A recuperação da Baía de Guanabara, um dos ecossistemas mais emblemáticos e desafiadores do Brasil, está ganhando um novo fôlego através da participação social direta. Longe das grandes obras de engenharia, são os pescadores, catadores de caranguejo e jovens de comunidades tradicionais que estão liderando a regeneração dos manguezais em municípios como Magé e Guapimirim.
O movimento, impulsionado por projetos como o Andadas Ecológicas e o Projeto Uçá, da ONG Guardiões do Mar, prova que a conservação ambiental é indissociável do bem-estar social e da saúde econômica das populações locais.
A moeda do mangue: inovação e limpeza
Uma das estratégias mais inovadoras para engajar a comunidade de Suruí, em Magé, é a utilização da Moeda Azul, batizada de Mangal. Esta tecnologia social inédita permite o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), transformando os moradores em verdadeiros agentes ambientais.
Moradores e alunos da rede pública que recolhem resíduos sólidos nas margens do Rio Suruí e nos manguezais trocam o material coletado por Mangals, que podem ser utilizados em bazares comunitários. Em apenas dois meses (janeiro e fevereiro de 2026), a ação já retirou 4,5 toneladas de rejeitos da região.
Entendemos a importância de como vale a pena contratar essas comunidades para fazer a limpeza. Elas constatam que a limpeza traz mais produção de peixes e caranguejos e mais qualidade no manguezal”, diz Pedro Belga, presidente da ONG Guardiões do Mar.
O retorno da vida: fauna e flora em recuperação
Os esforços sistemáticos na região intensificaram-se após o desastre ambiental de 2000, causado pelo rompimento de um duto da Petrobras. Desde então, projetos como o LimpaOca e o Uçá (em parceria com o Programa Petrobras Socioambiental) vêm construindo um legado de resiliência, provando que, com monitoramento técnico e apoio comunitário, é possível reverter quadros severos de degradação.

Os resultados práticos da iniciativajá são visíveis para quem navega pelos canais da APA de Guapi-Mirim. O reflorestamento, que utiliza técnicas de transplantio baseadas em saberes tradicionais (com taxa de perda inferior a 6%), permitiu que as árvores atingissem alturas entre 8 e 10 metros. Esse novo habitat trouxe de volta moradores ilustres que haviam desaparecido.
- Aves: Já foram registradas 62 espécies, incluindo a rara figuinha-do-mangue (em risco de extinção) e a batuíra-de-bando, ave migratória do Hemisfério Norte.
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Mamíferos: Capivaras, quatis e tamanduás-mirins voltaram a circular livremente.
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Crustáceos: O aumento da população de caranguejo-uçá e caranguejo-marinheiro garante a segurança alimentar e a renda dos catadores locais.
O desafio invisível: o alerta sobre o mercúrio

Apesar dos avanços na limpeza de resíduos sólidos e no reflorestamento, a Baía de Guanabara ainda enfrenta desafios invisíveis e complexos. Uma pesquisa recente da Universidade Federal Fluminense (UFF) acendeu um sinal de alerta sobre a presença de mercúrio em peixes da região.
O estudo, conduzido pelo Programa de Pós-Graduação em Higiene Veterinária (PPGHIGVET-UFF), analisou oito espécies e amostras de cabelo de pescadores em Magé, Itaboraí e na Ilha do Governador. Embora as concentrações nos peixes estejam dentro do limite legal brasileiro, o acúmulo no organismo humano preocupa:
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Exposição crônica: Em alguns pescadores, os níveis de mercúrio no cabelo chegaram a 3,5 mg/kg, superando o limite de 2 mg/kg indicado pela ONU.
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Variação por espécie: O robalo apresentou as maiores concentrações (0,2218 mg/kg), enquanto a sardinha registrou os níveis mais baixos.
Saúde Única: o equilíbrio entre sustento e segurança
A ciência já demonstra que a saúde humana está intrinsecamente ligada à saúde dos animais e do meio ambiente. Quando o manguezal “respira”, a comunidade ao redor prospera, diminuindo riscos sanitários e fortalecendo economias como o Turismo de Base Comunitária, que depende de um cenário limpo para atrair visitantes.
Para Vida e Ação, a restauração dos manguezais da Baía de Guanabara é um exemplo prático do conceito de One Health (Saúde Única) – a saúde humana, animal e ambiental estão interconectadas. Ao despoluir as águas e recuperar a flora, reduz-se a proliferação de pragas, melhora-se a qualidade do alimento capturado (peixes e crustáceos) e promove-se o equilíbrio sistêmico.
Mas não basta o manguezal estar visualmente limpo e com árvores altas; é preciso que o ecossistema esteja livre de metais pesados provenientes de décadas de descarte industrial e doméstico irregular. A recomendação dos cientistas da UFF não é suspender o consumo, mas praticar o rodízio de espécies, evitando a ingestão frequente de peixes predadores (que acumulam mais metal) para minimizar a exposição crônica.
Atitude sustentável: o que você pode fazer em casa?
Embora o trabalho nos manguezais seja fundamental, a poluição que chega à Baía de Guanabara começa, muitas vezes, nos ralos e lixeiras das nossas casas. Confira dicas práticas de atitude sustentável para evitar que seus resíduos parem no mar:
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Dê o destino certo ao óleo de cozinha: Nunca jogue óleo no ralo da pia. Um litro de óleo pode contaminar até 25 mil litros de água. Armazene em garrafas PET e entregue em postos de coleta ou para cooperativas.
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Reduza o uso de plásticos descartáveis: Canudos, copos e sacolas plásticas são os resíduos mais encontrados nos manguezais (como aponta o projeto LimpaOca). Substitua-os por itens reutilizáveis.
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Atenção ao que vai pelo vaso sanitário: Cotonetes, fios dentais, absorventes e preservativos não se dissolvem e acabam poluindo rios e oceanos, além de entupir redes de esgoto.
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Separe o seu lixo (reciclagem): O lixo que não é reciclado corretamente pode ser carregado pelas chuvas para bueiros e rios que desaguam na baía. Verifique os dias de coleta seletiva no seu bairro.
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Cuidado com produtos químicos: Evite o uso excessivo de produtos de limpeza muito agressivos. Dê preferência a opções biodegradáveis, que impactam menos o tratamento de água.
Com informações da Agência Brasil







