Embora o calendário oficial brasileiro de campanhas de saúde destaque o Fevereiro Roxo (Alzheimer, Lúpus e Fibromialgia) e o Fevereiro Laranja (Leucemia), o mês também é marcado por iniciativas voltadas à saúde do coração, especialmente à conscientização sobre as doenças cardiovasculares em mulheres, especialmente AVC (Acidente Vascular Cerebral) e infarto agudo do miocárdio.
Um exemplo é a campanha global Go Red For Women, liderada pela American Heart Association, que ocorre no início de fevereiro e reforça a importância da prevenção e do diagnóstico precoce. O tema também chama a atenção em março, mês internacional das mulheres diante das estatísticas globais e no Brasil.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reforça que, globalmente, mais de 7 milhões de mulheres morrem todos os anos em decorrência de doenças cardiovasculares, ressaltando a urgência de estratégias integradas de prevenção, promoção da saúde e educação.
É um mito persistente que doenças do coração atingem mais os homens. A verdade é que as mulheres também infartam e muitas vezes seus sintomas podem ser diferentes ou menos reconhecidos, o que dificulta a detecção precoce. Prevenção e diagnóstico em tempo adequado salvam vidas”, afirma Carlos Gun, diretor da Divisão de Ensino e Científica do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, um dos principais centros de referência na especialidade do país.
Também professor do curso de Medicina da Universidade Santo Amaro (Unisa), o cardiologista destaca que fatores de risco tradicionais — como hipertensão, colesterol elevado, obesidade, diabetes e sedentarismo — precisam ser monitorados com atenção, mas em mulheres há também condicionantes associados à transição hormonal, gestação e condições metabólicas específicas que exigem vigilância cuidadosa ao longo da vida.
Perimenopausa pode aumentar risco de obesidade e doenças cardiovasculares
Mudanças corporais comuns na perimenopausa podem ter explicações além do estilo de vida. Ginecologista comenta pesquisa internacional recente e destaca os impactos hormonais no peso e na saúde do coração.
Uma pesquisa internacional recente, publicada na revista American Journal of Preventive Cardiology, acende um alerta importante para a saúde feminina. A perimenopausa, fase de transição que antecede a menopausa, pode representar um período de maior vulnerabilidade ao ganho de peso, acúmulo de gordura abdominal e aumento do risco cardiovascular.
De acordo com o estudo, mesmo quando o ganho de peso total é pequeno, ocorrem mudanças significativas na composição corporal. Há uma tendência maior ao acúmulo de gordura visceral, aquela localizada na região abdominal e associada a problemas metabólicos e cardiovasculares, ao mesmo tempo em que diminui a gordura considerada mais protetora em regiões como quadris e coxas.
Para Alexandra Ongaratto, médica especializada em ginecologia endócrina e climatério e diretora técnica do Instituto GRIS, especializado em Ginecologia, a pesquisa reforça uma percepção cada vez mais presente na prática clínica.
Muitas mulheres chegam ao consultório relatando mudanças corporais que parecem desproporcionais aos hábitos de vida. Este estudo ajuda a mostrar que não se trata apenas de estilo de vida, mas de um período de grande transformação hormonal e metabólica que precisa ser compreendido com mais sensibilidade”, afirma.
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30 milhões de brasileiras estão no climatério ou na menopausa
Embora a pesquisa seja internacional, os dados dialogam diretamente com a realidade brasileira. Segundo estimativas do IBGE, cerca de 30 milhões de mulheres no Brasil estão na faixa etária do climatério e da menopausa. Apesar disso, apenas cerca de 238 mil mulheres receberam diagnóstico pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o que representa aproximadamente 7,9% da população feminina
Já a revista científica Climacteric aponta que 82% das brasileiras nessa fase apresentam sintomas que impactam a qualidade de vida, evidenciando a necessidade de ampliar o acesso à informação e ao cuidado especializado, conforme dados divulgados pela Agência Senado.
Os pesquisadores destacam que as alterações hormonais características dessa fase influenciam o metabolismo, o apetite, a qualidade do sono e o nível de atividade física, criando um cenário que favorece o ganho de peso e alterações metabólicas.
Além disso, o estudo apresenta um caso clínico que sugere que alguns medicamentos, mesmo aqueles normalmente associados a ganhos de peso leves, podem ter efeitos mais intensos quando utilizados durante a perimenopausa. Segundo Alexandra, esse é um ponto que merece atenção tanto de profissionais de saúde quanto das próprias pacientes.
A perimenopausa é uma janela de maior sensibilidade do organismo. Intervenções medicamentosas, mudanças emocionais e alterações na rotina podem ter impactos metabólicos mais intensos do que em outras fases da vida. Por isso, o cuidado precisa ser individualizado e atento ao contexto da mulher”, explica.
A importância do acompanhamento precoce
Outro ponto importante é que essas mudanças podem ocorrer independentemente do envelhecimento natural, reforçando a necessidade de atenção específica à saúde cardiometabólica das mulheres nessa fase da vida. Segundo os autores, a perimenopausa ainda é um período sub-reconhecido como janela crítica de cuidado preventivo.
Para a médica, a principal mensagem é a importância da informação e do acompanhamento precoce. “Quando a mulher entende que essa fase envolve mudanças fisiológicas reais, ela consegue buscar apoio com menos culpa e mais consciência. O acompanhamento adequado permite antecipar riscos, ajustar hábitos e preservar a saúde cardiovascular e metabólica ao longo dos anos”, destaca.
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Maior desafio é o desconhecimento dos sintomas
As doenças cardiovasculares permanecem entre as principais causas de morte no Brasil, atrás apenas dos diferentes tipos de câncer, segundo dados consolidados de entidades de saúde. Nesse contexto, ações de conscientização ao longo de todo o ano contribuem para ampliar o debate sobre fatores de risco, sintomas e cuidados contínuos com a saúde do coração.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), as doenças do coração e da circulação são responsáveis por cerca de 400 mil mortes por ano no país, o que representa aproximadamente 30% de todos os óbitos registrados. Na prática, são mais de mil mortes por dia, muitas delas evitáveis com informação, acompanhamento médico regular e mudanças no estilo de vida.
Tanto entre homens como entre mulheres, o desconhecimento dos sintomas iniciais ainda é um dos maiores entraves para o tratamento eficaz. Neste sentido, a conscientização é um passo essencial em saúde pública.
Muitos pacientes associam os problemas cardíacos apenas à dor intensa no peito, mas os sinais podem ser mais sutis e, justamente por isso, acabam sendo ignorados”, alerta o médico.
Segundo o especialista, alguns sintomas exigem atenção imediata e não devem ser subestimados. “Dor ou pressão no peito, que pode irradiar para o braço esquerdo, costas, pescoço ou mandíbula, falta de ar repentina, cansaço fora do habitual, tontura, suor frio e náuseas são sinais clássicos de alerta”, explica o cardiologista.
Carlos Gun chama atenção ainda para manifestações menos evidentes, especialmente em alguns grupos. “Mulheres, idosos e pessoas com doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, podem apresentar sintomas atípicos. Desconforto abdominal, dor nas costas ou uma fadiga intensa e súbita podem indicar um evento cardiovascular”, afirma Dr. Carlos Gun.
Acompanhamento médico e prevenção
Além do reconhecimento precoce dos sinais, os especialistas recomendam acompanhamento clínico regular, incentivo a hábitos de vida saudáveis e avaliação cuidadosa do uso de medicamentos com potencial impacto metabólico. Estratégias preventivas podem ajudar a reduzir o risco de obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares a longo prazo.
Carlos Gun reforça que a prevenção contínua é decisiva para reduzir os riscos. “Controlar a pressão arterial, manter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física regularmente, não fumar e realizar check-ups periódicos são medidas simples, mas extremamente eficazes para a saúde do coração”, orienta o cardiologista.
Agenda Positiva
Programação especial no Mês da Mulher
Unisa reforça a prevenção e oferece atendimento médico gratuito à população
Em sintonia com o Mês da Mulher, a Unisa preparou uma programação dedicada à saúde feminina por meio dos programas Unisa em Ação, Unisa Vozes e PAEC – Programa de Atividades Esportivas Extensivas à Comunidade. As ações contam com o envolvimento dos alunos e docentes dos cursos de Biomedicina, Direito, Odontologia, Fisioterapia, Estética e Cosmética e Psicologia, promovendo debates, orientações e atividades de promoção da saúde.
Além disso, a Unisa disponibiliza atendimento à população pelo Serviço-Escola de Psicologia, pelo Hospital-Escola WEVA e pelas policlínicas, que oferecem atendimento médico gratuito em especialidades essenciais para a saúde da mulher — como cardiologia, ginecologia, endocrinologia, nutrição e psicologia — com agendamento pelo telefone (11) 2174-3340 ou pelo e-mail centraldeagendamento@unisa.br.
Com informações da Unisa e Gris


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