O brilho do glitter e o som dos metais do bloco Fogo e Paixão, que arrastou multidões pelo Centro do Rio no domingo pré-carnavalesco, escondem uma realidade de invisibilidade e urgência por trás dos isopores. Enquanto foliões celebravam ao som divertido das músicas bregas que atraem um verdadeiro coro ao ar livre, o cenário sob as barracas de bebidas revelava o drama de mulheres que, sem rede de apoio, transformam o asfalto em “puxadinho” para seus filhos.

Um caso emblemático, flagrado pela jornalista Rosayne Macedo, editora do portal Vida e Ação, lustrava a precariedade dessa jornada: uma menina de aproximadamente 7 anos, filha de uma vendedora local, precisou de atendimento médico de emergência após passar mal ao consumir alimentos na rua.

Mesmo após o socorro inicial, a criança não pôde ir para casa descansar; permaneceu prostrada sob a barraca de bebidas da mãe até o fim do expediente, sob calor intenso, já que a ambulante não tinha com quem deixá-la e não podia abandonar o posto de trabalho, sua única fonte de renda.

Ao lado delas, outra cena mostrava o contraste da infância no carnaval: uma menina aparentemente da mesma idade, prima da que estava passando mal, aproveitava para dançar e curtir as músicas, ganhando mimos dos clientes da mãe, como leques e adereços de foliões, evidenciando como a rua se torna, simultaneamente, parque de diversões e local de vulnerabilidade.

Pontos de apoio: uma demanda urgente

Lílian Conceição Santos não tem com quem deixar os filhos para trabalhar (Foto: Agência Brasil)

O carnaval do Rio, que deve movimentar R$ 5,8 bilhões em 2026, é considerado o “décimo terceiro salário” para milhares de famílias. No entanto, o suporte público para quem viabiliza essa economia ainda é restrito. Atualmente, o espaço de acolhimento da prefeitura funciona apenas entre 18h e 6h, focado nos desfiles do Sambódromo, deixando desassistidas as mães que trabalham nos blocos de rua durante o dia.

De acordo com a Agência Brasil, o Movimento de Mulheres Ambulantes Elas por Elas Providência cobra a expansão desses pontos de apoio. “Se eu não trouxer minha filha, a gente não come. É um evento grande, mas somos invisíveis”, desabafou Taís Epifânio, que leva a filha de 4 anos para os blocos da Zona Sul.

Leia mais

Da luta das mães solo à tripla jornada das mães negras
Como o racismo estrutural ‘mata’ mães negras no Brasil
Mulheres pretas morrem três vezes mais que as brancas

A necessidade de uma visão integrada de cuidado

Luna Cristina e o filho Eduardo (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

A situação dessas crianças e trabalhadoras remete à importância de políticas públicas que considerem a saúde de forma ampla. Quando uma criança adoece na rua por falta de saneamento ou alimentação adequada, e a mãe não possui um local seguro para deixá-la, rompe-se um ciclo de bem-estar que afeta toda a estrutura social e urbana.

De acordo com o movimento Elas por Elas, a maioria dessas trabalhadoras são mulheres negras e mães solo que, muitas vezes, dormem sob marquises para garantir o sustento. A falta de itens básicos, como protetor solar e tendas adequadas, agrava o desgaste físico de mães e filhos sob o sol escaldante do Rio.

Caroline Alves da Silva, umas das lideranças do Movimento Elas por Elas (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Onde buscar ajuda e acolhimento

Atualmente, o principal ponto de apoio para filhos de ambulantes (de 4 a 12 anos) funciona no Espaço de Desenvolvimento Infantil Rachel de Queiroz, em frente ao edifício Balança Mas Não Cai, no Centro. Além disso, a Casa do Catador, na Rua Viscondessa de Pirassununga, oferece chuveiros e área de descanso para as trabalhadoras, fruto de uma articulação entre o movimento social, o TRT e a Alerj.

A meta dos movimentos sociais para os próximos anos é que o “lucro do carnaval” seja revertido em estruturas descentralizadas, garantindo que nenhuma mãe precise escolher entre o sustento da família e a saúde de seus filhos.

Com informações da Agência Brasil

Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *