Audição: cresce o número de  implantes cocleares no SUS

Conheça a técnica que está mudando a vida de pacientes com perda auditiva severa e profunda. Pacientes levam 7 anos até procurar ajuda

Implante coclear, garantido desde 1999 no SUS, traz benefícios também a crianças (Foto: Divulgação ABORL-CCF)
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Um problema invisível, de difícil percepção aos pacientes e que atinge um contingente cada vez maior da população global.  Aproximadamente 470 milhões de pessoas no mundo sofrem com perda auditiva incapacitante, segundo Organização Mundial de Saúde (OMS). Segundo dados da OMS, uma em cada cinco pessoas no mundo vivem com perda auditiva, e até 2050, uma em cada quatro pessoas deverão ter problemas com a audição, cerca de 900 milhões.

Para auxiliar na reversão de casos de perda auditiva em graus severo ou profundo, o implante coclear tem sido uma opção cada vez mais usada pela medicina. A boa notícia é que no Brasil o procedimento é oferecido de graça pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde 1999 e o acesso tem aumentado. Estatísticas do Datasus revelam que em 2022, a técnica que registrou 774 procedimentos. Em 2023, houve aumento de 16,5%, totalizando 902 implantes.

Neste Dia Mundial da Audição e Dia do Otorrinolaringologista (3/3), a Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF) e a Sociedade Brasileira de Otologia (SBO) destacam a técnica como uma das tecnologias mais promissoras para a reabilitação de pessoas com surdez completa ou quase total.

O implante coclear é um aparelho eletrônico digital que cumpre o papel do sistema auditivo. Atualmente há 25 centros habilitados pelo SUS, sendo 12 no Sudeste (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo), seis na região Nordeste (Bahia, Pernambuco, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, e Paraíba), quatro no Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), dois no Centro-Oeste (Brasília e Goiás) e um no Norte (Pará).

Os estabelecimentos atendem somente via encaminhamento de médicos do SUS. “O paciente deve procurar a unidade básica de saúde, que direcionará o caso para o otorrino da rede pública. Após todos os exames com esse especialista, ele fará o encaminhamento para um centro de implante coclear para tratar a condição da perda auditiva,” explica o presidente da SBO, Robinson Koji Tsuji.

Como é feito o implante coclear

De acordo com a OMS, o avanço da idade é um fator de risco para a perda auditiva. Mais de 25% das pessoas com mais de 60 anos são afetadas pelo problema. Até 2050, a previsão é que aproximadamente 2,5 mil milhões de pessoas sofram alguma redução da capacidade de ouvir e pelo menos 700 milhões precisem de reabilitação auditiva.

“O implante coclear é composto por duas partes que são interligadas. O lado externo é formado por um dispositivo que coleta e processa os sons, transforma-os em energia eletromagnética, e os envia à parte do equipamento que foi inserido atrás da orelha, na região da cóclea, por meio de uma cirurgia.  Essa parte interna é composta por eletrodos conectados ao receptor externo que capta os sinais elétricos”, esclarece Tsuji.

De acordo com o médico otorrinolaringologista, especialista da ABORL-CCF, a tecnologia pode reabilitar vários tipos de perda auditiva, como infecciosa, traumáticas, congênita e malformações. Além disso, também é um recurso de tratamento para pacientes submetidos à extração de alguns tipos de tumores.

“Ao fazer o implante, o paciente sentirá um ganho significativo na qualidade de vida pois terá a sua audição ativada, garantindo melhora da capacidade de comunicação e de relacionamento social, entre outras questões da rotina diária. Após a cirurgia, o paciente terá que fazer uma terapia fonoaudiológica por alguns meses e acompanhamento com o otorrino para conquistar esses resultados positivos”, afirma Tsuji.

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Benefícios do implante coclear para as crianças

De acordo com a OMS, 34 milhões de crianças sofrem com o impacto causado pela perda auditiva incapacitante. E quase 60% da perda auditiva pode ser evitada se o diagnóstico for precoce.

Para detectar os sinais de algo não vai bem com a audição, é importante ficar atento a qualquer dificuldade de rendimento escolar, atraso de fala, troca de letras, ou déficit de atenção, visto que nessa faixa etária a criança não irá se queixar.

Também é necessário avaliar se há o aparecimento de sintomas de dor, secreção ou coceira no ouvido. No caso de bebês, é importante prestar atenção também na ausência de reação da criança diante de ruídos.

Tsuji esclarece que o implante coclear é um recurso que pode ser utilizado com esse público diante do diagnóstico de perda auditiva severa ou profunda, principalmente casos de bebês que nasceram com surdez total.

“Na surdez congênita, o ideal é operar precocemente, até dois anos de idade. mas crianças mais velhas também podem ter bons resultados. Isso vai variar conforme a causa da perda auditiva, a idade, o tipo do problema, uso de aparelho auditivo e tempo de fonoterapia, por exemplo”, esclarece.

No caso de crianças, a perda auditiva é uma barreira para o desenvolvimento saudável, causando prejuízos de linguagem, aprendizagem e habilidades sociais, que vão afetar a sua vida adulta.

Perda auditiva: pacientes levam 7 anos até procurar ajuda

Mesmo após a realização de exames audiológicos, pacientes costumam demorar para procurar ajuda especializada

Mesmo após a realização de exames audiológicos, pacientes costumam demorar, em média, sete anos para procurar ajuda especializada, segundo a Associação Brasileira de Otorrinolaringologia.

“Esse dado mostra o quão é tardia a percepção da importância do tratamento por parte dos pacientes e das famílias. É essencial que a busca do diagnóstico seja feita tão logo observados os primeiros sintomas. E, no caso das pessoas que já têm pré-disposição, a recomendação é que façam exames periódicos”, enfatiza Christiane Nicodemo, fonoaudióloga do Hospital Paulista.

De acordo com a mestre em distúrbio da comunicação e linguagem, especializada em cuidados integrativos e em reabilitação auditiva,  as pessoas, em geral, desconhecem os fatores que estão associados à perda auditiva e também não têm o hábito de fazer exames regulares.

Diabetes, hipertensão, obesidade e tabagismo, segundo ela, são os principais indicativos que servem de alerta, pois aceleram esse processo. “O paciente, em geral, não percebe essa perda. E as pessoas próximas, por sua vez, costumam demorar para fazer essa associação e procurar auxílio profissional”, observa.

Dentre as principais recomendações, estão o uso de protetores sonoros em shows e no trabalho e a realização de avaliações anuais com profissionais da área de Otorrinolaringologia e Fonoaudiologia.

Como é feita a audiometria

A especialista destaca que o exame mais recomendado para fazer o diagnóstico e acompanhamento desse tipo de paciente é a audiometria – um procedimento de custo baixo, totalmente indolor e não invasivo, que dura cerca de 20 minutos. O exame é feito em uma cabine acústica à qual o paciente, a partir de um fone de ouvido com microfone acoplado, responde a perguntas por meio de sinais e gestos.

As informações são dispostas em um audiograma, que é um gráfico que contém as respostas do paciente aos sons emitidos. A partir da avaliação de um otorrinolaringologista, é feito o encaminhamento ao tipo de tratamento mais adequado a cada paciente.

“Se houver perda auditiva, pode ser necessário o uso de aparelho auditivo para auxiliar na escuta. Esse tipo de aparelho amplia o reconhecimento sonoro e ajuda na comunicação”, explica a fono do Hospital Paulista.

A maior preocupação, segundo ela, é com a predisposição ao desenvolvimento de demência precoce, provocada justamente por essa falta de estímulos auditivos. “Há vários estudos que relacionam essa combinação por conta do isolamento que a surdez provoca. Isso reforça a necessidade de a audiometria fazer parte dos exames de rotina de pessoas idosas”, pontua.

Na mesma linha, o otorrinolaringologista José Roberto Gurgel Testa, também do Hospital Paulista, lembra que a falta de prevenção causa prejuízos à sociedade e também à economia mundial.

“A OMS estima que a perda auditiva não tratada representa um custo anual de US$ 980 mil milhões por ano. Este é o custo estimado do impacto da perda auditiva sem acesso à reabilitação, incluindo perdas de produtividade e exclusão social”, enfatiza.

Agenda Positiva

Artistas com deficiência auditiva fazem mostra em São Paulo

Obra do artista Vinicius Loschiavo, que tem deficiência auditiva: ele realizou uma intervenção sobre um radiador automotivo (Foto: Divulgação)

Artistas com deficiência auditiva, Maria Luisa Lobo e Vinícius Loschiavo participam da primeira edição da Eart Exhibition, mostra visual que une a temática da audição com obras artísticas, que acontece neste mês de março em São Paulo. O evento é inspirado pelo Dia Mundial da Audição deste ano para mudar mentalidades e quebrar paradigmas acerca do estigma da deficiência auditiva e da surdez.

A mostra é promovida pela Audicare, clínica audiológica, membro do Fórum Mundial da Audição da OMS, e a Galeria d.Propósito, especializada em arte e design com propósito ambiental, cultural e social. A abertura da exposição acontecerá no restaurante Gael Cozinha Mestiça, em Pinheiros, às 11h, no dia 3 de março (domingo). Após a exposição, as cinco obras ficarão expostas no local até o final de março.

Para a ação, cinco artistas foram convidados para retratar as próprias experiências deles enquanto pessoas com deficiência auditiva ou a partir da interação com um deficiente auditivo. Os artistas Maria Fernanda Paes de Barros, Mari Dabbur, Kalina Juzwiak (Kaju) – que não têm a deficiência – também produziram obras que evidenciem a relação deles com o tema da audição e a deficiência auditiva.

Maria Fernanda Paes de Barros retratará a história familiar dela em relação ao pai e a tia. O pai, já falecido, foi uma pessoa com deficiência auditiva. E agora a tia também está vivenciando a deficiência. Já Mari Dabbur fala sobre a filha da prima dela, que já nasceu surda, mas antes dos dois anos conseguiu colocar um implante coclear.

Kaju expressa em sua obra a vivência da mãe Luciana e sua filha deficiente auditiva, Giovanna. Vinicius Loschiavo apresenta uma obra em parceria com o criador de conteúdo digital Alex Alves Júnior, outra pessoa com deficiência auditiva.

Para quebrar o estigma da deficiência auditiva

No dia da abertura, os artistas estarão presentes para compartilhar as suas experiências no processo de execução de cada obra. Além deles, haverá um tradutor de libras e fonoaudiólogos, e também será realizado um teste de volume de fones conduzido pela boneca decibelímetro Katita, do programa Dangerous Decibels.

“Precisamos dar visibilidade a surdez e quebrar o estigma da deficiência auditiva mudando a mentalidade sobre esse assunto. E a Eart Exhibition surgiu para falarmos abertamente sobre esse tema tão importante do Dia Mundial da Audição, através da arte”, completa Katya Freire, fundadora da Audicare, audiologista e co-chair do Make Listening Safe Workstream do Fórum Mundial da Audição da OMS.

Além disso, seguindo a cartilha de responsabilidade social e ambiental, todos os materiais gráficos serão impressos em papel semente para que o descarte não prejudique o meio ambiente, mas fortaleça-o.

“Algumas dessas artes trarão resíduos da própria indústria da audiologia, como próteses auditivas e baterias. Queremos ser essa ferramenta para comunicar o debate da deficiência auditiva, e sem esquecer também da responsabilidade ambiental, pois todas as obras serão feitas com resíduos”, explica Fabia Toqueti Pace, fundadora da Galeria d.Propósito, em Pinheiros.

A mostra tem patrocínio da Widex, Signia, Audibel, Audio Service e Comunicare Aparelhos Auditivos, do grupo WS Audiology.

Dia Mundial da Audição

Até 2050, a projeção é que esse número chegue a 900 milhões. Atualmente, a estimativa do Relatório Mundial sobre Audição é que 217 milhões possuam algum grau de deficiência auditiva, sendo que cerca de 6% desse contingente apresentam perda em nível moderado ou mais elevado.

Um dado preocupante, que, segundo a OMS, resulta, sobretudo, de “percepções errôneas, profundamente arraigadas da sociedade, e mentalidades estigmatizantes que limitam os esforços para prevenir e abordar a perda auditiva”. Ou seja, é preciso mais conscientização para evitar essa “epidemia de casos” que se projeta para as próximas décadas.

Por essa razão é que, anualmente, todo dia 3 de março a entidade global se mobiliza em torno do Dia Mundial da Audição. Nesta edição de 2024, o tema central é Mudando Mentalidades (“Changing Mindsets”), e destaca a importância da manutenção da audição ao longo da vida.

A partir do lema “Para ouvir por muito tempo, ouça com cuidado”, a OMS pretende chamar a atenção da sociedade para entendimentos equivocados que comprometem a adoção de protocolos mais efetivos de combate e prevenção aos problemas auditivos.

Com Assessorias

 

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