O silêncio de um quarto vazio é o som mais ensurdecedor que um pai ou uma mãe pode ouvir. Para Leandro Barboza, esse silêncio durou três dias em dezembro passado, quando seu filho de 10 anos desapareceu após sair para brincar.
É uma agonia que só quem passa dá conta de dizer. Eu pensava o pior”, desabafa o pintor de Curitiba (PR).
O caso de Leandro, felizmente com um final de reencontro, é uma fração de uma estatística alarmante: em 2025, o Brasil registrou 23.919 desaparecimentos de menores de 18 anos — uma média de 66 registros diários.
Os dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) revelam que o sumiço de crianças e adolescentes cresceu 8% em relação a 2024, o dobro do aumento registrado nos casos gerais (4%). Hoje, três em cada dez pessoas que desaparecem no país são jovens que ainda não completaram a maioridade.
O rosto feminino da ausência
Um recorte sensível dos dados oficiais mostra que o desaparecimento infantojuvenil tem gênero. Enquanto no cômputo geral os homens são a maioria dos desaparecidos (64%), quando olhamos apenas para crianças e adolescentes, o cenário se inverte drasticamente: 62% das ocorrências envolvem meninas.
Especialistas apontam que esses números escondem realidades complexas, como fugas de contextos de violência doméstica, exploração e o “desaparecimento estratégico”, quando o jovem foge para sobreviver a abusos.
“Muitos estão fugindo de contextos de violência intrafamiliar e os agentes do Estado precisam ter a sensibilidade de não expô-los novamente a esse cenário”, alerta Simone Rodrigues, coordenadora do Observatório de Desaparecimento de Pessoas no Brasil (ObDes/UnB).
O desaparecimento de um jovem desestabiliza o ecossistema familiar e social, gerando traumas psicológicos profundos e doenças psicossomáticas nos cuidadores. Um ambiente social “doente” — marcado pela violência, falta de saneamento emocional e carência de redes de apoio — é o terreno onde os desaparecimentos florescem. A proteção da criança é, portanto, uma medida de saúde pública preventiva.
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A falha das políticas públicas e o julgamento social
A Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, criada em 2019, ainda enfrenta gargalos estruturais. O Cadastro Nacional, peça-chave para o cruzamento de dados biométricos, só foi efetivamente implementado em 2025 e ainda conta com a adesão de menos da metade dos estados brasileiros.
Sem um sistema unificado, as delegacias de diferentes estados muitas vezes não se comunicam, dificultando a localização de quem atravessa fronteiras estaduais. Enquanto a burocracia caminha a passos lentos, famílias dependem da sorte e da solidariedade de estranhos, como o idoso que reconheceu o filho de Leandro pela internet.
Além da burocracia, as famílias enfrentam o peso do julgamento. Ao procurar ajuda, Leandro sentiu isso na pele ao ser criticado em redes sociais e sofrer até o “preconceito institucional” de autoridades que sugeriram sua responsabilização pelo sumiço do filho.
Existem muitos para julgar e poucos para ajudar. Até na delegacia, um policial me disse que eu e minha esposa poderíamos ser responsabilizados”, lamenta o pai, expondo a falta de acolhimento psicológico para quem já vive o trauma da perda. “Existem muitos para julgar e poucos para ajudar”, lamenta o pai.
A regra da 0 hora: como agir em casos de desaparecimento
Diferente do que dita o senso comum, o tempo é o fator mais crítico. Não espere para agir:
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Registro imediato: Não é necessário esperar 24 ou 48 horas. A Lei Federal nº 11.259/2005 (Lei da Busca Imediata) exige a investigação imediata após a notificação
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Boletim de Ocorrência: Vá à delegacia mais próxima ou utilize a Delegacia Eletrônica do seu estado. Tenha em mãos sempre fotos recentes e claras das crianças e documentos.
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Alerta Amber (se disponível): Verifique se o sistema de alertas em redes sociais (Instagram/Facebook) já está ativo na sua região para disseminar a foto da criança num raio de busca.
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Rede de apoio e solidariedade: Em caso de sumiço, acione imediatamente vizinhos, grupos de familiares e de escolas e grupos de mensagens locais. A divulgação rápida em redes sociais é uma das ferramentas mais eficazes de localização.
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Saúde mental: O acompanhamento psicológico para a família e para o jovem localizado é vital para tratar as causas do desaparecimento e evitar reincidências.
Pilares da prevenção
A prevenção passa por um ambiente familiar saudável e seguro, fortalecendo os vínculos que mantêm a criança protegida:
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Educação protetiva: Ensine a criança a saber o nome completo dos pais e um telefone de contato desde cedo.
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Diálogo humanizado: Crianças que se sentem ouvidas e seguras em casa têm menos chances de protagonizar “desaparecimentos estratégicos” por medo ou abuso.
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Identificação: Garanta que seu filho tenha RG (Carteira de Identidade) emitido. O registro biométrico é a forma mais segura de identificação em todo o território nacional.
Canais de apoio e denúncia
Mantenha estes contatos salvos ou em local visível:
| Canal | Função | Contato |
| Polícia Militar | Emergência e buscas imediatas | 190 |
| Disque 100 | Direitos Humanos (casos de abuso/exploração) | Disque 100 |
| Conselho Tutelar | Apoio em casos de violência familiar | Localize o da sua região |
| Cadastro Nacional | Consulta de pessoas desaparecidas | desaparecidos.gov.br |





