Sem limites para criar: arte de PCDs e dos ‘loucos’ ganha visibilidade

‘Revolução pelo afeto’ lembra 22 anos da morte de Nise da Silveira em BH. No Rio e SP, projetos integram o público a artistas com deficiência

Quadro exposto na mostra 'Olhares e Releituras', com artes produzidas por pessoas com deficiência  (Fotos: Eduardo Iglesias / Divulgação)
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O número 22 sempre esteve associado à loucura no imaginário popular, não é mesmo?! Pois os 22 anos da morte da médica psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999), que abordou a loucura de forma revolucionária e criou o Museu do Inconsciente, no Rio de Janeiro, não podem passar em branco. A data tem inspirado uma série de iniciativas artísticas Brasil afora, muitas delas envolvendo habilidades de pessoas com deficiência (PCDs) ou que sofrem de transtornos psiquiátricos.

Depois de uma temporada de sucesso no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio, a exposição Nise da Silveira – A Revolução pelo Afeto encerra no  dia 28 de março sua passagem por Belo Horizonte (MG). O público passeia pelos precursores da arteterapia em oposição aos tratamentos da época, a questão do afeto. Depois, vê a chegada da alagoana Nise ao Rio, a passagem pela prisão, as mulheres com quem conviveu – entre elas a sambista Dona Ivone Lara – até fazer um mergulho no inconsciente.

O Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR), na região portuária, abriu no sábado (19) a exposição ‘Olhares e Releituras’, na qual 17 artistas brasileiros de reconhecido valor dentro e fora do país foram ‘interpretados’ por pessoas com deficiência (PCDs), com idades variadas, que participaram de oficinas de artes plásticas do Instituto Olga Kos (IOK). O resultado mistura arte, sensibilidade, observação cuidadosa e trabalho prático poderá ser visto no MAR até o dia 1º de maio.

Já em São Paulo, o Espaço Cita  lança o Acess’ART, novo projeto que traz uma intensa agenda de atividades gratuitas, presenciais e online. para aproximar artistas com deficiência do público, conectando narrativas e subjetividades. O Acess’ART começa com a Semana de Formação em Acessibilidade, seguindo com ações de visibilidade até junho. O Cita também realiza um mapeamento de articuladores e coletivos PCD’s para incentivar a contratação desses profissionais da arte, refletindo sobre os dilemas da inclusão, capacitismo e acessibilidade nas experiências estéticas.

Quem foi Nise da Silveira

Médica formada enquanto única mulher em uma turma com mais de 150 homens, Nise da Silveira ficou mundialmente conhecida pela ideia vanguardista de usar o afeto como metodologia científica no tratamento às pessoas com sofrimentos psíquicos.

Ao buscar formas de acessar as camadas do inconsciente e criar um diálogo, através de ferramentas artísticas e com aplicações científicas, entre o inconsciente e a sua potente expressão em imagens, Nise reposicionou o entendimento de loucura na história da humanidade.

Localizado no Engenho de Dentro, na Zona Norte do Rio de Janeiro, o Museu de Imagens do Inconsciente foi criado por Nise da Silveira em 1952 com a finalidade de reunir os trabalhos produzidos pelos seus clientes nos estúdios de modelagem e pintura – verdadeiros documentos para ajudar na compreensão mais profunda do que se passava no universo interior deles.

Saiba mais sobre essas iniciativas

Olhares e releituras da arte por pessoas com deficiência

A palavra ‘releitura’ significa “ação de interpretar novamente alguma coisa, acrescentando algo novo e original”. Pois é justamente esta a proposta da exposição ‘Olhares e Releituras’. Os autores retratam algumas obras de artistas como Claudio Tozzi; Newton Mesquita; Caciporé Torres; Yutaka Toyota; Luise Weiss; Verena Matzen, entre outros, foram utilizadas como inspiração e ponto de partida para a criação dos seus próprios trabalhos.

Quadro exposto na mostra ‘Olhares e Releituras’  (Fotos: Eduardo Iglesias / Divulgação)

Além do trabalho desenvolvido pela médica Nise da Silveira (criadora do Museu do Inconsciente em 1952), outro eixo narrativo para a mostra é o centenário da Semana de Arte Moderna (que se comemora este ano). A intenção dos organizadores é mostrar a percepção e sensibilidade dos beneficiários acerca dos trabalhos dos artistas e, consequentemente, a abertura para novos olhares.

A exposição terá três atrações: pinturas e esculturas, releituras e uma proposta interativa onde o visitante será convidado a descobrir qual obra é releitura e qual é disparadora. Outra atração que compõe a exposição é uma parede de imãs que convida o espectador a criar a sua própria releitura.

Quadro exposto na mostra ‘Olhares e Releituras’  (Fotos: Eduardo Iglesias / Divulgação)

Exposição exalta a psiquiatra Nise da Silveira

Com cerca de 100 obras surpreendentes, a mostra no CCBB Belo Horizonte reúne telas e esculturas de artistas do Museu de Imagens do Inconsciente, criado em 1952 por Nilse da Silveira, ao lado de peças de Lygia Clark, Abraham Palatinik e Zé Carlos Garcia, retratos de Alice Brill, Rogério Reis e Rafael Bqueer, vídeos de Leon Hirzsman, reproduções de desenhos de Carl Gustav Jung, aquarelas e fotos de Carlos Vergara. A curadoria é do Estúdio M’Baraká, com consultoria do museólogo Eurípedes Júnior e do psiquiatra Vitor Pordeus.

Mostra em homenagem à psiquiatra Nise da Silveira fica em cartaz até 28/3 em Belo Horizonte (Foto: Divulgação)

Dos clientes que se destacaram em um acervo com mais de 400 mil trabalhos, foram escolhidas para a mostra no CCBB telas de Carlos Pertuis (que deixou cerca de 21 mil pinturas), Fernando Diniz (por volta 35 mil), Adelina Gomes (na base dos 17 mil), Emygdio de Barros (em torno de 3.300) e Beta d’Rocha – ela encontrou um caminho de expressão também na escrita (“A história de Beta” e “Cadernos íntimos”), com relatos sobre as crises e as internações, facilitando o processo de autocura. Das artistas atuais, o público mineiro verá duas pinturas fortes de Renata Inocêncio.

A expografia de Diogo Rezende, designer e sócio do Estúdio M’Baraká, traz ambientes preenchidos de improviso e sobreposições que contrastam a frieza da instituição de clausura, sob constante vigilância, com o calor, a humanidade e a liberdade do trabalho que a doutora Nise realizou. Cada sala traz um clima único, com direito a um poço do inconsciente: um vídeo processa, em movimentos circulares, imagens da psiquê produzidas no ateliê e projetadas num espelho d’água em forma de poço. A mostra explora também a questão territorial do Engenho de Dentro enquanto espaço de exclusão e metáfora, na linha engenho interior versus engenho exterior.

Tour virtual 360 e Experiência Sonora Descritiva

A abordagem amorosa da psiquiatra ultrapassou os muros do hospital e ganhou o mundo. Da mesma forma, a mostra NISE DA SILVEIRA – A REVOLUÇÃO PELO AFETO também poderá ser vista de qualquer parte do planeta através do sites oficiais do CCBB (aqui) e da exposição (aqui). Além disso, é possível ouvir o que se vê através da Experiência Sonora Descritiva. Os áudios recriam os ambientes da mostra com dramaturgia. A equipe foi coordenada pela jornalista e dubladora Georgea Rodrigues, da Inclusive Acessibilidade.

A experiência de áudio foi idealizada para pessoas com deficiência visual, mas surpreende ao reconstituir com muita graça imagens do universo particular de Nise da Silveira e dar vida a personagens reais, como o seu pai, o marido, Lima Barreto, Mário Pedrosa e a faxineira do ateliê, além dela mesma. Fazem parte do elenco vocal atores e dubladores que já emprestaram as suas vozes a personagens famosos no cinema e nas séries de TV, como Capitão América, Rei Leão, Tocha Humana, Grey’s Anatomy e Billie Holiday.

Espetáculos e obras protagonizadas por artistas com deficiência

Com transmissão online, a Semana de Formação em Acessibilidade, que marca a abertura do projeto Acess´Art no Espaço Cita, localizado no Campo Limpo, São Paulo, vai de 21 a 24 de março, sempre às 19h, no Espaço Cita. No dia 25, de maneira presencial, “Corpo Intruso”, de Estela Lapponi, abre uma investigação cênica, visual e conceitual que revela a subversão e explosão de territórios hegemônicos. Na sexta-feira seguinte, 1/4, às 20h, acontece a exibição da performance “¡La asimetría es mås rica!”, também de Estela Lapponi.  

Estela Lapponi protagoniza a performance “¡La asimetría es mås rica!” (Foto: Letícia Maia)

Já no dia primeiro de maio acontece a abertura da “Exposição @Partes Estamos AQUI!”, da Paloma Barbosa. Na sexta-feira, 6/5, às 20h, Paulo Fabião chega com o seu espetáculo de stand-up “Esperando Sentado”. Dia 20 de maio, às 20h, o Sarau ReCITA ganha uma edição especial com Luan Luando (apresentação e poesia), Rafael Barbosa (dança) e convidados. Fechando as atrações, todas protagonizadas por artistas PCDs, “Poemas e Outros Bichos” assume o palco às 20h do dia 3/06, com o Coletivo Grão Arte e Cidadania.

Comemorando dez anos de resistência, o Cita se dedica à construção de um futuro ainda mais acessível, acolhedor e diverso. O projeto arquitetônico do espaço está recebendo novos recursos de acessibilidade e desenha um mapeamento de artistas, articuladores, técnicos e coletivos PCD’s para atender não só as suas próprias demandas de contratações como, também, a de outros espaços culturais, seguindo a sugestão de um mesmo caminho de ocupação diversa. O ACESS’ART é uma realização do Edital Proac Expresso Lei Aldir Blanc Nº51/2021.

Com Assessorias

 

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