Os dados alarmantes da letalidade da transfobia revelados nessa última edição do dossiê reforçam a urgência de políticas públicas integradas. A violência contra pessoas trans não é apenas uma questão de segurança, mas um problema de saúde pública que exige um ambiente social saudável para garantir a longevidade e a dignidade humana.
O documento aponta que houve um aumento nas tentativas de homicídio, o que indica que a intenção de violência permanece alta, muitas vezes barrada por circunstâncias externas ou socorro imediato. Para Bruna Benevides, presidente da Antra e autora do dossiê, a queda nos números absolutos não reflete uma diminuição da hostilidade social. “Não são mortes isoladas; revelam uma população exposta à violência extrema desde muito cedo”, pontuou.
Perfil das vítimas e concentração geográfica da violência
O levantamento detalha que a violência no Brasil tem alvos e locais bem definidos. No recorte regional de 2025, o Nordeste liderou as estatísticas com 38 assassinatos, seguido pelo Sudeste (17) e Centro-Oeste (12).
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Estados com mais casos: Ceará e Minas Gerais registraram 8 mortes cada.
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Perfil social: A maioria das vítimas é composta por travestis e mulheres trans, jovens (entre 18 e 35 anos) e, predominantemente, pessoas negras e pardas.
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Histórico: No acumulado de 2017 a 2025, o estado de São Paulo permanece como o mais letal para essa população, com 155 registros.
Segundo Benevides, esses dados revelam uma população atravessada por exclusão social e abandono institucional. “Se a sociedade civil não fizer esse trabalho de monitoramento, as mortes simplesmente não existem para o Estado”, criticou a presidente da Antra, referindo-se à falta de estatísticas governamentais oficiais sobre transfobia.
Subnotificação e o cenário da violência LGBT+ no Brasil
Os números da Antra convergem com o levantamento do Grupo Gay da Bahia (GGB), divulgado recentemente. O Observatório de Mortes Violentas de LGBT+ no Brasil documentou 257 mortes violentas em 2025, o que equivale a uma morte a cada 34 horas. incluindo homicídios, latrocínios e suicídios de gays, lésbicas e bissexuais, além da população trans.
O estudo do GGB indica que ocorre uma morte violenta de pessoa LGBT+ a cada 34 horas no país. Assim como a Antra, a organização aponta que a subnotificação e o descrédito nas instituições de segurança pública dificultam a real dimensão do problema, reforçando a necessidade de ações concretas de combate à discriminação e ao ódio.
O dossiê também destaca a importância do monitoramento da sociedade civil. Bruna Benevides ressaltou que, se organizações como a Antra e o Grupo Gay da Bahia (GGB) não realizassem esse levantamento, essas mortes seriam invisibilizadas pelo Estado.
A Antra reforça que o combate à transfobia exige ações que vão além da segurança, passando pela inclusão escolar — para evitar a expulsão precoce de jovens trans das instituições — e pela criação de cotas de emprego e renda, pilares fundamentais para uma sociedade verdadeiramente democrática e saudável.
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3ª Marsha Trans ocupa Brasília por saúde e dignidade
A divulgação dos dados ocorreu em paralelo às mobilizações da 3ª Marsha Trans, que reuniu lideranças e movimentos sociais na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, no último domingo (25). Com o tema “Brasil soberano é um país sem transfobia”, o encontro reivindicou a implementação de políticas públicas urgentes.
Entre as pautas centrais da marcha estava a cobrança pela publicação do Programa de Atenção Especial à Saúde da Comunidade Trans, prometido pelo Governo Federal há dois anos. A falta de acesso à saúde especializada é vista pelo movimento como um fator que impacta diretamente na longevidade da população trans, que possui uma expectativa de vida média de apenas 35 anos no Brasil.
Segundo a Antra, o projeto é uma promessa de dois anos que ainda não saiu do papel, sendo vital para garantir a sobrevida e a saúde integral dessa população, cuja expectativa de vida no Brasil ainda é de apenas 35 anos..
O evento reuniu lideranças e ativistas de todo o país. A deputada federal Erika Hilton (PSOL), presente no evento, reforçou a importância da ocupação dos espaços políticos: “A Marsha Trans ocupa Brasília para dizer: não nos calarão! Somos a garra e a força, e seguiremos sendo”. “A natureza fala: para o fascismo, raios e trovões; para a gente, um céu aberto. Viva a nossa luta”, declarou a parlamentar, em referência ao clima e ao embate político na capital.
Com informações de agências e sites






