Excesso de antibiótico animal traz efeitos devastadores à saúde e meio ambiente

Mais de 80% dos antibióticos usados em animais não têm finalidade terapêutica. Isso gera dificuldade de tratar resistência antimicrobiana

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O uso indiscriminado de antibióticos em animais de criação tem ultrapassado em grande medida o consumo na medicina humana, representando entre 60% e cerca de 75% do uso global desses medicamentos. Isso é motivo de preocupação para a saúde pública, uma vez que a resistência antimicrobiana (RAM) torna-se cada vez mais difícil de tratar, causando um aumento significativo do custo global de saúde e, em muitos casos, em mortes evitáveis.

Os dados constam de um estudo desenvolvido pela ONG  Proteção Animal Mundial, em parceria com a Universidade de Bolonha, sobre o uso excessivo de antibióticos na pecuária industrial intensiva que revela os efeitos devastadores da RAM na saúde humana, meio ambiente e sociedade. O levantamento foi apresentado no seminário “Enfrentando a resistência antimicrobiana: evidências para avançar em uma saúde única”, que reuniu especialistas e profissionais da área da saúde para discutir os conceitos e desafios relacionados à resistência antimicrobiana (RAM), nesta quinta-feira (3/8).

“Os resultados desse estudo são um alerta urgente para a problemática do uso de antibióticos na pecuária industrial intensiva. A resistência antimicrobiana é uma ameaça à saúde pública e precisa ser enfrentada com ações concretas e imediatas”, enfatiza Karina Ishida, coordenadora de Campanhas de Sistemas Alimentares da Proteção Animal Mundial.

O material aponta que a grande maioria (80%) dos antibióticos utilizados em animais de criação é administrado em concentrações não terapêuticas. “A disseminação da RAM pode ser diretamente atribuída ao uso não terapêutico de antibióticos em animais, como promotores de crescimento e de forma preventiva. Isso coloca em risco não apenas a saúde humana, mas também o bem-estar animal e o meio ambiente”, completa a executiva.

O estudo se concentrou nas três principais espécies terrestres (bovinos, suínos e aves) e nas seis principais espécies aquáticas (carpa, bagre, salmão, camarão, tilápia e truta) criadas em fazendas industriais, com base nas estatísticas da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). A pesquisa foi realizada em realizada em sete regiões geográficas: Leste Asiático e Pacífico, Europa e Ásia Central, América Latina e Caribe, Oriente Médio e o Norte da África, América do Norte, Sul Asiático e África Subsaariana

O levantamento revelou ainda que, entre 2018 e 2020, as fazendas industriais foram responsáveis ​​pela produção global de aves (74,4%), suínos (66,9%) e bovinos (41,9%), com consumo anual de 80.541 toneladas de antibióticos, sendo que 58,5% (47.156 toneladas) foram utilizadas nessas fazendas.

“Os resultados desse estudo são alarmantes e devem servir como um chamado urgente para uma ação efetiva. O uso excessivo de antibióticos na pecuária industrial intensiva representa uma ameaça crescente à saúde humana e animal, e exige uma resposta coordenada e abrangente de todas as partes interessadas. É essencial que o governo, a indústria e a sociedade como um todo trabalhem juntos para adotar práticas sustentáveis ​​e responsáveis ​​na produção animal, a fim de garantir a preservação da eficácia dos antibióticos e proteger a saúde de todos”, completa Karina.

A RAM causou em 2019, a nível global, 403 mil mortes atribuíveis e 1,6 milhão de mortes associadas, gerando uma carga de 13,65 milhões de DALYs (número de mortes e anos de vida ajustados à deficiência (Disability-Adjusted Life Years) atribuíveis e 56,84 milhões de DALYs associados. A pecuária industrial foi quantificada como principal contribuinte, associada a 975 mil mortes e 33,5 milhões de DALYs.

Como combater o uso excessivo de antibióticos na produção animal

O estudo conclui que é possível reduzir significativamente o uso excessivo de antibióticos em fazendas industriais globalmente nas próximas décadas, mesmo após o crescimento populacional e do comércio internacional de produtos de origem animal. A experiência europeia demonstra que essa redução é viável, e o cenário mais racional de uso de antibióticos pode levar a economias globais de até 17,7 trilhões de dólares entre 2019 e 2050 em perdas de produtividade e custos associados à resistência antimicrobiana (RAM).

Para combater o uso excessivo de antibióticos na produção animal, as medidas recomendadas pelo Plano de Ação Global podem trazer resultados efetivos. É essencial investir em novos antimicrobianos e explorar alternativas aos antibióticos em risco de obsolescência devido à RAM nas fazendas, como vacinas, prebióticos, probióticos e outras soluções inovadoras. O uso de antibióticos como promotores de crescimento e tratamentos preventivos devem ser gradualmente eliminados globalmente, enquanto a restrição estrita deve ser imposta ao uso de antibióticos de importância críticae antibióticos altamente importantes.

A melhoria do bem-estar animal, a biossegurança pecuária e outras práticas de prevenção de doenças são fundamentais para reduzir o uso excessivo de antibióticos na pecuária industrial, e experiências de países que adotaram medidas mais rigorosas indicam que isso é possível sem sintomas negativos.

Além disso, é importante estabelecer regulamentações e métricas harmonizadas para monitorar e rastrear o uso de antibióticos nas fazendas, garantindo a transparência da cadeia de abastecimento de alimentos em relação a essa questão. Isso permitirá que os consumidores façam escolhas conscientes ao adquirir produtos de origem animal. A cooperação entre o governo, a indústria farmacêutica e o pesquisador é fundamental para combater a resistência antimicrobiana e proteger a saúde humana, animal e ambiental a longo prazo.

Para mais informações e detalhes sobre o estudo, acesse aqui

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