Uma década após o início da emergência sanitária que assombrou o Brasil, pesquisadores brasileiros publicaram o maior e mais detalhado estudo já realizado sobre as sequelas do zika vírus em crianças.

O estudo, que acompanhou 843 crianças, surge como um marco para entender o rastro de destruição deixado pela epidemia que, entre 2015 e 2016, registrou mais de 3 mil casos confirmados de síndrome congênita no país, concentrados majoritariamente na região Nordeste.

A principal descoberta revela que a microcefalia causada pelo vírus não é apenas um cérebro pequeno, mas um fenômeno de “colapso” cerebral e ósseo: após um período de crescimento normal na gestação, a infecção causa uma destruição celular súbita que faz a estrutura da cabeça desmoronar.

A pesquisa, conduzida pelo Consórcio Brasileiro de Coortes de Zika (ZBC-Consórcio) e publicada no periódico PLOS Global Public Health, reuniu dados de 12 centros de pesquisa das regiões Norte, Nordeste e Sudeste. O grupo analisou crianças nascidas entre 2015 e 2018, consolidando o que hoje é a base de dados mais robusta do planeta sobre o tema.

O espectro da gravidade: números que impressionam

Os resultados detalham a extensão das sequelas enfrentadas pelas famílias brasileiras. De acordo com o estudo, a gravidade se manifesta em múltiplas frentes:

  • Microcefalia severa: 71,3% das crianças já nasceram com microcefalia, sendo que 63,9% destes casos foram classificados como graves.

  • Malformações estruturais: Calcificações cerebrais foram detectadas em 81,7% dos pacientes, e a atrofia cortical atingiu cerca de 50%.

  • Comprometimento neurológico: A epilepsia atinge, em média, 58,3% das crianças, muitas vezes com convulsões de difícil controle medicamentoso.

  • Mortalidade: O estudo trouxe um dado alarmante: cerca de 30% das crianças acompanhadas já faleceram.

Para a pesquisadora Maria Elizabeth Lopes Moreira, do IFF/Fiocruz, o diferencial desta pesquisa é a uniformização das informações. “Agora, a gente tem mais capacidade de dar respostas para o sistema público de saúde”, afirma. Ela ressalta que o cérebro das crianças com zika apresenta uma anatomia muito típica, diferente de microcefalias causadas por outras causas.

O desafio da inclusão e o futuro

As crianças sobreviventes da epidemia de 2015 hoje estão na faixa dos 8 a 10 anos. Muitas enfrentam paralisia cerebral grave e dificuldades extremas de inclusão escolar devido ao déficit de atenção e aprendizagem.

A orientação dos especialistas permanece focada na estimulação precoce. Como o cérebro infantil possui neuroplasticidade, a fisioterapia e a fonoaudiologia são fundamentais para melhorar o prognóstico, mesmo para crianças que foram expostas ao vírus na barriga da mãe, mas nasceram sem a microcefalia aparente.

É uma carga social muito grande para as famílias. Muitas vezes a mãe segue sozinha nessa jornada”, lamenta Maria Elizabeth, reforçando a necessidade urgente de uma vacina para mulheres em idade fértil e de um suporte multidisciplinar vitalício pelo SUS.

Raio-X da Síndrome Congênita do Zika

Dados baseados no estudo com 843 crianças brasileiras (2015-2018)

Condição Analisada Frequência Encontrada
Microcefalia ao nascer 71,3% (destes, 63,9% são casos graves)
Calcificações cerebrais 81,7% (cicatrizes no tecido cerebral)
Ventriculomegalia 76,8% (dilatação dos ventrículos cerebrais)
Alterações oftalmológicas Até 67,1% (comprometimento da visão)
Epilepsia 58,3% (média entre os centros pesquisados)
Atrofia cortical Cerca de 50% (perda de massa cerebral)
Taxa de mortalidade Aproximadamente 30% do grupo estudado

Guia de prevenção e cuidados: o que saber hoje

A principal barreira contra as sequelas é evitar a infecção e, em caso de exposição, agir rapidamente na estimulação do bebê.

1. Proteção para gestantes

Como ainda não existe vacina nem tratamento específico, a prevenção contra o mosquito Aedes aegypti é a única via:

  • Barreiras físicas: Uso constante de repelentes adequados para gestantes e roupas de manga comprida.

  • Ambiente: Preferência por locais com telas em janelas e ar-condicionado.

  • Vigilância: Atenção redobrada a sintomas como febre, manchas vermelhas e dores articulares.

2. O papel da neuroplasticidade e o futuro das crianças

As crianças sobreviventes da epidemia de 2015 hoje estão na faixa dos 8 a 10 anos. Muitas enfrentam paralisia cerebral grave e dificuldades extremas de inclusão escolar. A orientação dos especialistas permanece focada na estimulação precoce.

Como o cérebro infantil possui neuroplasticidade, a fisioterapia e a fonoaudiologia são fundamentais para melhorar o prognóstico, mesmo para crianças que foram expostas ao vírus, mas nasceram sem a microcefalia aparente.

A pesquisadora Maria Elizabeth (IFF/Fiocruz) enfatiza que o cérebro do bebê é capaz de formar novas células através de estímulos externos:

  • Estimulação precoce: Deve começar o mais rápido possível após o nascimento.

  • Equipe multidisciplinar: Fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional são essenciais.

  • Exposição assintomática: Mesmo bebês que nasceram sem microcefalia, mas cujas mães tiveram zika, devem ser acompanhados de perto. O atraso no desenvolvimento pode surgir na fase escolar.

3. Diagnóstico e suporte

  • Dificuldade diagnóstica: Atualmente, a confirmação muitas vezes só ocorre via ultrassom ou após o nascimento, pois não há uma sorologia amplamente disponível que distingua com precisão o zika de outros vírus após a fase aguda.

  • Rede de apoio: É crucial o suporte psicológico e social para as famílias (muitas delas chefiadas por mães solo), dada a alta complexidade do cuidado vitalício.

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Alerta para casos atípicos: o zika em adultos

Enquanto o grande consórcio focou nas sequelas congênitas, outro estudo recente da Fiocruz Bahia, publicado na revista Viruses, acende um alerta para manifestações neurológicas em adultos. Os pesquisadores descreveram um caso raro de rombencefalite (encefalite do tronco encefálico) em uma jovem de 21 anos.

Diferente do quadro em bebês, a paciente — previamente saudável — apresentou confusão mental, dificuldades na fala e convulsões apenas sete dias após os sintomas clássicos (febre e manchas na pele). O caso reforça que o zika possui uma capacidade agressiva de invadir o sistema nervoso central em qualquer idade, exigindo vigilância médica constante em regiões endêmicas.

A corrida pela vacina e a transmissão sexual

Estudos liderados por pesquisadores da USP e da Fiocruz identificaram que o vírus zika pode permanecer ativo no sistema reprodutor masculino por meses, mesmo após o desaparecimento dos sintomas. O sêmen atua como um “reservatório”, permitindo que o vírus seja transmitido sexualmente para parceiras grávidas ou em idade fértil, contornando a proteção física (como repelentes) contra o mosquito.

Além da picada do mosquito, o zika é o único arbovírus (vírus transmitido por insetos) com transmissão sexual comprovada e persistente, o que torna o desenvolvimento de uma vacina ainda mais urgente para o controle da circulação viral

A busca por um imunizante é a grande prioridade da ciência brasileira em 2026. Instituições como o Instituto Butantan, a USP e a Fiocruz testam tecnologias com a Vacina de DNA e as Partículas Semelhantes ao Vírus (VLPs) que prometem ser seguras para mulheres em idade fértil.

Um ponto crucial destacado pelos pesquisadores é que a vacina também poderá barrar a transmissão sexual.  As pesquisas demonstraram, em modelos experimentais, a capacidade de gerar uma resposta imunológica não apenas no sangue, mas também nas mucosas genitais. Isso significa que “a vacina poderia ‘limpar o vírus desses reservatórios, interrompendo a cadeia de transmissão entre parceiros”, explicam os especialistas.

Recomendação atual para casais

Enquanto o imunizante não chega ao SUS — a previsão é para os próximos cinco anos — , as autoridades de saúde reforçam o protocolo de segurança para quem vive em áreas de surto ou viajou para regiões endêmicas.

O uso de preservativos por parceiros de gestantes em áreas de risco segue sendo uma recomendação vital enquanto a vacina não é distribuída. A  recomendação desloca a responsabilidade da prevenção apenas da mulher/gestante e coloca o homem como peça-chave no controle da doença.

  1. Uso de preservativos: Essencial para homens que tiveram sintomas de zika ou residem em áreas com alta infestação, especialmente se a parceira estiver grávida.

  2. Planejamento familiar: Casais que planejam engravidar devem aguardar, se possível, períodos de menor sazonalidade do mosquito ou realizar testes de diagnóstico se houver suspeita de exposição recente.

FAQ: O que você precisa saber sobre o zika hoje

Dúvidas Frequentes” que sintetiza os pontos mais críticos da pesquisa e as orientações atuais das autoridades de saúde.

1. O zika vírus ainda circula no Brasil? Sim. Embora não estejamos vivendo uma emergência sanitária como a de 2015, o vírus continua circulando de forma endêmica. O monitoramento do Ministério da Saúde aponta que o vírus permanece presente em todas as regiões, com picos de casos geralmente associados aos períodos de chuva e calor.

2. Toda grávida que tem zika terá um bebê com microcefalia? Não. Nem toda infecção durante a gravidez resulta em microcefalia. No entanto, o novo estudo brasileiro reforça que existe um “espectro de gravidade”. Algumas crianças podem não apresentar microcefalia ao nascer, mas desenvolver problemas de visão, audição ou atrasos no desenvolvimento motor e cognitivo anos depois.

3. O zika pode ser transmitido sem o mosquito? Sim. O zika é o único arbovírus com transmissão sexual comprovada. O vírus pode permanecer no sêmen por vários meses. Por isso, o uso de preservativos é recomendado para parceiros de gestantes em áreas de risco.

4. Já existe vacina disponível no SUS? Ainda não. Existem várias vacinas em desenvolvimento no Brasil (pelo Instituto Butantan, Fiocruz e USP), mas elas ainda passam por fases de testes clínicos. A previsão mais otimista é que tenhamos um imunizante nacional nos próximos cinco anos. Atualmente, a prevenção baseia-se no combate ao mosquito e uso de repelentes.

5. A criança que nasce sem sintomas aparentes precisa de acompanhamento? Sim. A recomendação da Fiocruz é que toda criança cuja mãe teve exposição confirmada ou suspeita ao zika na gravidez seja acompanhada cuidadosamente pela pediatria até a fase escolar. Isso é fundamental para identificar precocemente dificuldades de aprendizagem ou déficit de atenção.

6. O zika vírus pode afetar adultos de forma grave? Embora seja raro, o zika pode causar complicações neurológicas em adultos, como a síndrome de Guillain-Barré e a encefalite (inflamação do cérebro). Recentemente, pesquisadores da Fiocruz Bahia descreveram casos de rombencefalite em jovens, o que exige atenção médica diante de sintomas como confusão mental e convulsões após quadros virais.

Com informações de agências

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