Como as escolas brasileiras estão lidando com o suicídio?

Duas mortes de estudantes de colégio de São Paulo reacendem debate em torno da depressão entre jovens. Conheça um programa que ensina estudantes a ter maior controle socioemocional

depressão afeta cada vez mais os jovens e pode levar ao suicídio Depressão afeta cada vez mais os jovens e pode levar ao suicídio (Foto: Pixabay)
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Uma notícia duplamente triste, que deixa qualquer pai ou mãe de adolescente ou jovem em estado de choque. “E se fosse meu filho?”, vem logo à cabeça. Em apenas 15 dias, dois jovens estudantes do Ensino Médio em São Paulo morreram por suicídio.

Nesta segunda-feira (23), o Colégio Bandeirantes, tradicional escola da capital onde os jovens estudavam, comunicou o fato.  “Compreendemos que cada morte deve ser tratada como um caso singular e por isso a escola procura posicionar-se respeitando as decisões e os desejos de cada família”, diz a nota aos pais e responsáveis.

A escola informou ainda que está “acolhendo os alunos mais vulneráveis” e planeja “diversas ações de trabalho em posvenção [apoio a familiares e amigos de quem se suicidou], com assessoria de uma especialista em prevenção ao suicídio e luto por suicídio”.

A notícia preocupa pais, alunos e professores em todo o Brasil, já que retrata uma triste realidade no Brasil. Segundo dados do Mapa da Violência, entre 2002 e 2012, a taxa de suicídio de crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos aumentou em 40%, enquanto entre jovens entre 15 e 19 anos o índice cresceu 33%.

Um levantamento do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, com base em dados do Ministério da Saúde; apontou um grande aumento no número de suicídios de crianças e adolescentes no Brasil.

De acordo com a pesquisa, entre 2000 e 2015, os suicídios cresceram 65% entre pessoas com idade entre 10 e 14 anos, e 45% de 15 a 19 anos. Isso representa mais do que a alta de 40% na média da população.

O problema pode ser decorrente de transtornos mentais associados à depressão. Como mãe de adolescente, fico apreensiva ao notar que o assunto permanece como tabu em grande parte das escolas, assim como na mídia. E perguntamos: como estas questões estão sendo tratadas em sala de aula?

Sabemos que nossas crianças, adolescentes e jovens vivem cada vez mais ansiosos e acelerados, sob influência de tantos meios digitais. E sentimentos como frustração, estresse e baixa autoestima são muito comuns, principalmente na adolescência. Isso sem falar no bullying e no cada vez mais crescente cyberbullying, situações que podem levar à depressão, um dos principais fatores de risco para o suicídio.

No período da adolescência, e mesmo da pré-adolescência, os indivíduos têm uma vulnerabilidade muito grande em relação ao bullying, a pressões sociais, entre outros aspectos. As redes sociais são um dos grandes motivadores de aumento de ansiedade e até de depressão, seja por comentários maldosos ou as famosas fake news, que viralizam instantaneamente”, explica  o médico psiquiatra Mario Louzã.

Doutor em Medicina pela Universidade de Würzburg, Alemanha, e filiado ao Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, ele diz que .as redes também podem afetar a autoestima de um jovem que “percebe que os posts de seus colegas têm muito mais curtidas do que os dele”.

Escolas podem evitar que a tristeza vire doença

Para o médico psiquiatra Celso Lopes de Souza, especialista em aprendizagem socioemocional, não só familiares devem lidar com a realidade das doenças psiquiátricas. A prevenção da depressão entre jovens e crianças pode começar na escola. Segundo ele, as competências socioemocionais, se trabalhadas com êxito nas escolas e também em casa, podem ser um grande trunfo para prevenir que a tristeza ou a frustração em crianças se tornem patológicas.

Todos os pilares são essenciais, mas existem dois que são a chave para que esse problema não se intensifique: os pais e as escolas precisam incorporar que as emoções importam. Do mesmo jeito que ensinamos as crianças a nadar e andar de bicicleta, devemos ensiná-las a lidar com suas emoções”, afirma o médico.

Dr Celso é fundador do Programa Semente, uma metodologia que desde 2016 já treinou mais de 30 mil alunos, de maneira preventiva, a lidar com suas próprias emoções, como ansiedade, medo e tristeza. Numa aula sobre autoconhecimento e autocontrole, o aluno é incentivado a refletir sobre suas emoções e se conhecer melhor.

De forma estruturada, o programa trabalha os cinco domínios: autoconhecimento, autocontrole, empatia, tomada de decisões responsáveis e habilidades sociais. E já foi implantado em escolas de diversas cidades de estados como São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Pará.

“O controle da ansiedade, por exemplo, é fomentado com estratégias que auxiliam os estudantes a enfrentarem situações, procurando reconhecer os desafios e as capacidades de forma realista e sem distorções”, explica o médico, que é formado pela Unifesp, ele lecionou em cursos pré-vestibulares por mais de 20 anos, sendo autor de livros didáticos.

Programa ensina jovens a lidar com sentimentos

Principal centro de estudos da aprendizagem socioemocional do mundo, o Casel reuniu em 2011 diversos pesquisadores ao redor do mundo para avaliar o impacto de programas de habilidades socioemocionais na vida de 270 mil estudantes. Os resultados de boas práticas incidiram não só na diminuição da possibilidade de surgimento de transtornos psiquiátricos, como também, na melhora em média de 11% no desempenho acadêmico.

“Saber reconhecer emoções, relacionando-as com os pensamentos que as geram e entendendo como tudo isso influencia o comportamento permite que cada um compreenda melhor as próprias limitações e conheça suas fortalezas, o que aumenta a confiança, o otimismo e a autoestima”, afirma Celso, que criou o Programa Semente junto com um grupo de educadores e com base em pesquisas norte-americanas realizadas pelo Casel.

O programa ensina ao aluno estratégias para identificar e questionar os pensamentos, especialmente quando há uma emoção desconfortável. “É o que chamamos de flexibilização cognitiva, muito eficaz para evitarmos armadilhas em momentos em que enxergamos a realidade de modo distorcido, o que pode levar a erros de interpretação”, explica.

Um exemplo disso é quando uma pessoa acorda com dor nas costas e interpreta aquela situação como sendo uma doença grave. Um rápido questionamento sobre o pensamento “Estou com uma doença grave” pode desarmar dias de ansiedade.

IDEA: uma metodologia para gerenciar as emoções

Um exemplo do que acontece nas aulas é a indicação e prática do acrônimo IDEA:

I – Identifique os pensamentos que estão ocorrendo no momento da ansiedade intensa;

D – Desafie os pensamentos com perguntas simples: “Posso estar exagerando?” “Há outras possibilidades para interpretar essa situação? ;

E – Encontre novas formas de pensar;

A – Assuma um novo comportamento.

Fonte: Professor Mário Louzã e Celso Lopes de Souza – Programa Semente, com Redação

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