No início de 2022, a professora aposentada Claudete Felix de Souza, de 65 anos, começou a sentir dores nas costas que a impediam de dormir. Como estava se recuperando de uma infecção pelo vírus Chikungunya, achou que ainda estava com sequelas da doença. A dor, entretanto, não passou.
Pouco tempo depois, ela percebeu que estava com a respiração alterada, difícil. Passou por fisioterapia e diversos médicos especialistas até que um cardiologista percebeu que os pulmões estavam com a capacidade comprometida e com líquido acumulado. Orientada a procurar a emergência, o diagnóstico finalmente veio: câncer de pulmão. Detalhe: Claudete nunca fumou na vida.

Quando a médica da emergência falou, a gente ainda não sabia onde era o câncer. Ela não especificou. Mas a palavra câncer era muito assustadora. Ainda é muito assustadora. Me desesperei”, lembra.

Claudete precisou ficar internada, passou por biópsia, encontrou um bom oncologista e deu início ao tratamento pelo plano de saúde. Atualmente, o quadro é considerado sob controle.

Sempre me alimentei bem, fazia algumas atividades físicas. Não sou exemplo ou modelo de alimentação perfeita nem de atividade física perfeita. Mas sempre tive boa saúde. É difícil ouvir que você tem uma doença tão fatal, fatídica, que tem uma denominação tão estranha quando você ouve pra si”, lembrou ela.

O câncer de pulmão ocupa a quarta posição entre os tumores mais frequentes, com cerca de 32.560 novos casos por ano no Brasil, e é o mais letal dentre todos os tipos de câncer. Somente em 2020, no Brasil, 28.618 pacientes falecerem em decorrência da doença, correspondendo a mais de dois terços dos casos.

Cerca de 84% dos casos de câncer de pulmão são descobertos em estágio avançado. E atualmente, 15% dos casos de câncer de pulmão são diagnosticados em pessoas como Claudete, que nunca fumaram.

O fato é que o tabagismo vem reduzindo, o consumo de tabaco vem reduzindo no mundo e no Brasil. Isso tem causado uma redução na mortalidade por câncer, inclusive câncer de pulmão. A preocupação agora começa a ser o câncer de pulmão em não fumantes”, disse o oncologista e médico pesquisador no Instituto Nacional do Câncer (Inca), Luiz Henrique Araújo à Agência Brasil.

Segundo Araújo, se considerada uma enfermidade a parte, o câncer de pulmão em não fumantes figura atualmente como a sétima maior causa de morte por câncer no mundo, perdendo para o câncer de pulmão em fumantes, de estômago, colorretal, de fígado, de mama e de esôfago.

As causas disso são pouco esclarecidas. Recentemente, a gente teve documentações mais formais sobre a relação da exposição ambiental à poluição e suas partículas associada ao surgimento de câncer de pulmão especificamente em não fumantes. A poluição tem sido colocada como a segunda principal causa de câncer de pulmão. Outras são o tabagismo de segunda mão ou tabagismo passivo.”

O oncologista destaca que o câncer de pulmão em fumantes acaba vislumbrando uma possibilidade de diagnóstico mais precoce, sobretudo em razão do rastreamento preventivo feito por meio de tomografia de tórax anual a partir dos 50 anos.

E não fumantes, o índice de suspeição é muito baixo. Um paciente mais jovem, que não fuma, raramente vai pensar, nem ele nem o médico, na possibilidade de câncer de pulmão. Isso acaba levando a diagnósticos mais tardios”, disse.

“Esses casos têm que ser examinados por testes moleculares com sequenciamento genético, que indicam qual vai ser o sobrenome do câncer de pulmão no não fumante. A gente vai procurar mutações genéticas adquiridas, não familiares. São algumas centenas de genes que vão ajudar a guiar qual a escolha do tratamento, uma terapia inteligente, frequentemente usando comprimidos ao invés de quimioterapia oral”, completou.

Estamos no Agosto Branco, mês de conscientização sobre o câncer de pulmão. Araújo explicou que a ideia é aumentar a conscientização sobre a doença em não fumantes.

Cerca de 15% dos casos de câncer de pulmão acontecem em pessoas que nunca fumaram. Também precisamos esclarecer sobre a importância de procurar um médico em casos de sintomas respiratórios que não estão melhorando. Diagnóstico precoce e um time multidisciplinar, incluindo pneumologista, cirurgião, oncologista e outros, são essenciais”.

Para a professora aposentada, é importante buscar um especialista, passar por acompanhamento e contar com uma rede de apoio para enfrentar o diagnóstico de uma doença tão grave.

É importante que a pessoa tenha muita clareza de que ela tem condições de sobreviver e tem que procurar bons apoios, inclusive do ponto de vista médico. Entender que um bom médico é aquele que te olha, te vê, te busca, te trata, te acompanha. É difícil achar médico assim. Outra coisa: psicólogo. A cabeça fica mal. Me sentia muito culpada, muito triste. E procurar as pessoas que realmente importam na sua vida. Minha família me apoiou muito. Isso foi fundamental”, acrescentou.

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Novo tratamento para câncer de pulmão metastático aumenta a sobrevida em 9 meses

A medicação usada por Claudete – o Tagrisso 80mg, que é coberta pelos planos de saúde – foi aprovada em 2024 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Trata-se da combinação da terapia-alvo, osimertinibe, com quimioterapia, a base de platina e pemetrexede, em primeira linha de tratamento para pacientes com câncer de pulmão não pequenas células avançado ou metastático com mutação do EGFR, traz uma nova opção de tratamento aos pacientes.  Dos pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células, 25% apresentam a mutação do EGFR.

Atualmente, o tratamento padrão preferencial recomendado pelo NCCN (National Comprehensive Cancer Network) em primeira linha para esse subtipo da doença em estágio metastático é o osimertinibre. Entretanto, foi possível observar que a combinação recém-aprovada demonstra um aumento na sobrevida livre de progressão mediana em quase 9 meses em contrapartida ao que se tinha atualmente, além de reduzir em 38% o risco de progressão ou morte.

O câncer de pulmão é o que tem maior incidência de metástase cerebral, correspondendo a 30% dos pacientes. E os pacientes com mutação do EGFR têm o dobro de chance de progressão da doença com metástase cerebral”, afirma Tiago Kenji Takahashi, diretor técnico e coordenador da pesquisa clínica em oncologia do Instituto de Oncologia DASA Santa Paula e coordenador de pesquisa clínica em oncologia no Hospital Santa Paula.

Segundo ele, a redução da progressão da doença ou morte por metástase cerebral é um importante achado desta combinação, que se mantém com um marco expressivo mesmo após dois anos, proporcionando um grande avanço no tratamento da doença.

A eficácia e benefícios clínicos apresentados pela associação da terapia-alvo com quimioterapia, sugere que o osimertinibe é a droga backbone no tratamento de pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células com mutação do EGFR, e com a associação dos medicamentos é possível intensificar o tratamento, proporcionando um maior tempo sem que a doença progrida. Se tratando de câncer de pulmão, uma doença altamente letal, esse ganho é muito importante na jornada dos pacientes”, reforça.

Da Agência Brasil, com Assessorias

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