O narrador esportivo Luis Roberto, de 64 anos, anunciou seu afastamento da TV Globo, inclusive da cobertura da Copa do Mundo 2026, para tratar uma neoplasia na região cervical.  Identificada em exames de rotina, a condição ainda está em fase de avaliação para definição do tratamento, o que é comum em quadros desse tipo.

Embora o caso de Luis Roberto ainda esteja em avaliação, especialistas reforçam que o cenário ilustra a importância do diagnóstico precoce, muitas vezes possível justamente por meio de exames de rotina, como ocorreu com o narrador. O tema traz um ponto importante para o público:neoplasia” é um termo amplo e não define, por si só, um diagnóstico de câncer.

Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), a expressão médica descreve um crescimento anormal de células no pescoço, que pode corresponder a diferentes condições, desde lesões benignas até tumores malignos, além de casos em que o tumor tem origem em outra parte do corpo e se manifesta no pescoço. Por isso, exige investigação detalhada para definição do tipo, origem e tratamento.

Avaliação clínica, exames de imagem e biópsia são essenciais para distinguir o quadro e definir abordagens específicas, especialmente diante do alto número de casos avançados no país. Dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca) indicam que o Brasil registra mais de 40 mil novos casos de câncer de cabeça e pescoço por ano. Cerca de 80% são diagnosticados em estágios avançados, o que reduz as chances de tratamento curativo e aumenta o risco de sequelas funcionais.

O termo não equivale automaticamente a câncer, embora essa possibilidade precise ser considerada. A região cervical reúne diferentes estruturas anatômicas, o que amplia o leque de diagnósticos possíveis. Esse caráter genérico explica por que o diagnóstico inicial costuma ser apenas o primeiro passo de uma investigação mais detalhada”, diz o cirurgião Carlos Eduardo Santa Ritta, coordenador da Comissão de Cabeça e Pescoço da SBCO.

Os diferentes tipos de tumores e lesões na região cervical

Segundo ele, uma neoplasia na região do pescoço pode significar um tumor originado em qualquer um dos órgãos situados na região cervical (tireoide, glândulas salivares, esôfago, traqueia, laringe, faringe ou linfonodos).

Também pode ser devido a uma neoplasia originada em outras regiões do corpo, quando o tumor sofre um processo chamado metástase e se espalha para os gânglios linfáticos na área do pescoço (ocorrendo crescimento progressivo daquele gânglio linfático, mas com o tumor primário originado fora do pescoço).

A amplitude do termo também se reflete no diagnóstico diferencial. Todos os nódulos ou tumores cervicais devem ser avaliados para proceder com a investigação correta e distingui-los entre tumores benignos ou malignos. Essas massas ou nódulos cervicais podem ter origem inflamatória (popularmente chamadas de ínguas) ou infecciosa (abscessos, furúnculos e até tuberculose cervical).

Também podem corresponder a tumores benignos congênitos (malformações presentes desde o nascimento, que se desenvolvem com o passar do tempo) ou a neoplasias benignas (lipomas ou cistos), e  podem também ser malignas. “Como se pode notar, a origem ou o tipo de tumor pode ter um diagnóstico diferencial bastante amplo”, afirma Santa Ritta.

Sintomas variam conforme o local e o tipo de lesão

Rouquidão e dificuldade para engolir podem ser sinais precoces que precisam ser investigados

A diversidade de estruturas envolvidas na região cervical também explica a variação dos sintomas. Em muitos casos, o primeiro sinal é discreto e pode ser negligenciado. Os sintomas irão depender de qual local específico do pescoço que a neoplasia se desenvolve, qual o tipo de órgão que elas se originam e em quais estruturas ela começa a pressionar durante o crescimento.

Mas, em geral, um nódulo aumentado no pescoço pode ser o primeiro sinal. Rouquidão ou dificuldade para deglutição (engolir) também podem ser sinais precoces e devem ser investigados se persistirem por mais de duas ou três semanas”, explica Santa Ritta.

Além do aumento de volume no pescoço, outros sinais podem surgir conforme a progressão da doença, como dor, alterações na voz e dificuldade para respirar ou engolir. Ainda assim, a ausência de sintomas intensos nas fases iniciais contribui para o atraso na busca por avaliação médica.

Diagnóstico combina exame clínico, imagem e análise celular

A investigação de uma neoplasia cervical segue etapas que buscam identificar a origem e o tipo da lesão. “Primeiramente, a recomendação é de uma boa avaliação clínica inicial para se identificar a possível origem primária da lesão”, explica o cirurgião.

Após esta avaliação, serão necessários exames de imagem para localização precisa (como ultrassonografia cervical, tomografia computadorizada ou ressonância magnética) e exames que avaliem o tipo de célula que o tumor se origina (biópsias por punção ou por cirurgia).

Esse processo permite diferenciar tumores benignos de malignos e orientar a definição do tratamento. Em alguns casos, a lesão identificada no pescoço não é primária, mas sim uma manifestação de câncer originado em outra região do corpo”, destaca.

Tratamento depende do tipo de tumor e da extensão da doença

A definição do tratamento está diretamente ligada ao diagnóstico final. O tratamento vai ser específico para cada tipo de lesão que é identificada, geralmente para os tumores benignos, apenas a cirurgia é resolutiva.

Nos casos das neoplasias malignas o tratamento pode ser com terapias isoladas que podem englobar cirurgia, radioterapia ou quimioterapia. Ou necessitar tratamento combinado com duas ou mais das opções citadas”, afirma Santa Ritta.

A escolha entre cirurgia, radioterapia, quimioterapia ou combinação dessas abordagens depende da localização, da extensão e das características celulares do tumor.

Prognóstico está associado ao diagnóstico precoce

Embora o termo “neoplasia” possa gerar preocupação, o prognóstico varia conforme o tipo de tumor e o momento do diagnóstico. A maior parte dos tumores e neoplasia do pescoço tem prognóstico bom se identificados e tratados precocemente.

Claro que o prognóstico exato depende de cada tipo específico que originou a neoplasia. Geralmente os tumores de tireoide têm excelentes chances de cura, mesmo quando avançados, enquanto os tumores de boca e laringe podem ter uma chance de cura que dependem fortemente do estágio que a doença for identificada. Por isso, é extremamente importante que os pacientes tenham um diagnóstico inicial, onde as chances de cura se apresentam muito maiores”, ressalta.

Esse ponto também se reflete nos fatores de risco e na evolução clínica. “Podemos afirmar que apesar do local ou órgão específico que originou a neoplasia apresentar um fator importante no prognóstico e cura, quanto mais precoce a doença for identificada e quanto mais rapidamente o paciente iniciar o tratamento, melhor será a chance de cura.

Além disso, o diagnóstico precoce, associado a um melhor prognóstico, também reduz o risco de sequelas importantes ou definitivas. Entre os grupos mais predispostos estão pessoas com consumo de tabaco e álcool, além daquelas com maior risco de infecção pelo HPV. Nesse último caso, destaca-se a importância da vacinação como estratégia para o controle da doença e para a redução da progressão de tumores associados a essa infecção”, conclui Santa Ritta.

Com informações da SBCO

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