Após uma longa batalha que durou quatro anos, a influenciadora Isabel Veloso morreu neste sábado (10/01), aos 19 anos, em decorrência de um Linfoma de Hodgkin, tipo de câncer que atinge, principalmente, jovens e soma mais de 3 mil diagnósticos por ano no Brasil, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca).

A luta  de Isabel Veloso foi acompanhada por milhões de brasileiros pelas redes sociais. Diagnosticada com um câncer agressivo ainda na adolescência, aos 15 anos, Isabel tornou-se um símbolo de resiliência ao compartilhar sua rotina, o sonho da maternidade e as complexidades de um tratamento paliativo.

Em outubro de 2025, Isabel chegou a realizar o segundo transplante de medula óssea e, no final do ano, foi intubada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Erasto Gaertner, em Curitiba. Ela estava internada em estado grave devido a complicações pós-transplante e problemas respiratórios. Ela deixou o marido, Lucas Borbas, e o filho, Arthur, de 11 meses. 

Hoje meu coração fala em silêncio, porque a dor é grande demais para caber em palavras. Nossa história foi real, foi bonita, foi verdadeira. Construímos uma família, um amor que não depende do tempo nem da presença física para existir. Ela vive em mim, vive no nosso filho, vive em cada pessoa que foi tocada pela força dela”, escreveu Lucas nas redes sociais.

Abaixo, detalhamos o estado de saúde atual da jovem, o tipo de doença que a acomete e os principais marcos de sua história.

Luta contra complicações pós-transplante

  • Pneumonia e complicações: Isabel enfrentava um quadro de pneumonia grave, o que exigiu que ela fosse intubada novamente no início de dezembro de 2025.

  • Traqueostomia: No final de dezembro, ela passou por uma cirurgia de traqueostomia para substituir o tubo endotraqueal, visando maior conforto e auxílio na respiração. Embora o procedimento tenha ocorrido sem intercorrências, ela seguia sedada para recuperação pulmonar.

  • Doença do Enxerto Contra o Hospedeiro (DECH): O pai de Isabel, Joelson Veloso, revelou em 3 de janeiro de 2026 que a filha sofreu com a “rejeição” do transplante de medula realizado em 2025. Essa condição ocorre quando as células do doador atacam o corpo do receptor, agravando o estado clínico e causando infecções.

O amor que sustenta: as palavras de Lucas Borbas

É preciso olhar além dos boletins médicos e observar o suporte emocional que vem de seu núcleo familiar mais íntimo. As redes sociais foram o canal onde Lucas Borbas (marido), Joelson Veloso (pai) e as referências ao pequeno Arthur se tornavam o elo de esperança para os seguidores de Isabel.

Ela passou o primeiro aniversário do filho internada na UTI. Lucas se tornou o principal porta-voz e pilar de apoio de Isabel no hospital. Em suas publicações, ele mesclava o realismo da gravidade com a fé na recuperação.

Ver você ali, lutando a cada respiração, é o que me mantém de pé. Nosso amor sobreviveu a prognósticos impossíveis e não vai ser agora que ele vai se render. Estamos esperando por você em casa”, disse Lucas Borbas, em publicação recente em suas redes sociais.

Ele frequentemente compartilhava fotos segurando a mão de Isabel na UTI, enfatizando que, apesar da traqueostomia e da sedação, a presença física e o toque eram partes essenciais do que eles chamam de “cura pelo afeto”.

A força da maternidade: o pequeno Arthur como motivação

Embora o filho de Isabel, Arthur, seja apenas um bebê nascido em dezembro de 2024, ele é citado constantemente pela família como o “milagre” que deu a Isabel forças para passar pela gravidade da gestação e do transplante.

A mãe de Isabel e o marido costumavam levar fotos do bebê para o ambiente da UTI.

Ela abre os olhos quando falamos dele. O Arthur é a razão de cada batida do coração dela agora. Ele é o combustível para ela aguentar essa fase tão difícil na UTI”, relatou a família em atualizações de vídeo.

O desabafo do pai e da mãe: entre a dor e a entrega

Joelson Veloso, pai de Isabel e doador da medula, fez parte da tentativa de cura da filha. Recentemente, ele expressou a angústia de ver a reação do corpo dela ao transplante (a DECH):

Eu dei o meu melhor, dei minhas células por ela. Ver o corpo dela lutando contra o que eu dei de coração dói, mas os médicos dizem que é um processo. Só peço orações, porque a Isabel é uma guerreira que já venceu a morte muitas vezes”, escreveu Joelson Veloso, em relato aos seguidores.

A mãe de Isabel, embora mais reservada, mantinha uma rede de orações ativa. Ela descrevia a filha não como uma paciente, mas como uma jovem que “ensinou a família inteira a valorizar o hoje”.

Uma rede de apoio que atravessa as telas

A  humanização do caso vem da transparência. Ao mostrar as vulnerabilidades — o medo da perda, o cansaço do ambiente hospitalar e a saudade do filho —, a família de Isabel transformou a luta contra o Linfoma de Hodgkin em uma narrativa de amor familiar.

O quarto de UTI, embora frio e tecnológico, era preenchido com mensagens de apoio de milhões de brasileiros, que a família lia para Isabel nos momentos em que ela despertava da sedação.

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Entenda a rejeição ao transplante de medula

A Doença do Enxerto Contra o Hospedeiro (DECH), mencionada pela família de Isabel Veloso como uma das complicações do quadro, é uma reação imunológica severa e complexa que ocorre especificamente em pacientes que passam por transplantes de medula óssea alogênicos (quando as células vêm de um doador, no caso dela, o pai).

Abaixo, explicamos por que essa condição acontece e como ela afeta o organismo.

O que é a DECH?

Em termos simples, a DECH é o inverso da rejeição de um órgão comum (como um rim ou coração).

  • Na rejeição comum: O corpo do paciente ataca o órgão novo.

  • Na DECH: O “órgão” novo (as células de defesa do doador contidas na medula) ataca o corpo do paciente.

Isso acontece porque a medula óssea é a “fábrica” do sistema imunológico. Quando as células do doador começam a se reproduzir no corpo de Isabel, elas reconhecem os tecidos dela como “estranhos” ou “inimigos” e passam a agredi-los.

Por que ela ocorre no transplante de medula?

Mesmo quando há uma compatibilidade alta entre doador e receptor (como entre pai e filha), o DNA não é idêntico. Existem pequenas proteínas na superfície das células chamadas HLA (Antígenos Leucocitários Humanos).

Quando os linfócitos T (células de defesa) do doador percebem que o HLA do paciente é diferente do deles, eles iniciam um ataque inflamatório.

Fatores que agravam o risco:

  1. Doador aparentado mas não idêntico: Embora o pai seja uma excelente opção, a compatibilidade pode não ser de 100%, o que aumenta a chance da DECH.

  2. Estado prévio do paciente: Se o paciente já está debilitado por outras infecções (como a pneumonia que Isabel enfrenta), o sistema imunológico fica ainda mais desregulado.

Tipos e sintomas da condição

A DECH pode se manifestar de duas formas, dependendo do tempo após o transplante:

No caso de Isabel, a condição é particularmente perigosa porque ela já enfrenta uma pneumonia. Quando a DECH ataca os pulmões, ela causa uma inflamação que dificulta ainda mais a passagem do oxigênio para o sangue, justificando a necessidade do suporte de ventilação mecânica (traqueostomia).

Como é feito o tratamento?

O tratamento consiste em “acalmar” o sistema imunológico do doador para que ele pare de atacar o corpo do hospedeiro. Isso é feito através de:

  • Corticosteroides: Medicamentos potentes para reduzir a inflamação.

  • Imunossupressores: Drogas que diminuem a atividade das células de defesa.

O grande desafio médico é encontrar o equilíbrio: se a imunidade for muito suprimida, o paciente fica vulnerável a infecções (como a pneumonia); se não for suprimida o suficiente, a DECH continua destruindo os tecidos saudáveis.

O diagnóstico: Linfoma de Hodgkin

Isabel convive desde os 14 anos com o Linfoma de Hodgkin, um tipo de câncer que se origina no sistema linfático, responsável pela defesa do organismo.

Características da doença no caso de Isabel:

  • Localização: O tumor de Isabel foi identificado no mediastino (espaço entre os pulmões, atrás do osso esterno), chegando a medir cerca de 17 centímetros e comprimindo órgãos vitais como o coração e parte do pulmão.

  • Cuidados paliativos: Por um longo período, Isabel foi classificada como paciente em cuidados paliativos. Diferente do que muitos acreditam, isso não significa “terminalidade iminente”, mas sim um foco no alívio de sintomas e na qualidade de vida para pacientes com doenças graves que ameaçam a continuidade da vida.

  • Resistência ao tratamento: Após diversas sessões de quimioterapia e um primeiro transplante sem sucesso definitivo, a doença apresentou recidivas agressivas.

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Protocolos de alta complexidade

A recuperação respiratória de pacientes oncológicos em estado crítico, como no caso de Isabel Veloso, envolve protocolos de alta complexidade que equilibram o suporte tecnológico, a reabilitação física e o manejo da doença de base.

Abaixo, detalhamos como funcionam as principais estratégias médicas para esses casos.

1. Suporte ventilatório e proteção pulmonar

Em pacientes com pneumonia grave e histórico de câncer no mediastino (região próxima ao pulmão), o objetivo inicial é garantir a oxigenação sem causar danos adicionais aos alvéolos pulmonares.

  • Ventilação Mecânica Protetora: Utiliza-se um volume de ar menor e pressões controladas para evitar o “barotrauma” (lesão por pressão).

  • Traqueostomia: Em casos de intubação prolongada, a traqueostomia é realizada para facilitar a higiene brônquica, reduzir o esforço respiratório do paciente e permitir que ele saia da sedação de forma mais segura.

  • Titulação da PEEP: Ajuste da “pressão positiva” que mantém os pulmões abertos, essencial para pacientes com áreas do pulmão colapsadas pela infecção ou pelo tumor.

2. Desmame ventilatório: o caminho para a independência

O “desmame” é o processo de retirada gradual do respirador. Em pacientes com complicações pós-transplante, esse processo é mais lento devido à fraqueza muscular causada pela sedação e pelo câncer.

  • Teste de Respiração Espontânea (TRE): O paciente é colocado para respirar por curtos períodos com o mínimo de ajuda do aparelho. Se os sinais vitais (frequência cardíaca e saturação) permanecerem estáveis, a equipe progride para a retirada.

  • Uso de Tubo-T ou CPAP: Técnicas que simulam a respiração natural enquanto o paciente ainda está conectado a monitores, testando sua autonomia.

  • Avaliação da força muscular: Utiliza-se a manovacuometria para medir a força dos músculos respiratórios (diafragma e intercostais) antes de tentar a extubação definitiva.

3. Fisioterapia respiratória intensiva

Diferente da fisioterapia comum, na UTI oncológica ela é vital para a sobrevivência:

  • Manobras de Higiene Brônquica: Técnicas manuais ou mecânicas para remover secreções acumuladas pela pneumonia, prevenindo novas infecções.

  • Recrutamento Alveolar: Exercícios para reexpandir áreas do pulmão que ficaram “fechadas” devido ao peso do tumor no mediastino ou ao tempo de internação.

  • Mobilização Preocedo: Retirar o paciente do leito (mesmo que apenas para sentar) ajuda a melhorar a capacidade pulmonar e previne a atrofia muscular.

4. O desafio imunológico e os cuidados paliativos

Como Isabel enfrenta a Doença do Enxerto Contra o Hospedeiro (DECH), o protocolo respiratório precisa ser integrado ao controle imunológico:

  • Equilíbrio da Imunossupressão: Os médicos usam corticoides para controlar a DECH, mas esses mesmos remédios podem dificultar a cura da pneumonia. É um “ajuste fino” diário.

  • Protocolos de Conforto: Em pacientes em cuidados paliativos, se o desmame for muito sofrido, a prioridade passa a ser o controle da dispneia (falta de ar) com medicamentos (como a morfina em doses baixas, que alivia a sensação de sufoco) e oxigenoterapia de alto fluxo, visando sempre a dignidade e a ausência de dor.

Linha do tempo: os marcos da trajetória de Isabel

  • 2021 (15 anos): Primeiro diagnóstico de Linfoma de Hodgkin. Início do tratamento convencional.

  • 2023: Após quimioterapia e transplante de medula, Isabel chega a ser considerada curada.

  • Janeiro de 2024: O câncer retorna de forma agressiva. Isabel anuncia que a doença é incurável e que passaria a receber cuidados paliativos.

  • Abril de 2024: Casamento com Lucas Borbas, realizando um de seus grandes sonhos.

  • Agosto de 2024: Anúncio da gravidez de seu primeiro filho, Arthur, gerando grande repercussão e debates sobre os riscos médicos.

  • Outubro de 2024: Retomada da quimioterapia ainda durante a gestação, após o tumor voltar a crescer e atingir os pulmões.

  • Dezembro de 2024: Nascimento de Arthur, seu primeiro e único filho.

  • Maio de 2025: Isabel surpreende ao anunciar que o câncer entrou em remissão novamente.

  • Outubro de 2025: Realização de um novo transplante de medula óssea, desta vez com o pai como doador.

  • Novembro/Dezembro de 2025: Início de complicações graves, internação na UTI e diagnóstico de pneumonia.

  • Janeiro de 2026: Quadro de saúde estabilizado dentro da gravidade, enfrentando a Doença do Enxerto Contra o Hospedeiro.

  • 10 de janeiro de 2026: Família anuncia a morte de Isabel Veloso

Matéria atualizada em 10/01/26 para informar sobre o falecimento da influenciadora

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