As marcas da violência vicária são profundas e, para a delegada Amanda Souza, da Polícia Civil de Belém (PA), elas foram reabertas na última semana. Ao acompanhar as notícias sobre a tragédia ocorrida em Itumbiara (GO), onde um pai matou os dois filhos e cometeu suicídio, Amanda reviveu o próprio trauma ocorrido em julho de 2023.
Na ocasião, seu ex-marido, inconformado com o fim do relacionamento, assassinou os filhos do casal, de 9 e 12 anos, com o objetivo explícito de condená-la a um “futuro de tristeza e solidão”. O relato da delegada, em entrevista à BBC Brasil traz um alerta urgente sobre o machismo estrutural e o conceito de violência vicária.
O caso de Itumbiara e a repetição de um padrão cruel
O crime que abalou Goiás recentemente guarda semelhanças aterrorizantes com a história de Amanda. Conforme noticiado pelo Vida e Ação, o caso de Itumbiara envolveu o um secretário municipal Thales Machado, que atirou contra os próprios filhos — um adolescente de 12 anos e uma criança de 8 — antes de tirar a própria vida.
Para Amanda, a reação das redes sociais ao caso de Goiás foi um segundo golpe. Ela destaca a “falta de humanidade” de internautas que tentaram justificar a atrocidade de Thales citando supostas traições da esposa. “É uma prova viva da sociedade machista em que a gente vive, como se uma traição legitimasse o homem a tirar a vida dos próprios filhos”, desabafa a delegada.
O que define a violência vicária
A violência vicária é uma forma de violência de gênero onde o agressor utiliza os filhos (ou pessoas próximas à mulher) como instrumentos para causar o máximo sofrimento emocional possível à mãe. O objetivo não é apenas a morte física das crianças, mas a morte em vida da mulher, sobrecarregando-a com culpa e dor eterna.
De acordo com Amanda, esse tipo de criminoso geralmente apresenta um padrão narcisista. Eles não amam os filhos; enxergam-nos como extensões da mulher ou propriedades que podem ser destruídas para puni-la por exercer sua autonomia, como decidir pelo fim de um casamento abusivo.
Dados alarmantes e a invisibilidade do crime
Apesar da gravidade, o Brasil ainda carece de dados consolidados específicos sobre a violência vicária, o que dificulta a criação de políticas públicas. O começou a registrar dados de brasileiras vítimas desse crime no exterior em 2024, mas os números internos ainda são subnotificados ou diluídos em outras estatísticas de homicídio e feminicídio.
Em 2025, o Brasil atingiu um recorde triste com 1.518 feminicídios registrados, uma média de quatro mulheres mortas por dia apenas por sua condição de gênero. A violência vicária é o ápice dessa pirâmide de controle e abuso.
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Como identificar e sair de um relacionamento abusivo
Amanda Souza, que viveu um relacionamento abusivo por 20 anos sem perceber o controle dissimulado do parceiro, hoje usa sua voz para ajudar outras mulheres. Ela destaca dois pilares fundamentais para a libertação:
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Autoconhecimento e apoio psicológico: Muitas mulheres estão presas pela dependência emocional e não conseguem enxergar os sinais de abuso (ciúme excessivo, controle de rotina e isolamento).
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Independência financeira: A falta de recursos próprios é uma das maiores barreiras que impedem mulheres de deixarem lares violentos em segurança.
A delegada planeja agora transformar sua dor em estudo acadêmico, dedicando-se a um mestrado sobre violência vicária para ajudar a identificar e prevenir novos casos. “Eu não podia admitir que um homem entrasse na minha vida e ditasse o meu destino”, conclui.
Com informações da BBC Brasil



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