Notícias recentes como a morte da cantora Ângela Ro Ro, e a nova internação do apresentador Fausto Silva, o Faustão, ambos de 75 anos, chamaram a atenção para uma condição altamente grave e letal: a sepse, também conhecida como infecção generalizada. Resultado de uma resposta exagerada do organismo a uma infecção, a doença pode evoluir de uma forma rápida e se disseminar por todo o organismo, comprometendo órgãos vitais e, em muitos casos, levando à morte por choque séptico.
Com elevada taxa de subdiagnóstico, a sepse é uma das condições de saúde mais letais do mundo e uma das principais causas de morte evitável nos hospitais, porém, ainda pouco conhecida pela população. Segundo estimativas globais da Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 11 milhões de pessoas morrem todos os anos em decorrência da doença, número superior às mortes causadas por câncer de mama, próstata e HIV somadas.
O estudo Sepse um problema e saúde pública, do Instituto Latino-Americano de Sepse (ILAS), estima que 50 milhões de pessoas sejam afetadas anualmente em todo o mundo. Mas a quantificação de casos no mundo ainda é bem escassa, principalmente, em países com médio e baixos recursos, onde ocorrem cerca de 85% dos casos.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, para cada 1.000 pacientes hospitalizados, estima-se que 15 desenvolverão sepse como complicação dos cuidados de saúde. Os últimos dados da OMS, em 2020, apontam registros de 48,9 milhões de casos e 11 milhões de mortes, representando 20% de todos os óbitos globais.
No Brasil, estudos mostram que quase metade das internações por sepse resultam em óbito — com uma taxa de mortalidade geral de 46,3% e chegando a 64,5% entre pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs).
Quase metade dos casos estimados de sepse ocorreu em crianças
Neste Dia Mundial de Prevenção da Sepse (13), a Sobrasp – Sociedade Brasileira para a Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente – destaca a importância da prevenção da sepse em recém-nascidos e crianças. Quase metade dos casos estimados de sepse ocorreu em crianças com menos de cinco anos (aproximadamente 20 milhões).
No Brasil, segundo dados preliminares de 2024 do Ministério da Saúde, por meio do Sistema de Informações Hospitalares (SIH) do SUS, foram registrados 7,7 mil atendimentos por sepse em recém-nascidos e 9,8 mil em crianças. No mesmo período, informações preliminares do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) apontam 2,7 mil óbitos infantis por sepse no país.
Embora qualquer pessoa possa desenvolver sepse, entre os mais vulneráveis estão as crianças pequenas, recém-nascidos, idosos e pacientes com doenças crônicas ou câncer. A atenção redobrada para esses grupos é fundamental”, alerta Fernanda Pimentel, diretora médica da Baxter para a América Latina.
Essa condição também ocupa a terceira posição entre as causas de morte materna. O subdiagnóstico é comum porque os sintomas podem se confundir com alterações normais da gestação ou outras condições clínicas.
O diagnóstico precoce e o manejo adequado são medidas decisivas para reduzir a mortalidade. A Sobrasp destaca que a identificação e o tratamento são parte fundamental das estratégias de segurança do paciente em todo o país”, comenta Claudia Vidal, infectologista e membro da SOBRASP.
Maioria dos casos é de infecções hospitalares
A sepse continua sendo um desafio de saúde pública mundial que exige atenção em todas as etapas. Ampliar o conhecimento sobre a doença, investir em diagnóstico precoce e assegurar tratamentos eficazes e seguros nos hospitais são medidas que fazem diferença tanto na redução da mortalidade quanto na recuperação total dos pacientes.
A doença pode se manifestar tanto a partir de infecções adquiridas na comunidade — como pneumonias, infecções urinárias e de pele — quanto em ambientes hospitalares, especialmente por infecções associadas a procedimentos invasivos ou internações prolongadas.
A sepse é, geralmente, causada por infecções bacterianas, mas pode resultar de outras infecções, como vírus, parasitas ou fungos. Na maioria dos casos, é adquirida em ambientes de assistência à saúde, sendo as Infecções relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS), um dos eventos adversos mais frequentes durante a prestação de cuidados.
Resistência antimicrobiana é a principal causa
A OMS considera tanto a sepse quanto a resistência aos antimicrobianos prioridades globais de saúde pública. Bactérias resistentes tornam medicamentos ineficazes, colocando em risco até procedimentos médicos de rotina. Quase todos os países da América Latina já contam com planos nacionais e orçamentos voltados a enfrentar o problema, em iniciativas que envolvem ciência, políticas públicas e conscientização da sociedade.
As infecções associadas à assistência à saúde são provocadas por patógenos frequentemente resistentes a antimicrobianos e podem levar rapidamente à piora das condições clínicas. A resistência antimicrobiana é um fator importante que dificulta a resposta clínica ao tratamento e acelera a evolução para sepse e choque séptico. Pacientes com sepse e patógenos, de difícil combate, apresentam maior risco de mortalidade hospitalar.
Sintomas podem ser confundidos com outras doenças
A sepse ocorre quando uma infecção que poderia ser controlada se dissemina e desencadeia uma reação desproporcional do sistema imunológico. Em vez de proteger, essa resposta inflamatória exacerbada compromete o funcionamento do organismo, alterando a circulação sanguínea e dificultando a chegada de oxigênio e nutrientes aos tecidos.
A doença ocorre quando o corpo reage de forma desregulada a uma infecção. Como consequência, órgãos e tecidos vitais podem perder sua função de maneira progressiva. Os sinais de alerta mais comuns incluem febre ou hipotermia, aceleração dos batimentos cardíacos, respiração rápida ou ofegante, pressão baixa, redução da produção de urina, confusão mental e dores no corpo.
Os sintomas muitas vezes se confundem com os de outras enfermidades, atrasando o diagnóstico e reduzindo as chances de recuperação. Essa resposta exagerada do corpo a uma infecção pode levar à falência de órgãos e morte se não for identificada rapidamente.
Cuidados com a prevenção começam com hábitos simples
A prevenção da sepse envolve ações que vão desde hábitos simples – como a lavagem correta das mãos – até protocolos clínicos rigorosos. Na comunidade, a vacinação, higiene adequada e atenção aos primeiros sinais de infecção são essenciais para reduzir o risco de evolução para quadros graves.
Nos hospitais, a adoção de um controle rigoroso de cateteres e dispositivos invasivos, protocolos de higiene, monitoramento clínico contínuo, contribui para impedir que infecções evoluam para sepse.
Prevenir essa condição exige vigilância em todas as etapas do cuidado. A conscientização e a prevenção combinadas podem salvar vidas e reduzir complicações”, reforça Fernanda Pimentel.
A importância do diagnóstico precoce
O diagnóstico precoce da sepse é decisivo para a sobrevida do paciente e começa pela avaliação clínica, que exige do profissional de saúde a capacidade de reconhecer rapidamente sinais de disfunção orgânica. Exames laboratoriais, como análises de sangue, complementam essa etapa ao apontar o agente infeccioso envolvido.
Uma vez identificada a condição clínica, o tratamento deve ser iniciado sem demora, com uma abordagem terapêutica ampla e precisa, considerada a medida central de controle da doença”, afirma Dra. Fernanda.
Triagem rigorosa, monitoramento contínuo dos sinais vitais e protocolos padronizados são essenciais para detecção precoce e tratamento imediato, incluindo administração de antibióticos e suporte clínico adequado.
Tratamentos integrados salvam vidas
Prevenção, diagnóstico precoce e suporte hospitalar são essenciais para reduzir mortalidade relacionada à infecção generalizada
O manejo eficaz da sepse depende também da integração entre protocolos clínicos e tecnologias avançadas. Sistemas de monitoramento contínuo permitem acompanhar alterações no paciente em tempo real, detectar disfunções orgânicas e orientar intervenções rápidas.
Ferramentas como sistemas de monitoramento hemodinâmico, soluções de fluidoterapia em sistemas fechados e até mesmo tecnologias conectadas ao leito ajudam a equipe de saúde a tomar decisões precisas e seguras, aumentando a chance de recuperação e a segurança do paciente durante todo o tratamento.
Mesmo após a alta hospitalar, o cuidado deve continuar. “A reabilitação precoce, o acompanhamento multidisciplinar e a vigilância constante são essenciais para prevenir novas infecções e minimizar sequelas físicas, cognitivas e psicológicas”, finaliza a médica.
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Estratégia para contenção da sepse
Em 2024, foi lançada a Agenda Global para Sepse como a primeira estratégia global com ações e metas a serem alcançadas até 2030, apoiada por mais de 70 organizações e parceiros em todo o mundo. A estratégia é reduzir a incidência global em 25%; aumentar a taxa de sobrevida em 20% e reduzir o custo médio/paciente-sepse/país em 20%.
A agenda é baseada em cinco pilares: O primeiro é a liderança política e a cooperação multilateral, com a meta de que 80% dos países de alta renda e 50% dos países de renda média e baixa adotem Planos Nacionais de Ação para a Sepse.
O segundo pilar foca na preparação dos sistemas de saúde para oferecer atenção adequada à sepse e suas sequelas. Em terceiro lugar, destaca-se a importância da mobilização social, promovendo a conscientização sobre a doença entre o público geral, políticas, com campanhas consistentes e o envolvimento direto de sobreviventes e familiares de pacientes.
O quarto pilar incentiva a pesquisa e a inovação para ampliar o conhecimento e o combate à sepse. Por fim, o quinto reforça a necessidade de incluir o manejo clínico da sepse no contexto de pandemias e outras emergências de saúde pública, garantindo uma resposta integrada e eficiente.
Quem está mais suscetível à sepse?
Pode afetar qualquer pessoa, mas os idosos, grávidas, recém-nascidos, crianças, imunocomprometidos e pessoas com outros problemas de saúde têm maior risco.
Principais sintomas em recém-nascidos:
● Temperatura corporal instável (febre alta ou hipotermia).
●Muitas vezes o neonato pode apresentar apatia, irritabilidade, letargia, dificuldade para se alimentar e sucção reduzida.
● Atenção a sinais de circulação: pele fria, pálida ou manchas roxas e má perfusão periférica.
●Outros sintomas podem incluir vômitos, diarreia, inchaço na barriga e icterícia (amarelamento da pele e dos olhos).
Principais sintomas em crianças:
● Temperatura corporal geralmente mais elevada.
● Possíveis vômitos e diarreia persistentes, redução na quantidade de urina, confusão, tontura e desconforto extremo.
● Respiração rápida, dificuldade para respirar ou sensação de falta de ar.
Como evitar:
● Higiene das mãos como medida mais eficaz e simples para a prevenção de infecções.
● Vacinação conforme o calendário.
● Diagnóstico correto e precoce
● Tratamento apropriado e oportuno
● Melhoria do saneamento básico e acesso à água potável de qualidade, como condição básica para a prevenção de infecções na população.
Tratamento:
● Ao apresentar qualquer um destes sintomas, procure avaliação médica para diagnóstico adequado e precoce da sepse.
●Profissionais de saúde devem buscar a fonte de infecção para iniciar o tratamento, que pode incluir antimicrobianos.
● A resistência aos antibióticos pode dificultar o tratamento.
Com Assessorias





