Autismo na infância: é preciso observar a interação da criança com o mundo

No Dia da Criança Especial, psiquiatra e psicóloga falam sobre diagnóstico e tratamento do Transtorno do Espectro Autista (TEA) na infância

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De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1 bilhão de pessoas tem algum tipo de deficiência no mundo e, uma em cada dez, é criança. No Brasil, 45,6 milhões de pessoas são portadoras de deficiência. Destas, 7,5% são crianças de até 14 anos de idade, segundo o último censo do IBGE, de 2010, ou seja, cerca de 3,5 milhões de crianças.

Já segundo o CDC (Center of Diseases Control and Prevention), órgão ligado ao governo dos Estados Unidos, uma criança a cada 100 nasce com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). O aumento é grande: há alguns anos, a estimativa era de um caso para cada 500 crianças. Estima-se que 70 milhões de pessoas no mundo tenham TEA, sendo 2 milhões delas no Brasil.

O dia 9 de dezembro foi instituído como Dia da Criança Especial, com o objetivo de voltar a atenção para as crianças que possuem algum tipo de necessidade especial a fim de melhorar a qualidade de vida e ajudar no seu desenvolvimento, mesmo com todas as suas limitações. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um deles e seu diagnóstico geralmente é feito já na primeira infância.

“Um dos critérios diagnósticos do Transtorno do Espectro Autista refere-se à presença dos sinais ou sintomas ainda na infância. Muitos deles, podem ser observados ainda antes dos 2 anos de idade, por isso é muito importante ficar atento”, explica a psicóloga Giulianna Victoria Yoshie Kume, coordenadora da área do TEA do Núcleo Paraense de Recuperação Motora Cognitiva e Comportamental (NUPA).

Entenda o autismo na infância

O TEA é uma síndrome que afeta o sistema nervoso caracterizada por problemas de comunicação, interação e comportamento. O alcance e os sintomas vão variar de pessoa para pessoa, mas as mais comuns são: dificuldade de comunicação, dificuldade com interações sociais, interesses obsessivos e comportamentos repetitivos.

Segundo Danielle H. Admoni, psiquiatra da Infância e Adolescência na Escola Paulista de Medicina Unifesp e especialista pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria); o diagnóstico começa pela observação do comportamento da criança.

“O TEA, na realidade, envolve um grupo de doenças do neurodesenvolvimento, de início precoce (antes dos 2-3 anos de idade), e que se caracteriza por dois aspectos principais: dificuldade de interação social e de comunicação. Uma criança neurotípica (que não possui problemas de desenvolvimento neurológico) começa a interagir com outras pessoas em torno dos 4-6 meses de idade”.

De acordo com a psiquiatra, a criança é capaz de sorrir quando vê alguém conhecido ou reagir com medo se um estranho, por exemplo, tenta pegá-la no colo. A medida que a criança cresce, o amadurecimento permite que a interação com outras pessoas se torne possível antes da aquisição da linguagem e da fala.

Ao longo dos primeiros anos de vida, estas evoluções indicam o progressivo aumento da capacidade de interação social da criança. Já aquela com TEA se mostra indiferente à interação social e não expressa a reciprocidade no contato com outras pessoas. Tem grande dificuldade na comunicação verbal e não verbal, e parece desligada do ambiente em torno de si. A linguagem corporal e o contato visual com outras pessoas se mostram prejudicados.

“Numa idade maior, o desinteresse em brincar com outras crianças é ainda mais nítido. Normalmente, ela se isola e se fixa em uma única atividade, com ritualização de movimentos repetitivos. Outra característica é a dificuldade de seguir rotinas, além de apresentar hipo ou hiperatividade aos estímulos sensoriais”, reforça Danielle Admoni.

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Os sinais mais comuns do autismo

De acordo com Giulianna, nos bebês, os sinais mais comuns do TEA são baixo contato visual; pouco interesse por brinquedos e brincadeiras; alterações sensoriais como sensibilidade a sons, texturas, odores; irritabilidade; alterações de sono.

Já nas crianças, os pais ou responsáveis devem observar pouca interação com crianças de mesma idade, não atender ao nome, atraso na comunicação e fala, interesse ou uso incomum de brinquedos e objetos, seletividade alimentar, dificuldade nas rotinas entre outros. 

O diagnóstico e intervenção precoce, ou seja, antes dos 3 anos de idade é muito importante na redução dos atrasos e melhora na qualidade de vida dos indivíduos com TEA.

Tratamento para autismo na infância

O acompanhamento multidisciplinar é fundamental, envolvendo psicólogo, pediatra, psiquiatra, fonoaudiólogo, neurologista, entre outros especialistas. Medicamentos são utilizados quando há outros sintomas associados, como ansiedade, TDAH, depressão, transtorno obsessivo compulsivo, agitação, irritabilidade, distúrbios do sono, entre outros. Para cada situação, há uma medicação específica.

Em relação aos efeitos colaterais, a psiquiatra explica que depende do medicamento e da dose ministrada. “Como são vários remédios de classes terapêuticas diferentes, fica difícil generalizar os efeitos colaterais. Também há indicação de psicofármacos para casos mais leves”, afirma Danielle Admoni.

“Os pais têm que estar atentos a presença de qualquer sintoma, quanto antes as terapias começarem, melhor será para a criança, reduzindo os sintomas, e oferecendo a ela um pilar de apoio ao seu desenvolvimento e à aprendizagem, melhorando sua qualidade de vida como um todo”, completa Giulianna.

Inclusão: o maior desafio para a criança autista

Danielle Admoni, psiquiatra, especializada em Infância e Adolescência (Foto: Divulgação)

Por lei, pelo Plano Nacional de Educação (PNE), o Brasil deve incluir todos os estudantes de 4 a 17 anos na escola. Os estudantes com necessidades especiais devem ser matriculados preferencialmente em classes comuns. Para isso, o Brasil deve garantir todo o sistema educacional inclusivo, salas de recursos multifuncionais, classes, escolas ou serviços especializados, públicos ou conveniados.

O assunto, já abordado exaustivamente, diz respeito à inclusão social de crianças com deficiências físicas e intelectuais. A proposta educacional é oferecer educação de qualidade para todos, sem discriminação, incentivando os alunos especiais a frequentarem as mesmas escolas que as demais crianças.

Entre 2014 a 2018, o número de matrículas de estudantes com necessidades especiais cresceu 33,2% em todo o país, segundo dados do Censo Escolar divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). No mesmo período, também aumentou de 87,1% para 92,1% o percentual daqueles que estão incluídos em classes comuns.

Em 2014, eram 886.815 os alunos com deficiência, altas habilidades e transtornos globais do desenvolvimento matriculados nas escolas brasileiras. Esse número tem aumentado ano a ano. Entre 2017 e 2018, houve aumento de aproximadamente 10,8% nas matrículas. Em 2018, chegou a cerca de 1,2 milhão.

“A proposta da inclusão é que as crianças com TEA se beneficiem com este convívio. Afinal, todas têm algo a aprender e ensinar, independentemente do nível intelectual e social. Com esta experiência, as crianças neurotípicas tendem a crescer sem preconceitos e com uma noção mais ampla sobre a realidade da vida. Dar às crianças essa oportunidade é oferecer ao mundo futuros cidadãos que saberão o real significado de respeito, empatia, responsabilidade e compreensão sobre ser diferente”, finaliza Danielle Admoni.

Danielle Admoni escreve uma vez por mês sobre saúde mental na infância e adolescência para a seção Palavra de Especialista, que é publicada toda quarta-feira no Portal ViDA & Ação. Saiba mais aqui.

Com Assessorias

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