“No abrigo, fazíamos refeições com as crianças, acompanhávamos as rotinas e sempre com a supervisão dos pedagogos e psicólogos. Um espaço muito estruturado, com profissionais preparados para cuidar das crianças. Além de toda a dinâmica de visitação ser estrategicamente planejada para não atrapalhar as atividades e rotina delas”, afirma.

Após as visitas, o casal recebeu a guarda provisória da criança que já completou seis meses com o casal. “É preciso desromantizar o processo, não é simples. Assim como gerar um filho também não é. São pais que nascem a partir da criança, seja ela adotada ou não. Ser pai ou mãe é uma construção diária de muito amor e afeto”, finaliza, orgulhosa, a nova mãe Aline Alves.

Como derrubar o mito da ‘romantização’ da adoção

Às vésperas do Dia Nacional da Adoção, celebrado no último dia 25, os noticiários do país trouxeram inúmeros casos da conhecida “adoção à brasileira”, forma ilegal de adotar uma criança que estimula mitos que cercam o tema.

Somente na última semana, por exemplo, tivemos dois casos emblemáticos. O primeiro, tratava o desaparecimento de uma criança, em Florianópolis, que dias depois foi encontrada em São Paulo com um casal, que não era seus genitores. As investigações até o momento indicam que se trata de um processo de adoção ilegal.

Outro caso, foi de um casal que foi preso na cidade de Aparecida, em São Paulo, por tentar registrar uma criança ‘colocada para adoção’ antes mesmo de nascer, como se isso fosse possível por lei.

“Essas situações acabam reforçando a falsa ideia de que para adotar uma criança, basta ‘entregá-la” a alguém de sua própria escolha. O que é totalmente ilegal e configura crime previsto no artigo 242 do Código Penal: “dar parto alheio como próprio; registrar como seu o filho de outrem; ocultar recém-nascido ou substituí-lo, suprimindo ou alterando direito inerente ao estado civil”, afirma Fernanda Araújo, da ONG PAC (Projeto Amigos da Comunidade).

O processo, na realidade, é muito mais cuidadoso e deve ser iniciado pela Vara da Infância e Juventude da região que o adotante reside. Ao contrário do que se propaga, não há restrições quanto ao estado civil para adotar – a pessoa interessada pode ser casada ou solteira. Além disso, a idade mínima para adoção é de 18 anos, desde que seja respeitada a diferença de 16 anos entre quem deseja adotar e a criança a ser acolhida.

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