Melatonina: o lado bom e o lado ruim da liberação do hormônio

Liberado pela Anvisa, melatonina vendido como suplemento no Brasil vira febre. mas especialistas alertam para prós e contras

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Existem suplementos que podem se tornar um aliado na busca pelo sono, um deles é a melatonina, hormônio produzido pelo nosso organismo, mais precisamente na glândula pineal, uma pequena estrutura do sistema nervoso central. Ela é liberada no início da noite, porém tem um pico de produção maior algumas horas após o anoitecer e ajuda a promover o início do sono. Estudos indicam que a melatonina contribui no tratamento de distúrbios do sono, como a insônia.

Em outubro de 2021, o registro foi concedido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), após uma consulta pública, possibilitando que indústrias fabriquem e vendam melatonina para a formulação de suplemento alimentar. Anteriormente, o suplemento só era encontrado em outros países, como nos EUA, por exemplo.

O lado bom da melatonina

Fabio Gabas, médico de saúde integrativa, neurocientista, pesquisador e palestrante, pós-graduado em Neurociência pela The Neuroscience Academy,  diz que o suplemento permite que a melatonina esteja presente em maior quantidade no organismo, especialmente para quem possui alguma deficiência na produção da substância.

“A melatonina também participa da reparação das nossas células, expostas a estresse, poluição e outros elementos nocivos, além de ser um antioxidante e combater os radicais livres que agridem o organismo”, afirma.

Claudia Chang, pós doutora em endocrinologia e metabologia pela USP e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), diz que a melatonina é responsável pelo nosso ritmo circadiano que, além de regular o estado de vigília e sono, controla temperatura corporal, equilíbrio das células, níveis hormonais, entre outras funções.

“Quando não há luz, por exemplo, a retina envia informações para uma região do cérebro, o hipotálamo, que manda uma mensagem até o epitálamo, fazendo com que a glândula pineal libere melatonina, promovendo o sono na ausência de luz. Daí a relação da melatonina com o sono”.

Adiel Rios, mestre em Psiquiatria pela Unifesp pesquisador no Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP),  explica que a privação do sono afeta a produção de novas células neuronais, gerando uma série de déficits cognitivos, como fadiga, diminuição dos reflexos, sonolência, envelhecimento precoce, queda da imunidade, dificuldade de concentração, problemas de memória e até transtornos psiquiátricos.

“Por isso, dormir é uma necessidade tão natural quanto comer. O momento do descanso é essencial para repor as energias, ajudar o organismo a se recompor do estresse do dia, além de auxiliar no sistema imunológico”, pontua.

Onde mora o perigo

Segundo a endocrinologista Claudia Chang, ainda que haja critérios no uso da melatonina como suplementação (ter mais de 19 anos, consumir até 0,21 mg por dia, não ser gestante ou lactante e ter acompanhamento médico em casos de doenças), a liberação do hormônio pode ser perigosa.

De acordo com a própria Anvisa, apesar de necessária ao organismo, a substância tem contraindicações – “há riscos associados à utilização da melatonina que não podem ser ignorados: o consumo de medicamentos contendo a substância pode causar inchaço da pele, boca ou língua, perda de consciência, depressão, irritabilidade, nervosismo, ansiedade, aumento da pressão arterial e função anormal do fígado, entre outros problemas”.

“Embora não haja consenso científico sobre seus supostos benefícios, a melatonina se popularizou, por meio das farmácias de manipulação, como uma substância milagrosa não só para o sono, mas com promessas para tratar emagrecimento, diabetes, enxaqueca e até mesmo câncer e doença de Alzheimer”, conta Claudia Chang.

Riscos da automedicação

A maior preocupação dos especialistas é a liberação do hormônio no Brasil sem necessidade de receita médica, motivando a “automedicação” (ainda que se trate de uma suplementação). Dados do Conselho Federal de Medicina indicam que 77% dos brasileiros fazem o uso de substâncias sem qualquer orientação médica.

Entre os riscos da automedicação, a intoxicação é a mais perigosa. De acordo com o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas, cerca de 30 mil casos de internação são registrados por ano no Brasil por decorrência de intoxicação. Outro risco da automedicação é o fato de que, se uma substância é ministrada na quantidade inapropriada, ou ainda, se combinada a outra, ela pode mascarar sintomas de uma doença mais grave.

“Mesmo que a melatonina tenha baixa incidência de efeitos colaterais (dor de cabeça, sono fragmentado, aumento da incidência de pesadelo, tontura, náuseas, sensação de estar dopado, sonolência durante o dia e elevação dos níveis do hormônio prolactina), quando estes ocorrem, a causa habitualmente é a utilização de doses elevadas (acima de 3 mg) ou pela presença de substâncias ocultas na fórmula. Por isso, mesmo sem a obrigatoriedade de receita médica, é fundamental buscar orientação especializada antes de fazer uso de suplementação da melatonina”, finaliza o psiquiatra Adiel Rios.

Quando pode ser indicado o “hormônio do sono”?

Desde o final de 2021, as farmácias brasileiras podem vender o hormônio melatonina, em comprimidos ou em gotas, sem a necessidade de prescrição médica, graças à autorização dada pela Anvisa. Até então, a venda da substância só era permitida em farmácias de manipulação e com prescrição médica.

Com a liberação pela Anvisa, o uso do hormônio vem ganhando popularidade no Brasil, mas gerou preocupação, já que a venda sem receita médica pode resultar em uma série de problemas. O suplemento ainda segue algumas restrições, não sendo permitido o consumo por gestantes e lactantes, por exemplo. Apesar da liberação, é preciso ter cautela no uso da substância. Leia mais aqui.

Como os distúrbios do sono afetam os brasileiros

De acordo com pesquisas da National Sleep Foundation (NSF), pelo menos 40 milhões de pessoas sofrem com mais de 70 tipos de distúrbios do sono, e 60% dos adultos relatam ter problemas de sono algumas noites por semana ou mais. A maioria das pessoas não é diagnosticada e tratada. Além disso, mais de 40% dos adultos experimentam sonolência diurna severa o suficiente para interferir em suas atividades diárias.

A insônia ou dificuldade para dormir é um problema que atinge pessoas de todas as idades. Uma pesquisa foi feita recentemente pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), chamada Mapa do Sono dos Brasileiros, que procurou mapear a qualidade do sono e a busca dessas pessoas por ajuda médica. Foram realizadas 2.635 entrevistas no Brasil com homens e mulheres maiores de 18 anos, das classes A, B e C.

O estudo apontou que 65% dos brasileiros têm baixa qualidade de sono, entretanto, somente 7% das pessoas nessa condição procuram profissionais médicos quando têm dificuldades para dormir. A pesquisa revelou ainda que 34% dos entrevistados afirmam ter insônia, porém apenas 21% declararam ter o diagnóstico da doença.

Com Assessorias e Agências
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