Depois de anos transformando a vida de pacientes oncológicos por meio da doação de perucas, Mariana Robrahn, fundadora da ONG Cabelegria, identificou um novo caminho para ampliar seu impacto socioambiental. A partir do descarte de cabelos que não eram utilizados na produção das perucas, surgiu a Fiotrar, uma empresa de impacto ambiental dedicada à reutilização desse material. Estudos indicam que um grama de cabelo pode absorver, em média, cinco gramas de óleo, característica que torna o material uma alternativa promissora para o enfrentamento da poluição.

Inspirada pela organização internacional Matter of Trust, dos Estados Unidos, que já utilizava cabelos para a absorção de óleo, Mariana trouxe a iniciativa para o Brasil. A Fiotrar utiliza fios de cabelo reaproveitados para a produção de mantas capazes de absorver poluentes oleosos, oferecendo uma solução sustentável para a contenção de óleo em ambientes aquáticos e contribuindo para a mitigação de impactos em ecossistemas costeiros e marinhos.

Esta semana, rolos feitos com malha de algodão e recheados de fios de cabelo desenvolvidos pelo Fiotrar foram acoplados a uma estrutura flutuante, produzida com isopor, tecido e camadas de mantas geossintéticas, coberta por uma lona. A barreira de cabelo humano de aproximadamente 300 metros de extensão já atua na retenção de resíduos sólidos e, agora, passa também a absorver poluentes oleosos, ampliando a proteção de um manguezal da Baía da Guanabara.

Esta é a primeira vez que a tecnologia baseada no reaproveitamento de cabelo humano é aplicada em ambiente natural. A ação inédita foi testada na segunda-feira, 23, na Enseada de Bom Jesus, na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro (RJ), em parceria com pesquisadores do projeto Orla Sem Lixo Transforma (OSLT) e da Universidade Presbiteriana Mackenzie, com a colaboração de pescadores artesanais da região, unindo conhecimento científico e tecnologia social.

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Soluções Baseadas na Natureza

A conservação dos manguezais é estratégica para a resiliência deste importante ecossistema do Rio de Janeiro. Considerados uma das principais Soluções Baseadas na Natureza (SBN), eles funcionam como uma infraestrutura viva: 100 metros de manguezal preservado, por exemplo, são capazes de reduzir a força das ondas em até 60%, protegendo a linha de costa contra a erosão e eventos climáticos extremos. Ao evitar que o óleo e os resíduos sólidos asfixiem as raízes e o solo desse ambiente, as novas barreiras garantem que o manguezal continue exercendo seu papel essencial de proteção costeira e sequestro de carbono.

barreira de cabelo humano foi desenvolvida pelo Orla Sem Lixo Transforma, um projeto de pesquisa e extensão desenvolvido na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), voltado à mitigação da poluição por resíduos sólidos flutuantes na Baía de Guanabara.  Criado em 2021, o OSLT articula ciência e tecnologia social para o desenvolvimento de soluções aplicadas, integrando conhecimento acadêmico e saberes locais.

O projeto também promove a participação ativa das comunidades locais na construção, manutenção e evolução das soluções, fortalecendo estratégias colaborativas para o enfrentamento da poluição hídrica. Entre suas principais frentes está o desenvolvimento e a instalação de barreiras de contenção de resíduos, continuamente aprimoradas a partir de testes em campo e monitoramento ambiental. 

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Ciência, sustentabilidade e impacto social

Para Susana Vinzon, coordenadora do projeto Orla Sem Lixo Transforma e professora da Escola Politécnica da UFRJ, a iniciativa conjunta representa a consolidação deste processo de experimentação. “A instalação da barreira conjunta é resultado de um ciclo de testes conduzido ao longo do último ano, que buscou adaptar a tecnologia às condições ambientais específicas da Baía de Guanabara e às características estruturais das barreiras desenvolvidas”, explica.

A incorporação da solução do Fiotrar é resultado de um processo iniciado em 2025, que incluiu experimentações em campo ao longo do último ano. Os dois projetos foram apoiados em 2021 pelo Teia de Soluções – Camp Oceano, promovido pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza para alavancar soluções favoráveis à saúde do oceano. O OSLT também conta com o apoio da Petrobras e da L´Oreal.

Este momento é, acima de tudo, a validação de anos de pesquisa e desenvolvimento da nossa tecnologia. Depois de um longo caminho para transformar uma ideia em uma solução aplicável, chegar a essa etapa significa provar, na prática, que é possível unir ciência, sustentabilidade e impacto social de forma concreta”, afirma Caroline Carvalho, diretora do Fiotrar.

Quer ajudar a proteger a natureza? Confira em nossa seção Crise Climática

 

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