A morte da professora Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, ocorrida no último sábado (7) durante uma aula de natação em uma academia na Zona Leste de São Paulo, trouxe à tona uma discussão urgente sobre a segurança nos ambientes de lazer e prática esportiva. A investigação da Polícia Civil aponta para uma possível intoxicação por gases químicos, que teria sido causada por cloro adulterado.

Juliana era casada com Vinícius de Oliveira, de 31 anos, que também participou de uma aula e está internado em estado grave. Segundo testemunhas, ele percebeu o perigo e gritou para que os colegas abandonassem a aula de natação. Uma das testemunhas creditou sua segurança e a de sua esposa ao alerta dado pelo homem. O sobrevivente afirma que ele e a esposa estão bem “graças a ele”.

Além de Vinicius, outras quatro pessoas apresentaram sintomas. Uma analista contábil de 29 anos chegou a ser internada na UTI após participar da mesma aula de natação. Um adolescente de 14 anos foi hospitalizado com lesões pulmonares. Outras duas pessoas, que não tiveram as identidades divulgadas, também foram encaminhadas a unidades de saúde, mas já receberam alta.

Os alunos que passaram mal após ter contato com a água sentiram um forte cheiro químico na piscina, o que gerou reações como queimação nos olhos e vômitos. Juliana sofreu uma parada cardíaca e não resistiu.   O caso foi registrado como morte suspeita e perigo para a vida ou saúde no 6º DP (Santo André) e é investigado pelo 42º DP (Parque São Lucas).  A direção da Academia C4 GYM disse lamentar profundamente o ocorrido.

Piscina tinha cheiro de produto químico

A perícia investiga se houve erro na dosagem de produtos químicos ou o uso de substâncias irregulares na manutenção da água. O estabelecimento foi interditado preventivamente devido a irregularidades identificadas no local. Segundo a Subprefeitura Vila Prudente, a interdição se deve a existência de dois CNPJs vinculados à atividade exercida no endereço, falta de Auto de Licença de Funcionamento além de situação precária de segurança.

O perigo invisível das reações químicas

O principal suspeito da tragédia é a formação de gases tóxicos decorrentes do manejo inadequado do cloro em um ambiente fechado e com pouca ventilação. Em depoimento, o funcionário relatou ter preparado uma solução com o produto HIDROALL Hiperclor 60 em um balde e deixado o recipiente próximo à área da piscina enquanto os alunos ainda estavam na água.

De acordo com especialistas, o cloro, quando reage com matéria orgânica (suor, urina, cosméticos), forma subprodutos chamados cloraminas. Em locais sem circulação de ar, esses vapores se concentram na superfície da água e podem causar desde irritações leves até quadros graves de insuficiência respiratória e edema pulmonar.

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Dicas de especialistas para uma piscina segura

A negligência na manutenção ambiental de um recinto fechado não compromete apenas a qualidade da água, mas transforma o ar em um agente agressor, afetando diretamente a saúde humana. A integração entre vigilância sanitária, treinamento técnico e infraestrutura adequada é o único caminho para garantir que o lazer não se torne um risco sanitário.

Para evitar acidentes e garantir a saúde respiratória, Mauro Gomes, pneumologista e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, e entidades como a Abralimp (Associação Brasileira do Mercado de Limpeza Profissional), recomendam cuidados rigorosos:

1. Ventilação é prioridade

Em piscinas cobertas e aquecidas, a renovação do ar é vital. Ambientes fechados favorecem a concentração de vapores irritantes. Se você sentir um cheiro muito forte de “cloro” (que na verdade é o cheiro das cloraminas), é sinal de que a ventilação está insuficiente ou o tratamento químico está inadequado.

2. Monitoramento diário dos parâmetros

A água deve ser testada diariamente para manter o equilíbrio químico:

  • pH: deve estar entre 7,2 e 7,6.

  • Alcalinidade: entre 80 e 120 ppm.

  • Cloro residual: entre 2 e 4 ppm. O desequilíbrio desses fatores pode anular a eficácia do cloro ou torná-lo excessivamente agressivo para a pele e mucosas.

3. Profissionalismo no manejo

O tratamento de uma piscina, especialmente em ambientes coletivos, exige conhecimento técnico.

  • Nunca aplique produtos químicos com banhistas na água.

  • Armazenamento: Produtos devem ficar em locais secos, ventilados e nunca devem ser misturados previamente sem orientação técnica.

  • Treinamento: O aplicador deve usar EPIs (luvas, máscaras e óculos) para evitar acidentes ocupacionais.

4. Alternativas tecnológicas

Sistemas como o tratamento por ozônio (O3) podem reduzir em até 70% a necessidade de cloro tradicional. O ozônio é um oxidante potente que elimina microrganismos e as próprias cloraminas, melhorando a qualidade do ar e da água, sendo uma opção mais sustentável e menos irritante para quem tem asma ou rinite.

5. Higiene dos banhistas

A colaboração dos usuários é essencial. Tomar uma ducha antes de entrar na piscina remove o excesso de suor e cosméticos, diminuindo a carga de matéria orgânica que reage com o cloro para formar os gases irritantes.

Homenagens a Juliana

Juliana Faustino Basseto tinha 27 anos e era professora formada em Pedagogia, com pós-graduação em Alfabetização e Letramento. Ela também possuía cursos complementares na área de alfabetização, matemática para crianças e leitura infantil. A professora atuava na na área havia cerca de seis anos.

Nas redes sociais, a mãe de Juliana descreveu a filha como “uma jovem íntegra, ética, emocionalmente madura e cheia de planos”. Segundo ela, a educadora era uma mulher que “estudava, trabalhava, se dedicava e vivia de forma responsável e feliz”.

Neste momento, nossa família tenta compreender e sobreviver a essa perda irreparável. Pedimos respeito, sensibilidade e responsabilidade na condução das informações e na apuração dos fatos”, escreveu.

A irmã de Juliana também prestou homenagem e a descreveu como uma pessoa “companheira” e “parceira de uma vida inteira”. “Tenho certeza de que nossa jornada foi tão ensaiada que vivemos todos os momentos de forma singular, aproveitando cada segundo”, declarou.

O corpo da professora foi sepultado nesta segunda-feira (9) no Cemitério Quarta Parada.

Com informações do Estadão, G1, CNN e Assessorias

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