A recente CPI das apostas trouxe para o centro do debate público a responsabilidade ética e moral de influenciadores digitais na promoção de jogos de azar, como o popular “Tigrinho”. Com milhões de seguidores, essas figuras muitas vezes vendem uma imagem de riqueza rápida que, para muitos brasileiros, termina em tragédia.
A psicanalista Taty Ades faz um alerta contundente sobre o impacto dessa prática: “O jogo é de azar, não de sorte. Você não vai ganhar, você vai perder!”, afirma. Segundo a especialista, a ludopatia — o vício em jogos — é uma questão de vida ou morte. O ciclo de dopamina gerado pelas apostas funciona de forma idêntica ao vício em álcool ou drogas, criando uma obsessão que destrói a vida social e mental do indivíduo.
A ciência por trás do vício: dopamina e perdas
De acordo com o psicólogo Leonardo Teixeira, especialista em psicologia do esporte, cada vitória libera dopamina, o neurotransmissor do prazer. “O cérebro passa a querer repetir essa sensação, mas exige apostas cada vez mais frequentes ou de valores maiores para sentir o mesmo efeito”, explica.
Esse comportamento gera dados alarmantes:
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Aumento de 48%: No número de casos de transtornos relacionados a apostas entre jovens nos últimos cinco anos (USP).
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Zona de risco: 55% dos adolescentes entre 14 e 17 anos já estão em situação de vulnerabilidade em relação ao jogo.
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Impacto emocional: Mais de 50% dos jovens que apostam relatam depressão e ansiedade após perdas financeiras (ABP).
Vício cruzado: o perigo das múltiplas dependências
Um conceito importante trazido pelos especialistas é o do vício cruzado. Ele ocorre quando o indivíduo desenvolve mais de uma dependência ao mesmo tempo, como apostas combinadas com álcool, narguilé ou energéticos.
O psicólogo Leonardo Teixeira ressalta que um comportamento potencializa o outro, dificultando a recuperação e tornando a pessoa ainda mais vulnerável a crises. O tema ganhou visibilidade após polêmicas envolvendo atletas de alto rendimento, que muitas vezes buscam no jogo uma válvula de escape para a pressão extrema por resultados.
Sinais de alerta e onde buscar ajuda
A dependência em jogos é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno mental. O “mito da falta de caráter” é perigoso, pois impede que as famílias busquem o tratamento adequado.
Fique atento aos sinais:
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Escalada de valores: Necessidade de arriscar quantias cada vez maiores.
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Ocultação: Mentiras constantes para esconder o tempo ou o dinheiro gasto.
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Prejuízo funcional: Queda brusca no desempenho escolar ou profissional.
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Impacto financeiro: 86% dos apostadores terminam endividados e 64% ficam com o nome restrito (Instituto Locomotiva).
Canais de apoio:
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Público: Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e Unidades Básicas de Saúde.
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Apoio Mútuo: Jogadores Anônimos (JA).
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Emergência: Em caso de ideação suicida ou crise grave, ligue 188 (CVV) ou procure uma UPA.
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Digital: Ative ferramentas de autoexclusão e limites de tempo nas plataformas licenciadas.
O vício tem tratamento. É possível retomar o controle da vida e reconstruir os vínculos familiares”, conclui Leonardo Teixeira.
Guia prático: como denunciar publicidades abusivas de apostas online
Saiba onde e como registrar reclamações contra influenciadores e plataformas que promovem o vício em jogos de azar
As redes sociais e os órgãos de defesa do consumidor possuem mecanismos específicos para tratar conteúdos que ferem a ética ou a legalidade. Veja os principais canais:
1. No Instagram e Facebook (Meta)
Ao visualizar um story ou post de um influenciador promovendo jogos enganosos:
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Clique nos três pontos no canto superior direito da publicação.
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Selecione “Denunciar”.
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Escolha a opção “Fraude ou golpe” ou “Conteúdo comercial enganoso”.
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A Meta também possui diretrizes contra a promoção de jogos de azar para menores; você pode selecionar “Menor de idade” se o perfil for claramente voltado a esse público.
2. No CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária)
O CONAR é o órgão que fiscaliza a ética na propaganda brasileira. Ele aceita denúncias de consumidores sobre publicidades que não deixam claro que o jogo é de risco.
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Acesse o site oficial do CONAR.
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Vá na seção “Faça sua reclamação”.
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Preencha o formulário detalhando o perfil do influenciador, o link do vídeo e por que a publicidade é abusiva (ex: promessa de lucro certo, falta de avisos de restrição de idade).
3. No Ministério Público e Senacon
Se você identificar um esquema de pirâmide disfarçado de jogo ou publicidade que ignora a Lei nº 14.790/2023:
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Consumidor.gov.br: Registre uma reclamação contra a plataforma de apostas, caso ela tenha sede ou representação no Brasil.
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Ministério Público Federal (MPF): Através do portal de denúncias, você pode relatar crimes contra a economia popular ou proteção da infância e adolescência.
4. Denúncia na própria plataforma de apostas
Plataformas licenciadas são obrigadas a oferecer canais de “Jogo Responsável”. Se você notar que um influenciador parceiro de uma marca está agindo de forma irresponsável (incentivando o endividamento, por exemplo), reporte o comportamento ao suporte da própria empresa.
O que observar antes de denunciar:
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Falta de aviso de idade: Anúncios de apostas devem exibir obrigatoriamente a marca “18+”.
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Promessa de resultado: É proibido afirmar que o jogo é uma fonte de renda ou investimento.
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Glamourização excessiva: Publicidades que associam o jogo ao sucesso social ou sexual ferem o código de ética.




