Uma nota técnica divulgada pelo Observatório de Clima e Saúde (Icict/Fiocruz), preparada em colaboração com a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), aponta que o desastre compromete a rede regional de média e alta complexidade, criando um “efeito cascata” que sobrecarrega hospitais vizinhos e dificulta o acesso de populações vulneráveis.

Além dos danos estruturais, o documento destaca riscos sanitários de curto e longo prazo. Entre as maiores preocupações estão os surtos de doenças infecciosas — como a dengue, que já preocupa o país — e a leptospirose, comum em cenários de inundação.

As recomendações da Fiocruz para fortalecer a resposta do SUS incluem:

  • Intensificação da vigilância epidemiológica para detectar surtos precocemente;

  • Monitoramento rigoroso da qualidade da água e controle de vetores;

  • Mapeamento de unidades de saúde para torná-las mais resilientes a eventos climáticos.

O papel do “socorrista leigo” em emergências

A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) traz um dado revelador sobre a dinâmica de desastres: mais de 50% dos resgates em situações de emergência não são realizados por bombeiros ou profissionais treinados, mas sim por pessoas comuns.

Diante disso, a ONG Humus, com sede em Minas Gerais, reforça a importância de capacitar moradores de áreas de risco. “Essa preparação pode significar a diferença entre a vida e a morte”, afirma o capitão Leonardo Farah, fundador da organização.

Conheça os pontos principais da nota técnica da Fiocruz

Com base na nota técnica do Observatório de Clima e Saúde  aqui está um resumo detalhado dos pontos principais:

Impactos na rede de saúde e efeito cascata

  • Centralidade de Juiz de Fora: O documento destaca que Juiz de Fora é o polo regional de média e alta complexidade para a macrorregião Sudeste de Minas Gerais.

  • Sobrecarga regional: A interrupção de serviços ou a sobrecarga nos hospitais de Juiz de Fora compromete o atendimento de cidades vizinhas, criando um “efeito cascata” que desassiste populações já vulneráveis.

  • Barreiras de acesso: Quedas de barreiras em estradas agravam a situação, dificultando o transporte de pacientes e o fluxo de suprimentos médicos.

Riscos sanitários de curto e longo prazo

  • Doenças infecciosas: Alerta para o surgimento de surtos logo após o desastre, com destaque para doenças transmitidas pela água e por vetores.

  • Agravamento de pacientes crônicos: A dificuldade de acesso a medicamentos e consultas pode desestabilizar pacientes com doenças crônicas.

  • Saúde mental: A nota enfatiza o impacto psicológico profundo sobre os desalojados e desabrigados, exigindo suporte contínuo.

Estratégias de resposta para o SUS

A Fiocruz recomenda medidas imediatas para as três esferas de gestão (Municipal, Estadual e Federal):

  • Vigilância ativa: Intensificar a detecção precoce de surtos e o monitoramento da qualidade da água para consumo humano.

  • Logística de insumos: Garantir o envio ágil de medicamentos estratégicos para as áreas afetadas.

  • Resiliência estrutural: Mapear unidades de saúde em áreas de risco para planejar novas localizações que sejam resilientes a eventos climáticos extremos.

Planejamento e adaptação climática

  • Gestão do território: O documento conclui que a tragédia não é apenas um fenômeno natural, mas resultado de falhas históricas no planejamento urbano e na gestão do território.
  • Políticas de adaptação: Reforça a necessidade urgente de fortalecer políticas públicas voltadas para a prevenção e adaptação climática sob a ótica da saúde

Por que treinar moradores das áreas de risco?

  • Instinto de sobrevivência e solidariedade: Em momentos críticos, como inundações e deslizamentos, moradores são os primeiros a agir para salvar familiares e vizinhos, movidos pelo instinto ou por proximidade física.

  • O risco da falta de preparo: A ausência de treinamento técnico coloca em risco tanto a vida de quem tenta ajudar quanto a de quem está sendo resgatado. Sem protocolos, o socorrista improvisado pode se tornar uma nova vítima do desastre.

  • Invisibilidade de públicos vulneráveis: A falta de informação dificulta o atendimento a pessoas com necessidades específicas, como autistas, pessoas com deficiência auditiva ou mobilidade reduzida. Estes grupos muitas vezes não sabem como reagir a alertas, e o socorrista leigo raramente sabe como manejá-los adequadamente.

A urgência do preparo comunitário e prevenção

Diante dessa realidade, a recomendação da USAID e de organizações como a Humus é que a prevenção não deve ficar restrita aos órgãos oficiais.

  • Rede de proteção: É necessário investir na formação de “Agentes Capazes” dentro das próprias comunidades. Quando professores e líderes locais recebem treinamento em primeiros socorros e gestão de desastres, a taxa de sobrevivência aumenta significativamente.

  • Inteligência emocional: A preparação envolve não apenas força física, mas o controle emocional para tomar decisões rápidas sob pressão.

Este cenário reforça o pilar da Saúde Única (One Health) ao demonstrar que uma comunidade resiliente e preparada é a primeira barreira de defesa contra os impactos de eventos climáticos extremos, protegendo a integridade humana em simbiose com o ambiente onde vivem.

Com informações da Agência Fiocruz e da ong Humus

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