A revogação do edital para novos cursos de medicina pelo Ministério da Educação (MEC), anunciada nesta quarta-feira (11/2), traz à tona um debate que vai além das salas de aula: a má distribuição de profissionais pelo território nacional. Se o Exame Nacional do Ensino Médico (Enamed) surge para garantir que o médico formado tenha a proficiência necessária, dados recentes mostram que a quantidade de registros profissionais no Brasil não tem sido suficiente para resolver o isolamento sanitário de diversas regiões.

De acordo com o estudo Demografia Médica no Brasil 2025, o país alcançou a marca de 3,08 médicos por 1.000 habitantes, um índice que, em números absolutos, é considerado adequado internacionalmente. No entanto, o problema reside na concentração, acentuando as desigualdades sociais entre as regiões do país. Enquanto o Sudeste ostenta uma média de 3,77, estados como o Maranhão (1,27) e o Pará (1,37) enfrentam uma escassez que compromete a Atenção Primária à Saúde.

A revogação do edital, sob este prisma, funciona como uma pausa necessária. O objetivo é impedir que o mercado educacional continue se expandindo sem a garantia de que esses novos profissionais estarão aptos (critério do Enamed) e motivados a atender as regiões mais vulneráveis da Amazônia Legal, do Nordeste e do Centro-Oeste, onde a carência de especialistas como pediatras e psiquiatras é crônica.

Desigualdade médica em números (Razão por 1.000 hab.)

Região / Estado Densidade Médica
Média Nacional 3,08
Região Sudeste 3,77
Região Norte 1,70
Maranhão 1,27
Pará 1,37

Fonte: Demografia Médica no Brasil 2025

O perigo da “medicina de baixa qualidade” para o interior do Brasil

Um levantamento detalhado sobre os resultados do Enamed aponta uma correlação preocupante: muitas das vagas abertas nos últimos anos em municípios remotos — sob a justificativa de interiorização — pertencem a instituições que hoje figuram na lista das 30% com desempenho insuficiente.

Essa evidência dá sustentação técnica à decisão do MEC de revogar o edital de 2023. Abrir cursos em regiões carentes através de instituições que não conseguem garantir a proficiência mínima de seus alunos cria uma “medicina de duas velocidades”: profissionais bem preparados nos grandes centros e médicos com formação deficitária no interior.

A manutenção do rigor avaliativo é, portanto, uma questão de ética pública. Como aponta a Demografia Médica 2025, estados como Maranhão e Pará já sofrem com a baixa densidade de profissionais. Se esses poucos médicos que chegam à ponta não possuem a formação validada por critérios rigorosos, a população local é duplamente penalizada.

O gargalo da interiorização: como convergir qualidade e gestão?

Apesar do aumento no número de profissionais com os novos cursos de Medicina, vazios assistenciais persistem; especialistas defendem que a qualidade da formação deve vir acompanhada de políticas de fixação.

Para o médico cardiologista Anis Mitri, presidente da AHOSP, o foco excessivo na abertura de vagas privadas pode ter mascarado a falta de um projeto nacional de valorização e fixação. “O grande gargalo não é apenas quantos médicos formamos, é onde estes profissionais estão”, alerta o cardiologista.

A entidade aponta que municípios com menos de 20 mil habitantes sofrem com índices inferiores a 1 médico por 1.000 habitantes. Para a AHOSP, a solução para os vazios assistenciais não passa apenas pela abertura de cursos em cidades menores — o que o MEC agora tenta reordenar sob critérios mais rígidos — mas sim por um conjunto de fatores:

  • Remuneração justa e carreira: Incentivos financeiros para áreas remotas.

  • Infraestrutura hospitalar: Condições técnicas para que o médico possa exercer a profissão com segurança.

  • Segurança e desenvolvimento: Oportunidades de crescimento profissional fora das grandes capitais, que hoje concentram mais de 50% dos médicos brasileiros.

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O fator AHOSP: infraestrutura é o que fixa

Embora o MEC atue na porta de entrada (a formação), a AHOSP traz o alerta sobre a porta de saída. O reconhecimento das deficiências na distribuição de médicos feito pelo Dr. Anis Mitri reforça que o diploma, por si só, não fixa o profissional, como entende o MEC.

A entidade argumenta que, mesmo que o Enamed garanta um médico de excelência, ele não permanecerá no interior se encontrar:

  1. Falta de rede de apoio: Ausência de exames diagnósticos e especialistas para interconsultas.

  2. Insegurança jurídica e trabalhista: Contratos precários e falta de planos de carreira.

  3. Isolamento técnico: Dificuldade de atualização científica continuada.

Uma política de Estado, não de governo

A convergência entre o rigor do MEC (apoiado por este portal) e as demandas estruturais da AHOSP aponta para um único caminho: o Brasil precisa de uma política de Estado para a medicina.

A revogação do edital deve ser o ponto de partida para um novo modelo que condicione a abertura de vagas não apenas à existência de um hospital de ensino, mas à qualidade comprovada e a um plano de carreira que garanta que o médico chegue — e fique — onde o povo brasileiro mais precisa.

O rigor do MEC e do Ministério da Saúde com a aplicação do Enamed como critério para evitar a criação de novos cursos de Medicina é o alicerce para essa transformação. Um médico bem formado é a base do sistema, mas, como aponta a Associação de Hospitais e Serviços de Saúde do Estado de São Paulo (AHOSP), a “vontade política” para criar condições dignas de trabalho é o que garantirá que a qualidade chegue, de fato, à ponta do sistema.

Donos de hospitais alertam para “improviso” na avaliação médica

Entidade paulista critica a centralização da qualidade em um único exame e aponta insegurança jurídica na aplicação do Enamed

Se por um lado o Ministério da Educação (MEC) utiliza os resultados do Enamed para justificar o freio na abertura de novas vagas, por outro, o setor de serviços de saúde demonstra preocupação com o método utilizado na avaliação. Apesar do apoio de diversos setores à rigidez do MEC, logo após a medida publicada em DO, a entidade que representa os hospitais e clínicas privadas de São Paulo divulgou uma nota manifestando preocupação com a forma de condução do exame.

Para a Ahosp, o processo carece de “maturidade técnica” e critica o que classifica como uma condução “apressada”.  O presidente da entidade, Anis Mitri, aponta que inconsistências operacionais e anulações de questões no exame geram insegurança jurídica para as instituições.

A qualidade de um curso é um ecossistema complexo que não pode ser reduzido ao desempenho dos alunos em uma única prova. Ele também critica a divulgação tardia da metodologia de cálculo das notas. “Avaliar bem exige método, transparência e diálogo”, argumenta Mitri, em nota divulgada nesta quinta-feira (12/2).

Críticas ao rigor metodológico e segurança jurídica

A principal queixa da entidade recai sobre a falta de transparência. Segundo a AHOSP, os parâmetros de proficiência e a metodologia de cálculo das notas só foram tornados públicos após a aplicação do exame, o que fere princípios de previsibilidade.

Avaliar estudantes e instituições por critérios que não eram conhecidos no momento da prova compromete a segurança jurídica”, destaca Dr. Anis Mitri.

A associação listou pontos críticos que, em sua visão, fragilizam a confiança no sistema:

  • Centralização excessiva: A avaliação ignora outros pilares do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES), como corpo docente e infraestrutura.

  • Falhas operacionais: Anulação de questões, alterações posteriores na nota de corte e inconsistências admitidas pelo próprio Inep.

  • Desigualdade na amostra: Diferenças no tempo de formação entre os estudantes avaliados na mesma edição.

Defesa de uma regulamentação sem improvisos

A AHOSP reforça que não é contrária à regulamentação do setor ou à existência de avaliações, mas defende que o processo exige diálogo com instituições de ensino e entidades médicas. A entidade argumenta que focar exclusivamente no resultado do aluno ignora o compromisso com a pesquisa e a assistência à população que muitas instituições mantêm.

O alerta da associação surge em um momento em que o MEC sinaliza utilizar o desempenho no Enamed como régua para futuras autorizações. Para os representantes dos hospitais paulistas, “avaliar bem exige método e transparência”, evitando que a política de formação médica seja guiada por improvisações.

Entenda as visões divergentes

Ponto de Vista Ministério da Educação (MEC) AHOSP
Papel do Enamed Principal indicador de qualidade para autorizar ou suspender vagas. Indicador limitado; não deve substituir a análise estrutural dos cursos.
Causa do problema Expansão desenfreada e judicialização das vagas de Medicina. Falta de método, transparência e diálogo na implementação da prova.
Solução proposta Revogação de editais e critérios mais rígidos de entrada. Planejamento, previsibilidade e respeito ao tempo de adaptação das instituições.

Com Assessorias

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