Às vésperas do Dia Internacional da Mulher (8 de março), uma luta antiga que contempla os homens, mas impacta diretamente a rotina das mães, está mais próxima de se tornar realidade: a ampliação da licença-paternidade de cinco para 20 dias. O projeto de lei (5811/2025), aprovado nesta quarta-feira (4) no Senado Federal, segue agora para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O tema tramita no Congresso Nacional há 19 anos, depois de apresentado pela ex-senadora Patrícia Saboya, em 2007, e relatado pela senadora Ana Paula Lobato (PDT-MA). Além de ampliar o prazo, a proposta cria o salário-paternidade como benefício previdenciário, equiparando a proteção à paternidade às garantias já existentes para a maternidade.

O texto também permite dividir o período da licença. Segundo a nova regra, a implementação será gradual: 10 dias nos dois primeiros anos, 15 dias no terceiro e 20 dias a partir do quarto ano de vigência.

  • 10 dias nos dois primeiros anos de vigência da lei.
  • 15 dias no terceiro ano
  • 20 dias a partir do quarto ano

O fim do ‘ônus’ materno e o ‘bônus’ paterno

Para a juíza federal do Trabalho Taciela Cordeiro Cylleno, a mudança ataca uma desigualdade estrutural no mercado de trabalho. Segundo a magistrada, a maternidade ainda é vista por muitas empresas como um “ônus”, enquanto a presença do pai é celebrada como um diferencial.

A mãe é cobrada por cada ausência, o pai é elogiado por cada presença. No ecossistema do trabalho, a maternidade costuma ser tratada como a possibilidade de ausência, enquanto a paternidade é percebida como um bônus de responsabilidade“, destaca Taciela.

Ao permitir que o pai esteja presente por mais tempo, a lei ajuda a diluir a “sobrecarga invisível” que recai sobre as mulheres. O Portal Vida e Ação já acompanhou discussões anteriores sobre como a divisão equitativa de tarefas domésticas previne o burnout materno e como o fortalecimento do vínculo entre pai e bebê é essencial para o desenvolvimento infantil.

Maior presença na rotina dos filhos e estabilidade no emprego

Entre os argumentos para aprovação do projeto, está a possibilidade de maior participação dos pais nos cuidados com os filhos recém-nascidos ou adotados. Outro direito seria o de garantir estabilidade no emprego durante e após a licença.

No embasamento para a nova lei, a licença está descrita também como incentivo à igualdade de gênero no ambiente de trabalho, ao reconhecer a importância do papel paterno na criação dos filhos.

Quando foi aprovado na Câmara dos Deputados, em novembro do ano passado, o relator Pedro Campos (PSB-PE) afirmou que nenhum direito é mais fundamental do que o de nascer cercado de cuidado. O deputado lembrou que o tema era alvo de debates desde a Assembleia Nacional Constituinte, que elaborou a Constituição de 1988.

Impacto econômico e social

Embora o impacto fiscal seja estimado em R$ 2,2 bilhões no primeiro ano, especialistas defendem que o valor deve ser visto como investimento. A ampliação da licença é uma tendência nos países da OCDE, onde a média já ultrapassa as duas semanas.

A medida também visa proteger o emprego, garantindo estabilidade ao pai durante e após a licença. Para conferir mais detalhes sobre os direitos trabalhistas vigentes e as mudanças no ambiente corporativo, veja nossa reportagem sobre ESG e equidade de gênero nas empresas.

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Palavra de Especialista

Paternidade responsável e igualdade no cuidado: um avanço necessário

Por Taciela Cordeiro Cylleno*

A ampliação da licençapaternidade representa um passo histórico na construção de uma sociedade mais justa e equilibrada. O texto agora aprovado no Senado prevê o aumento gradual do benefício, dos atuais cinco dias para trinta até 2031, e cria o salário-paternidade no INSS, nos mesmos moldes do salário-maternidade.

Apesar do impacto fiscal estimado — R$ 2,2 bilhões no primeiro ano e R$ 6,5 bilhões no último —, a proposta deve ser entendida como investimento social. Trata-se de uma medida que fortalece famílias e reduz desigualdades estruturais.

O Brasil ainda carrega uma herança cultural que associa o cuidado quase exclusivamente às mulheres. Essa visão perpetua desigualdades no mercado de trabalho, impõe escolhas às mães e limita trajetórias profissionais. Embora as mulheres estudem mais e alcancem níveis superiores de qualificação, continuam recebendo menos e ocupando menos cargos de liderança.

Parte importante dessa disparidade decorre da sobrecarga invisível do cuidado, que recai sobre elas desde a maternidade, tratada muitas vezes como um dever natural, enquanto a paternidade segue vista como uma virtude adicional. A mãe é cobrada por cada ausência, o pai é elogiado por cada presença.

Maternidade ainda é tratada como ônus

No ecossistema do trabalho, o estigma da parentalidade opera em direções opostas. A maternidade costuma ser tratada como um ônus, associada à possibilidade de ausência, enquanto a paternidade é frequentemente percebida como um bônus, reforçando a imagem de comprometimento e responsabilidade dos homens.

Nos países da OCDE, a média da licençapaternidade é de cerca de duas semanas e meia. Ainda é pouco, mas revela uma tendência crescente de valorização da presença paterna nos primeiros dias de vida do bebê. Esse reconhecimento é o ponto de partida para a construção de uma cultura em que o cuidado é compartilhado, e não delegado.

A ampliação da licençapaternidade é também uma medida de desenvolvimento. Homens que participam ativamente dos cuidados com os filhos fortalecem vínculos afetivos, melhoram o bem-estar familiar e contribuem para ambientes de trabalho mais igualitários. Empresas que apoiam a parentalidade retêm talentos, reduzem rotatividade e constroem culturas organizacionais mais saudáveis.

Durante décadas, o ordenamento jurídico brasileiro refletiu uma estrutura patriarcal em que o homem era o provedor e a mulher, a cuidadora. Essa lógica está sendo revista, e a legislação precisa acompanhar as transformações sociais.

Quase 90% das famílias monoparentais no Brasil hoje são chefiadas por mulheres. Diante desse dado, ampliar a licençapaternidade significa redistribuir responsabilidades e oportunidades, condição indispensável para a verdadeira equidade de gênero.

A proposta em tramitação vai além de uma alteração na CLT. É um convite a repensar papéis e valores. Um país que reconhece a importância da presença do pai desde o nascimento do filho é um país que compreende o cuidado como ato de cidadania e corresponsabilidade.

É nesse caminho que se constrói uma sociedade mais justa, onde maternidade e paternidade deixem de ser vistas como privilégios ou encargos, e passem a ser compreendidas como partes essenciais da igualdade.

*Taciela Cordeiro Cylleno é juíza federal do Trabalho há quase 15 anos, titular da 9ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro, presidente da Ajutra e membro do Conselho Pedagógico da EJUD-RJ.

 

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