Com 275.118 novos casos diagnosticados entre 2014 e 2024, o Brasil mantém o segundo lugar no mundo em números absolutos de hanseníase, atrás apenas da Índia. Porém, está em primeiro lugar no ranking mundial em taxa de detecção, que é o percentual de novos diagnósticos a cada 100 mil habitantes.
Embora tenha ocorrido uma queda aproximada de 33% nesta taxa, o país permanece em nível alto de endemicidade, com retomada do crescimento após a pandemia de Covid-19, o que indica diagnóstico represado. Reduzir a taxa de detecção é condição imprescindível para tratar, curar pacientes e quebrar o ciclo de transmissão do bacilo para, só então, eliminar a hanseníase como problema de saúde púbica.
Apesar dos avanços no diagnóstico e no tratamento, a hanseníase segue desafiando as autoridades de saúde. A doença infecciosa crônica, causada pelo Mycobacterium leprae, tem cura e tratamento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas ainda enfrenta obstáculos como o diagnóstico tardio e o estigma social.
A Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH) reconhece os avanços no sistema de notificação da doença, mas alerta para a existência de uma endemia oculta, com milhares de pessoas ainda sem diagnóstico, muitas vezes em razão do desconhecimento da população e da persistência do estigma.
A hanseníase é uma doença infecciosa e primariamente neural, causada pelo bacilo de Hansen, que agride os nervos e pode provocar dor, formigamento e perda de sensibilidade na pele. Quando diagnosticada precocemente, tem cura, e o tratamento — gratuito pelo SUS — interrompe a transmissão”, diz Marco Andrey Cipriani Frade, presidente da SBH.
Segundo ele, o estigma é doloroso para crianças que são afastadas da escola, mesmo sem oferecer risco a seus comunicantes, pessoas afastadas do trabalho e mesmo do convívio social e familiar. Por isso, a SBH entregou às Nações Unidas um relatório, com cerca de 40 páginas, descrevendo vários tipos de preconceito praticados no Brasil contra pessoas afetadas pela doença.
Apesar do cenário, o Brasil se destaca na comunidade internacional em pesquisa sobre novos esquemas de tratamento, vacina, drogas, estratégias e tecnologias de rastreio de casos e descobertas que abrem portas para novas pesquisas.
Sinais, transmissão e tratamento
A hanseníase atinge principalmente adultos entre 30 e 59 anos, em idade produtiva, com maior ocorrência entre homens. A persistência de casos em menores de 15 anos indica transmissão ativa e recente, reforçando a importância da vigilância e do diagnóstico precoce.
A doença se manifesta, principalmente, por manchas na pele com diminuição ou perda de sensibilidade, além de formigamentos, dormência, fraqueza muscular e nódulos. O diagnóstico é clínico e deve ser realizado por profissionais capacitados, com destaque para o papel do médico dermatologista.
A hanseníase pode ser silenciosa no início, mas sem tratamento adequado pode causar danos neurológicos permanentes e incapacidades físicas evitáveis. Manchas na pele com alteração de sensibilidade não devem ser ignoradas. Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores são as chances de cura sem sequelas”, destaca a secretária-geral da SBD, Regina Carneiro.
A transmissão ocorre por contato próximo e prolongado com pessoas não tratadas. Após o início do tratamento, o paciente deixa de transmitir a doença. O tratamento é feito com poliquimioterapia, dura de seis a 12 meses, é gratuito pelo SUS e pode ser realizado sem afastamento das atividades cotidianas.
Ao identificar manchas na pele com alteração de sensibilidade ou outros sinais suspeitos, a SBD orienta procurar uma unidade de saúde ou um dermatologista pelo SUS. Para localizar um especialista associado à SBD, acesse: www.sbd.org.br/localizador.
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Agenda Positiva
Iluminação no Palácio do Planalto
No Brasil, o Dia Nacional de Combate e Prevenção da Hanseníase é celebrado no último domingo de janeiro. O mês também marca a campanha Janeiro Roxo, que reforça a importância da detecção precoce da doença, que tem cura e tratamento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A data busca ainda combater o preconceito e ampliar o acesso ao diagnóstico.
Para chamar a atenção da sociedade, a SBH promove há 10 anos a campanha nacional “Todos contra a Hanseníase’. Somando voz no debate sobre um tema cercado de estigma, o Palácio do Planalto, um dos mais emblemáticos símbolos da arquitetura e da democracia brasileira, terá sua fachada iluminada na cor roxa no entardecer desta sexta-feira, 16 de janeiro, tornando-se o mais novo símbolo de apoio à campanha Janeiro Roxo.
A iluminação roxa ficará até o dia 31 de janeiro e fortalece a agenda do mês oficial de conscientização sobre a hanseníase, oficializado pelo Ministério da Saúde há exatos dez anos. A campanha “Todos contra a Hanseníase” ocorre durante todo o ano, tendo no mês de janeiro a etapa mais intensa da mobilização nacional, que busca incrementar a difusão de informação, combater fake news, estimular o diagnóstico precoce e enfrentar o preconceito historicamente associado à doença.
A iluminação do Palácio do Planalto é um marco na história da nossa campanha e um gesto de empatia do Estado brasileiro com os pacientes, familiares e profissionais que atuam no enfrentamento da hanseníase, além de um alerta à sociedade brasileira”, afirma Marco Andrey Cipriani Frade, presidente da SBH. “A luz roxa representa o compromisso com a informação, a inclusão e o combate ao preconceito”, ressalta.
Projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1960, o Palácio do Planalto integra o conjunto monumental da Praça dos Três Poderes. Sua iluminação especial também insere Brasília no movimento global do NTD World Day (Dia Mundial das Doenças Tropicais Negligenciadas), que mobiliza cidades em diferentes países a iluminar monumentos como forma de dar visibilidade às Doenças Tropicais Negligenciadas (DTN).
SBD realiza atendimentos gratuitos em Manaus e Belém
A Sociedade Brasileira de Dermatologia mantém atuação permanente no enfrentamento da Hanseníase, em parceria com o Ministério da Saúde e instituições regionais, contribuindo para ampliar o acesso ao cuidado dermatológico em todo o país. Para ampliar a conscientização da população e estimular a identificação precoce dos sinais, a SBD também integra e apoia as ações do Janeiro Roxo 2026, campanha nacional dedicada à prevenção e ao combate da doença.
Em Manaus, o atendimento será realizado no dia 17 de janeiro, na Fundação Alfredo da Matta (Rua Codajás, 24, Bairro Cachoeirinha), com avaliação gratuita das 8h00 às 14h00. No local, serão distribuídas 300 fichas por ordem de chegada. Para ser atendido, é necessário apresentar Cartão Nacional de Saúde (CNS) e documento de identidade (RG).
A escolha de Manaus reforça a importância de fortalecer a avaliação dermatológica e ampliar o acesso ao diagnóstico precoce, especialmente em regiões historicamente impactadas pela doença”, ressalta Mônica Nunes de Souza Santos, coordenadora local da campanha.
Como parte das ações do dia 17 de janeiro, o Teatro Amazonas será iluminado na cor roxa, em alusão à campanha, chamando a atenção da sociedade para a importância do diagnóstico precoce e do combate ao preconceito relacionado à hanseníase.
Já em Belém, a ação ocorrerá no dia 23 de janeiro, no Centro de Ciências Biológicas da Saúde (CCBS) da Universidade do Estado do Pará (UEPA). O atendimento será realizado das 8h30 às 11h, em demanda espontânea. Para participar, é necessário apresentar Cartão SUS, documento de identidade e comprovante de residência.
A ação em Belém amplia o acesso da população à avaliação dermatológica para hanseníase, facilitando o diagnóstico precoce em um serviço de referência e orientando pessoas que apresentam manchas suspeitas na pele”, afirma Carla Andréa Avelar Pires, coordenadora do Departamento de Hanseníase da SBD.
Unidade móvel da SES-RJ fez mais de 800 atendimentos de hanseníase em 2025
Roda Hans percorreu cinco municípios para intensificar ações de combate à doença no estado
No ano passado, o Estado do Rio de Janeiro contabilizou 583 casos da doença. Em 2025, de janeiro a 10 de dezembro, são 498 registros de pessoas com a doença. Diante disso, a Gerência de Hanseníase da Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ) intensificou as ações de combate à doença.
Com o apoio de uma unidade móvel – a Carreta Roda Hans -, a SES-RJ fez 872 atendimentos relativos à doença ao percorrer cinco municípios entre 28 de outubro e 28 de novembro deste ano. Em 2024, a pasta realizou 340 atendimentos com a unidade móvel, que visitou três cidades na ocasião.
As ações tiveram grande importância por levar o serviço móvel o mais próximo possível da população, permitindo rastrear novos casos e também ao disponibilizar o tratamento a quem precisava”, afirmou o subsecretário de Vigilância e Atenção Primária à Saúde da SES-RJ, Mário Sérgio Ribeiro..
Novos casos diagnosticados na Carreta Roda Hans
De acordo com a Gerência de Hanseníase da SES-RJ, foram feitos 167 atendimentos em Nova Iguaçu, entre 28/10 e 30/10; outros 163 em Belford Roxo, de 4/11 a 7/11; mais 332 atendimentos em São Gonçalo, entre 11/11 e 14/11; 100 atendimentos em Guapimirim, de 18 a 19/11; e finalmente, 110 em Cordeiro, de 25/11 a 28/11.
Além disso, foram constatados sete novos casos durante as visitas da Carreta Roda Hans aos municípios de Nova Iguaçu (1); Belford Roxo (4); São Gonçalo (0); Guapimirim (2); e Cordeiro (0). No ano passado, do total de pessoas atendidas pela unidade móvel, foram registrados 12 casos novos de hanseníase em Campos, Nova Iguaçu e Magé.
A gerente de Hanseníase da SES-RJ, Ana Paula Chadimenos, explica que além da demanda espontânea, houve atendimento a pessoas que tiveram contato com casos confirmados pela SES-RJ, foco da busca ativa realizada pelos municípios
A Carreta Roda Hans utilizada pela SES-RJ possui cinco consultórios e um laboratório. Os atendimentos à população fizeram parte do Programa Roda-Hans, parceria da Secretaria com o Ministério da Saúde, a farmacêutica Novartis Brasil e que conta com apoio da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).
O Programa Roda-Hans também funcionou como treinamento teórico e prático para profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) nos municípios visitados pela unidade móvel, além de integrantes do Programa Mais Médicos para o Brasil que atuam nas localidades.
Clin realiza encontro sobre saúde mental e combate à hanseníase
Ação fez parte das campanhas Janeiro Branco e Janeiro Roxo
As campanhas Janeiro Roxo e Janeiro Branco foram os principais temas da roda de conversa promovida pela Companhia de Limpeza de Niterói (Clin). As médicas Mariana Giusti e Camila Amorim participaram do encontro, contribuindo com orientações técnicas e esclarecendo dúvidas dos funcionários.
O tratamento para hanseníase é eficaz e tem cura. Por isso, procurar um médico o mais rapidamente possível é o melhor a ser feito. Algumas pessoas acabam negligenciando a doença por se tratar de um problema de pele e tentam se tratar sozinhas. Quando o atendimento é buscado no início, tudo se resolve mais rapidamente”, afirmou Camila Amorim, médica do trabalho da Clin.
O objetivo do encontro foi levar informações aos colaboradores sobre prevenção, diagnóstico precoce e quebra de estigmas relacionados às doenças, além de incentivar o cuidado com a saúde mental mental e emocional no ambiente de trabalho..
Para Francisco Carlos Gomes, do SOMA (Serviço de Manutenção e Operação do Aterro do Morro do Céu), a iniciativa teve um impacto pessoal. “Gostei da conversa. Essa doença tem cura. Eu mesmo fui curado depois de seguir o tratamento corretamente. O melhor que posso fazer é compartilhar essa experiência com meus colegas. Agradeço à Clin pela oportunidade de aprender mais a cada dia”, disse.
O encontro acontece uma vez por mês na sede da companhia e é fruto de uma parceria com a Leve Saúde, empresa de assistência médica oferecida aos funcionários. Os encontros para abordar os temas passaram a integrar a programação mensal de ações voltadas à promoção da saúde dos trabalhadores. A atividade foi conduzida com base na metodologia da Medicina de Família.
A iniciativa marcou também a campanha Janeiro Branco, instituída por lei em 2023, que tem como objetivo incentivar o cuidado com a saúde mental e emocional no início do ano. A proposta é estimular o diálogo, combater estigmas e reforçar a importância da busca por apoio.
Segundo Mariana Giusti, a proposta também é promover o cuidado com a saúde mental antes que os quadros se agravem. “Não é necessário ter um diagnóstico para participar. A iniciativa oferece um espaço de escuta e troca, onde o trabalhador pode falar sobre o que está vivendo e se sentir acolhido, ajudando a reduzir o preconceito que ainda cerca o tema”, explicou.
Com Assessorias











