A relação dos brasileiros com a alimentação no ambiente de trabalho está mudando. Segundo a pesquisa global Food Experience Tracker, realizada pela Sodexo, os profissionais estão cada vez mais atentos ao que consomem, buscando um equilíbrio entre praticidade e saúde. O estudo revela que 78% dos funcionários brasileiros consideram alimentos ultraprocessados um risco à saúde, embora reconheçam sua praticidade no dia a dia.

Globalmente, 71% compartilham a mesma percepção, o que reforça a importância de escolhas mais equilibradas no ambiente corporativo. Para 47% dos respondentes brasileiros, o conceito de alimentação saudável está diretamente ligado a produtos frescos, enquanto 33% associam a alimentos sustentáveis. Isso indica que o consumidor moderno quer saber a origem do que come e o impacto que isso gera no planeta.

Diferentes gerações, diferentes prioridades

O levantamento, que ouviu mais de 5 mil pessoas em seis países (Brasil, Chile, China, Estados Unidos, França e Reino Unido), destaca que, embora a praticidade ainda seja um fator de decisão, o valor nutricional e a origem do alimento ganharam protagonismo. Para 47% dos brasileiros, “comer bem” significa consumir produtos frescos, enquanto 33% vinculam a alimentação saudável à sustentabilidade.

O levantamento aponta que a definição de “alimentação saudável” muda conforme a idade, o que exige das empresas ambientes mais inclusivos:

  • 18 a 34 anos: Alimentação saudável é sinônimo de ingredientes frescos e produtos sazonais (da época).

  • 35 a 44 anos: O foco é preventivo, com preferência por opções com baixo teor de sódio e sem aditivos.

  • 45 a 54 anos: Valorizam pratos com “gostinho de comida caseira”, buscando conforto e tradição.

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Os riscos dos ultraprocessados

O levantamento está em linha com as recomendações do Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, que orienta que ultraprocessados sejam evitados. Essas formulações industriais, ricas em açúcar, sal e gordura, além de corantes, aromatizantes e realçadores de sabor, favorecem o consumo excessivo de calorias e o desenvolvimento de doenças crônicas.

Pesquisas indicam que o consumo excessivo de sódio e gorduras saturadas presentes nesses itens aumenta significativamente o risco de doenças cardiovasculares, enquanto o açúcar em excesso está ligado diretamente ao aumento da obesidade e do diabetes tipo 2, além da cárie dental.

Para as empresas, o desafio agora é transformar os restaurantes corporativos em espaços de promoção de bem-estar, oferecendo transparência nos rótulos e menus que respeitem tanto a necessidade biológica do trabalhador quanto o equilíbrio do planeta. Para a Sodexo, a tendência é que restaurantes corporativos ganhem relevância ao oferecer alimentos locais e rótulos com informações claras sobre os benefícios nutricionais.

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A relação dos brasileiros com a alimentação no trabalho vive um paradoxo. De um lado, a consciência sobre os riscos à saúde nunca foi tão alta; de outro, a praticidade e o custo dos produtos industrializados mantêm os ultraprocessados no centro da dieta urbana.

Um estudo recente da Universidade de São Paulo (USP) revela que a “invasão” desses produtos é uma realidade consolidada: em média, 20,2% das calorias ingeridas pela população vêm de formulações industriais, índice que ultrapassa os 30% em capitais como Florianópolis e Curitiba.

Embora o consumidor moderno demonstre querer saber a origem do que come — com 47% dos brasileiros priorizando produtos frescos, de acordo com o estudo da Sodexo —, o fator financeiro joga contra. Entre 2018 e 2024, o preço médio dos ultraprocessados caiu cerca de 16%, enquanto alimentos in natura ficaram mais caros.

Esse cenário cria um ambiente onde comer de forma saudável tornou-se, muitas vezes, mais dispendioso do que recorrer a produtos prontos.

Em um ambiente urbano onde a conveniência reina, é fundamental reforçar o protagonismo da alimentação caseira”, destaca a nutricionista Karoline Albini Schast, professora da Uninter.

Ela ressalta que, nas grandes cidades, o ritmo acelerado e a oferta abundante de serviços de conveniência impulsionam o consumo desses itens, especialmente entre o público masculino (veja mais no artigo completo abaixo).

Palavra de Especialista

Os ultraprocessados invadem as capitais brasileiras

Por Karoline Albini Schast*

O consumo de alimentos ultraprocessados vem crescendo de forma constante no Brasil, transformando hábitos alimentares e despertando preocupações. Segundo a classificação NOVA, utilizada pelo Guia Alimentar para a População Brasileira, os ultraprocessados são formulações industriais com pouco ou nenhum alimento in natura, feitas a partir de ingredientes como amidos modificados, óleos hidrogenados, proteína isolada, aromatizantes, emulsificantes e outros aditivos cuja função é melhorar sabor, cor, textura e tempo de prateleira. É exatamente essa composição, muito distante dos alimentos encontrados na natureza, que os torna nutricionalmente pobres e potencialmente prejudiciais quando consumidos com frequência.

Esses produtos industrializados, ricos em açúcares, gorduras, aditivos e ingredientes altamente modificados, tornaram-se parte significativa da rotina alimentar dos brasileiros, especialmente nas grandes cidades. Um estudo recente da Universidade de São Paulo (USP), estimou a participação calórica dos ultraprocessados em todos os 5.570 municípios brasileiros, revelando que, em média, 20,2% das calorias ingeridas pela população vêm desse tipo de alimento.

As diferenças regionais de consumo são marcantes, e o Sul do país se destaca como a área mais consumidora de ultraprocessados, chegando a valores que ultrapassam 30% em alguns municípios, como Florianópolis. No Paraná, a variação oscila entre 16% e 26,3%, colocando Curitiba entre as capitais com os índices mais elevados de ingestão desses produtos.  A capital paranaense reflete de maneira clara os fatores que impulsionam esse padrão alimentar. Como acontece em muitos centros urbanos, o ritmo acelerado da vida cotidiana, a menor disponibilidade de tempo para cozinhar e a abundância de produtos industrializados nas prateleiras tornam os ultraprocessados a escolha mais prática para grande parte da população.

O estudo da USP também mostra que capitais tendem a apresentar índices superiores aos de cidades menores, reforçando a influência da urbanização na alimentação moderna. Além disso, um dado que chama atenção é que o consumo costuma ser maior entre homens do que entre mulheres, possivelmente em razão de padrões culturais, da maior frequência de refeições rápidas e do uso mais intensivo de serviços de conveniência. Essa diferença também aparece associada ao fato de que homens tendem a substituir refeições tradicionais por lanches prontos ou alimentos práticos, o que os expõe com mais frequência aos ultraprocessados.

Outro aspecto avaliado é a associação entre maior renda e escolaridade e o consumo de ultraprocessados. Embora isso pareça contraintuitivo, esse padrão se explica pela maior oferta e acessibilidade desses produtos nos grandes centros, pela influência do marketing e pela ideia de modernidade e praticidade associada a eles. Ao mesmo tempo, o país enfrenta um fenômeno preocupante: enquanto os ultraprocessados se tornam mais baratos, os alimentos in natura ou minimamente processados tendem a ficar mais caros, especialmente após a pandemia de Covid-19.

Entre 2018 e 2024, por exemplo, o preço médio dos ultraprocessados caiu cerca de 16%, enquanto vários alimentos frescos apresentaram aumento, criando um cenário em que comer de forma saudável se torna, muitas vezes, mais caro do que recorrer a produtos industrializados.

A alta ingestão desses produtos é um importante fator de risco para o desenvolvimento de obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão e doenças cardiovasculares, além de estar associada a pelo menos 32 outros problemas de saúde. Nas capitais, onde o consumo ultrapassa um quarto das calorias ingeridas diariamente, esse quadro evidencia a necessidade urgente de ações de educação alimentar, políticas públicas e estímulo ao acesso a alimentos frescos.

Reduzir o consumo de ultraprocessados não é apenas uma recomendação nutricional: é um passo essencial para proteger a saúde ao longo da vida. Pequenas mudanças podem fazer grande diferença: como cozinhar mais em casa, priorizar alimentos in natura, ler rótulos com atenção e diminuir gradualmente a dependência de produtos prontos.

Em um ambiente urbano onde a conveniência reina, é fundamental reforçar o protagonismo da alimentação caseira e variada, incentivando escolhas mais equilibradas. Para uma cidade que se destaca em qualidade de vida, repensar a relação com a alimentação é parte essencial do cuidado com a saúde e do futuro das próximas gerações.

*Karoline Albini Schast é nutricionista, hef de Cozinha e professora do Bacharelado de Nutrição Uninter.

Com Assessorias

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