Moda sustentável: marcas de jeans reduzem volume de água

Marcando o Dia Mundial da Água, fabricantes anunciam série de ações sustentáveis da marca ligadas ao cuidado com as águas

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Para comemorar o Dia Mundial da Água (22 de março), marcas nacionais de roupas fabricadas com jeans, um dos tecidos que mais consumem água em sua produção industrial, resolveram anunciar medidas para mitigar esse dano ambiental e mostrar que estão preocupadas com a preservação dos recursos hídricos, alinhada cada vez mais com os princípios da sustentabilidade.

A DZARM pega carona na data para lançar a E-CO2 Denim, que promete ser a segunda coleção de jeans com a menor pegada de carbono da história da marca e traz um guarda-roupa completo com menor impacto ambiental. Já a Santista Jeanswear, por exemplo, anunciou a retirada da anilina no tingimento índigo, entre outras ações que visam processos mais sustentáveis.

“Nossos denims são totalmente isentos dos compostos químicos perigosos, com o novo tingimento Zero Anilina. Desta forma, eliminamos seu envio à estação de tratamento de água e contribuímos para a redução dos riscos aos trabalhadores e consumidores finais. Reforçando o cuidado e responsabilidade com o planeta e às gerações futuras”, explica Sueli Pereira, gerente da Santista Jeanswear.

Economia de até 96% de água na produção de jeans

Gerando uma economia de até 96% de água quando comparado a um produto jeans normal, e em todo o processo da Dzarm é reutilizado 85% da água e feito o tratamento de 100% dos efluentes. O novo tecido da DZARM também gera 34% menos de Co2 do que um denim comum, mais do que isso, em parceria com o Instituto Ipê, compensam em dobro todo o carbono emitido na produção da coleção.

Para criar o jeans do futuro, a DZARM optou pelo uso de amaciantes naturais e dispensou o uso de alvejantes. Com isso, houve uma melhoria de até 61% na etapa de lavagem, com redução de substâncias nocivas para a saúde do trabalhador e do planeta. O E-CO2 Denim é feito de algodão rastreado e certificado, com procedência nacional proveniente do manejo sustentável.

Ainda segundo a empresa, “100% dos fornecedores são certificados pelas principais instituições de controle de qualidade e responsabilidade sócio-ecológica do mundo, colocando a ética e as relações justas de trabalho como um valor fundamental.

Redução de  1 milhão de litros de água por dia

Além do Zero Anilina, a Santista afirma que possui diversas iniciativas de manutenção da qualidade e economia de água. O projeto Acquasave® atinge uma redução de aproximadamente um milhão de litros de água por dia. Ainda no tratamento de efluentes, a empresa devolve a água mais limpa do que quando captada.

De acordo com a empresa, sua estação de tratamento de efluentes (ETE), na fábrica de Americana (SP), é referência para a Cetesb, já que a estação devolve ao Rio Piracicaba água com remoção de 99% de carga orgânica processos biológicos e acima do índice estabelecido pela legislação ambiental vigente.

Outro fato interessante é a remoção de cor no efluentes, não estabelecido por lei no estado de São Paulo, mas praticado pela empresa, que estabelece como padrão de controle interno a remoção de 95% de resíduos na cor do efluente devolvido ao meio ambiente.

A Santista integra o programa ZDHC (Zero Discharge of Hazardous Chemicals), o Programa de Descarte Zero de Produtos Químicos Perigosos, uma iniciativa que busca eliminar o descarte de tóxicos, como ftalatos, metais pesados e fenóis, no meio ambiente. Realizando toda a gestão de produtos químicos através do reaproveitamento de soda e banhos de tingimento, reduzindo o descarte.

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Algodão agroecológico reduz consumo de água em até 91%

A preocupação com a água está ligada também à contaminação. “No Brasil, o algodão é a quarta cultura que mais consome agrotóxicos, sendo responsável por aproximadamente 10% do volume total de pesticidas utilizado no país, com uma aplicação média de 28 litros de pesticidas por hectare de algodão, de acordo com um relatório da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), divulgado em 2015.

O impacto do uso de pesticidas é motivo de grande preocupação devido ao alto potencial de afetar a saúde humana e o meio ambiente, podendo ocasionar desde danos ambientais, como a contaminação das águas superficiais e subterrâneas e mortalidade de abelhas até intoxicação, aborto espontâneo e casos de câncer.

Diante deste cenário, a alternativa tem sido o algodão agroecológico, capaz de reduzir em até 91% o consumo de água, 62% no consumo de energia e 46% nas emissões de GEE, além de menor toxicidade e maior geração de emprego. A boa notícia ganhou eco com o relatório ‘Fios da Moda: Perspectiva Sistêmica para Circularidade’ divulgado em 2021, que traz dados inéditos sobre os impactos socioambientais das principais fibras utilizadas na indústria da moda brasileira: algodão, poliéster e viscose.

“A vontade de produzir um relatório sobre têxteis está ligada à urgência da transformação que precisamos fazer acontecer na próxima década se quisermos garantir condições de vida minimamente estáveis na Terra frente a um cenário climático em profunda transformação”, ressalta Marina Colerato, coordenadora do projeto.

Monocultura do algodão é danosa ao meio ambiente

Em se tratando da fibra de algodão, a alternativa agroecológica é que tem se demonstrado a mais coerente. “A produção de algodão em sistema de monocultura, em geral, é bastante danosa ao ambiente, pois reduz a biodiversidade dos agroecossistemas, tornando-os vulneráveis aos ataques de pragas e doenças, assim como à perda de fertilidade dos solos”, diz o estudo.

“Isso implica a necessidade de usar uma quantidade cada vez maior e mais perigosa de pesticidas e fertilizantes químicos, os quais, além de poderem impactar a saúde humana, podem também poluir as águas e o solo, causando perda de biodiversidade e dos seus serviços ecossistêmicos”, ressaltam as pesquisadoras.

Uma alternativa à cotonicultura é a produção de algodão orgânico em bases agroecológicas. Nesse sistema, o cultivo é realizado de forma a manter a saúde dos solos, ecossistemas e pessoas. Baseia-se em processos agroecológicos, biodiversidade e ciclos adaptados às condições locais, com o emprego de sistemas de rotação de culturas (que contribuem para a restauração da qualidade do solo) e sem o uso de agrotóxicos sintéticos tóxicos e persistentes (pesticidas e fertilizantes) e de sementes geneticamente modificadas.

Algodão no Brasil é produzido com água de chuva

Apesar de o estudo fazer uma análise das três principais fibras utilizadas no mundo, as pesquisadoras chamam a a atenção para a relação do algodão e da água. Em nível global, as técnicas usadas de irrigação fazem com que o consumo de água na produção da matéria-prima seja uma grande vilã.

Por isso, é comum vermos dados de quanto uma camiseta ou calça jeans consomem de água na sua produção mas, se o algodão for de origem nacional existe grande chances de a realidade ser bem diferente. De acordo com o estudo, o algodão brasileiro é, em sua maioria, produzido em sequeiro ou seja, apenas com água da chuva.

“ As características específicas da produção brasileira parecem ser muito influentes para o consumo de água na cultura do algodão. O predomínio da produção de algodão em sequeiro (sem irrigação) é refletido nos valores médios nacionais para essa categoria: 2.333 L/kg de algodão (berço ao túmulo) e 1.704 L/kg de algodão (berço ao portão)”, aponta o estudo.

Esses valores são de quatro a cinco vezes menores que os valores médios relatados em estudos internacionais, considerando o escopo berço ao portão e berço ao túmulo, respectivamente. “Esse é um quadro tipicamente brasileiro, dado que mais de 70% do algodão mundial é irrigado e a média mundial de consumo de água de irrigação é de 10000 L de água por kg de fibra”. Ainda segundo o estudo, essa peculiaridade da produção nacional diminuiu drasticamente o consumo de água nessa etapa do ciclo de vida dos vestuários.”

Impactos vão desde produção ao consumo das peças

Para o consumidor analisando o ciclo de vida de peças de algodão, o estudo aprofunda várias observações e comparações entre autores e destaca que sob o olhar do consumo da água, logo em seguida a etapa de produção, a fase do uso da peça é a que mais se destaca.

“As etapas de fiação e tecelagem e de tingimento também apresentam certo grau de impacto por consumirem quantidades consideráveis de água, especialmente o tingimento (QUANTIS, 2018). A etapa de uso é a segunda principal contribuinte em termos de consumo de água. Nessa etapa, a lavagem é o principal processo contribuinte para esse impacto (BEVILACQUA et al., 2014). Em análises de cenários, estima-se que máquinas de lavar eficientes consomem 30% menos água durante a lavagem do que máquinas de lavar convencionais (PERIYASAMY; WIENER; MILITKY, 2017).

Ainda, a literatura aponta que a coloração do produto (ex.: camisa) apresenta diferenças substanciais no consumo de água no processo de lavagem, apesar de pouca diferença no consumo de energia (WANG et al., 2015). Assim, a etapa de produção da matéria-prima, seguida da etapa de uso pelo consumidor, apresenta os maiores impactos em relação ao consumo hídrico (PERIYASAMY; WIENER; MILITKY, 2017).”

Pilares da economia circular

O relatório leva em conta seis pilares da economia circular, que envolvem fatores ambientais e sociais: Design de produto circular, Design de Processos e Fluxos Circulares, Sistemas Vivos: Regenerar a Natureza, Recursos e Toxicidade Limitada, Condições Locais: Internalizar Externalidades, e Sociedade: Justiça e Ecologia Social.

“O conceito de economia circular é uma visão completa e complexa para o problema da crise climática, e com este relatório brasileiro os players da indústria têxtil e moda ganham mais informações e ferramentas em direção a soluções dentro da realidade do país”, apontam as pesquisadoras.

Contudo o estudo observa a movimentação do setor para a questão ambiental “(…) país tem investido em rastreabilidade e certificação para garantir uma produção com menor impacto ambiental. O Brasil é o maior produtor mundial de algodão certificado Better Cotton Initiative (BCI), respondendo por cerca de 30% do volume total de algodão BCI (BCI, 2020; TEXTILE EXCHANGE, 2019)”

DADOS EM DESTAQUE

No Brasil, o algodão é a quarta cultura que mais consome agrotóxicos, com destaque para o glifosato, que corresponde a mais da metade do volume de agrotóxicos comercializados no país;
O algodão é responsável por aproximadamente 10% do volume total de pesticidas utilizados em território nacional;
A etapa de produção de matéria-prima é o principal ponto crítico no impacto à biodiversidade e ocupação do solo pela cotonicultura, sendo responsável por 99% do impacto total;
A produção agroecológica de algodão tem impacto positivo sobretudo na qualidade de vida das mulheres camponesas e na soberania alimentar.

Acesso ao relatório Fios da Moda aqui.

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