Estima-se que 186 milhões de meninas e mulheres sejam atingidas pela endometriose em todo o mundo, sendo mais de 7 milhões no Brasil. De acordo com o Ministério da Saúde, a estimativa é de que uma a cada 10 mulheres em idade reprodutiva sofrem com os sintomas da endometriose e desconhecem a sua existência. Em 2021, mais de 26,4 mil atendimentos foram feitos no Sistema Único de Saúde (SUS) e oito mil internações registradas na rede pública de saúde.

O tema ganhou espaço em 2022 quando a cantora Anitta revelou pelas redes sociais o seu diagnóstico e divulgou a cirurgia que fez para amenizar os efeitos da doença em seu corpo – a laparoscopia. Além dela, personalidades como as apresentadoras Patrícia Poeta e Giovanna Ewbank, a atriz Larissa Manoela e a cantora Wanessa Camargo também já compartilharam suas experiências convivendo e tratando da endometriose.

Apesar dos relatos de celebridades, a doença ainda é negligenciada e invisibilizada; prova disso é queendometriose não é considerada uma doença social, o diagnóstico é tardio (leva em média de 7 a 12 anos), os tratamentos pela rede pública são incipientes ou inacessíveis à grande maioria e as cirurgias restritas,. como alertam especialistas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP).

Dor durante ou depois das relações sexuais não deve der ignorada

Em 2022, a cantora Anitta passou por uma laparoscopia para tratar a endometriose (Foto: Reprodução da internet)

Dentre os principais sintomas da endometriose, se destaca a dor pélvica antes ou durante o período menstrual, dor durante ou depois de relações sexuais e alterações para urinar ou evacuar, principalmente durante o período menstrual. Por isso muitas mulheres com endometriose acreditam – como Anitta contou acreditar por anos – que as dores que sentem são normais.

Segundo especialistas, este é um dos fatores que dificulta o diagnóstico, assim como o de que há também mulheres com a doença e sem qualquer sintoma. Por isso, é fundamental destacar que a endometriose, muitas vezes, se apresenta em quadros graves devido à falta de diagnóstico precoce.

Apesar de ser uma doença benigna, a endometriose traz diversas consequências incapacitantes e está associada a uma causa importante de sofrimento nas mulheres. Nós observamos diversas mulheres que não tem esse diagnóstico e sofrem muitas dores no periodo menstrual e em relações sexuais”, diz Karla Kabbach, ginecopatologista associada à SBP.

Março Amarelo: a dificuldade de reconhecer que é endometriose

endometriose é uma doença ginecológica crônica que afeta milhões de mulheres em todo o mundo, especialmente durante o período reprodutivo. Apesar de relativamente comum, ainda é cercada por desinformação, o que frequentemente atrasa o diagnóstico e o início do tratamento adequado.

No terceiro ano de celebração do Dia Nacional de Luta contra a Endometriose (13 de março), instituído em 2022, pela Lei 14.324, que também criou a Semana Nacional de Educação Preventiva e de Enfrentamento à Endometriose, além do mês da campanha Março Amarelo, especialistas destacam a importância do cuidado com a saúde das mulheres e, particularmente, com essa doença.

O ginecologista Ricardo de Almeida Quintairos, presidente da Comissão Nacional Especializada em Endometriose da Febrasgo, explica que o quadro clínico da doença pode ser resumido basicamente em dois grandes problemas: dor e infertilidade.

A dor pélvica é um dos sintomas mais intensos, frequentemente causada por infiltrações nos órgãos próximos ao útero, como o reto, a bexiga, os ovários ou as trompas de Falópio. Essa dor pode ser debilitante e afetar significativamente a qualidade de vida das mulheres.

Os sintomas muitas vezes são subestimados, o que pode retardar o diagnóstico. Muitas mulheres escutam desde cedo que sentir cólica menstrual é normal e que a dor vai passar com o tempo ou depois da gravidez. Isso faz com que elas não valorizem os próprios sintomas e atrasem a busca por ajuda médica”, alerta.

Mulheres e médicos precisam de mais esclarecimento

Quanto mais cedo o diagnóstico for feito, mais eficaz será o tratamento, evitando que a paciente desenvolva sequelas irreversíveis, como dores crônicas e dificuldades digestivas. “O diagnóstico precoce é crucial não apenas para identificar a doença, mas também para impedir que ela se torne grave, minimizando os danos secundários”, comenta.

Para isso, o médico reforça a importância de não ignorar os sinais do corpo. “O mais importante é que a mulher não desvalorize a sua dor. Quanto mais cedo a doença for reconhecida e tratada, maiores são as chances de preservar a qualidade de vida e a fertilidade”, conclui.

Ele reforça ainda a necessidade de preparação de médicos para o diagnóstico precoce e o esclarecimento para as mulheres, por meio de palestras e ações de conscientização para que elas possam se familiarizar com os sintomas e compreender a doença. “O objetivo é que as mulheres possam procurar ajuda de forma espontânea e, com isso, reduzir o impacto da endometriose em suas vidas”, finaliza o médico.

Como é feito o diagnóstico da endometriose

O diagnóstico da endometriose começa com uma avaliação clínica detalhada, baseada principalmente nos sintomas relatados pela paciente. “A suspeita surge principalmente a partir do quadro de dor progressiva associado ao ciclo menstrual”, explica o médico.

Para confirmação diagnóstica, os exames de imagem são fundamentais. Entre os principais estão o ultrassom transvaginal com preparo intestinal, indicado para mulheres que já iniciaram vida sexual, e a ressonância magnética da pelve.

Karla Kabbach esclarece que a confirmação diagnóstica de endometriose se dá através da análise microscópica de peças cirúrgicas operadas pelo ginecologista, em caso de suspeita da doença. Deve-se identificar histologicamente a presença de tecido endometrial (glândulas e/ou estroma) em localização não habitual, ou seja, fora do útero.

Dessa forma, somente o patologista, médico especialista treinado para realizar diagnóstico histológico, consegue dar um laudo definitivo sobre a doença e também de condições neoplásicas associadas à ela”, explica a médica. E acrescenta: “Na dúvida, em caso de dores durante ou após as relações sexuais, relate a seu ginecologista. Ele poderá pedir novos exames até que um médico patologista confirme o diagnóstico”.

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O que acontece com o endométrio

A endometriose é o implante de células do endométrio fora do útero. A condição que ocorre quando células semelhantes às do endométrio, tecido que reveste o interior do útero, passam a se desenvolver fora da cavidade uterina, em locais como ovários, trompas, intestino ou outras estruturas da pelve.

Todos os meses, o endométrio fica mais espesso para que um óvulo fecundado possa se implantar nele. Quando não há gravidez, esse endométrio que aumentou descama e é expelido na menstruação.

Quando a mulher sofre de endometriose, algumas dessas células do endométrio, ao invés de serem expelidas, migram no sentido oposto e caem nos ovários ou na cavidade abdominal, onde voltam a se multiplicar e a sangrar. Assim, as células do endométrio também podem se espalhar e crescer em outras partes do corpo, como no intestino, no reto, na bexiga, no peritônio e até mesmo em órgãos distantes, como o pulmão e o cérebro“, explica a médica.

Dependendo de onde essas células se implantam, a doença recebe o nome da estrutura afetada; Ele destaca que a condição pode se manifestar de duas formas principais: a endometriose interna, também conhecida como adenomiose, quando o tecido invade a musculatura do útero; e a endometriose externa, quando as células se implantam fora do órgão, na cavidade abdominal.

Doença tem origem genética, hormonal e imunológica

Durante muito tempo, acreditou-se que a endometriose era causada exclusivamente pela chamada menstruação retrógrada, quando o fluxo menstrual retorna pelas trompas para a cavidade abdominal, permitindo que as células se implantem fora do útero. No entanto, os conhecimentos científicos mais recentes apontam para uma origem mais complexa. A dificuldade do sistema imunológico em destruir essas células contribui para a progressão da doença.

Hoje sabemos que a mulher não ‘desenvolve’ a endometriose ao longo da vida. Ela já nasce com a predisposição para a doença, que pode se manifestar em diferentes fases da vida”,  explica o especialista.

Segundo ele, fatores genéticos e imunológicos estão diretamente envolvidos no desenvolvimento da doença. “Além disso, trata-se de uma doença altamente dependente do hormônio estrogênio. Por isso, quanto mais ciclos ovulatórios e menstruais a mulher tiver ao longo da vida, maior pode ser o estímulo para a progressão da doença”, afirma.

Endometriose afeta o sonho da maternidade

Para a  endometriose e a gravidez são duas coisas que estão intimamente relacionadas. Essa doença também é uma das principais causas de infertilidade feminina, afetando o sonho de muitas mulheres de ser mãe.

Segundo a Dra Karla, Quando as células endometriais começam a crescer em órgãos importantes para a concepção, como nas trompas e nos ovários, o processo inflamatório decorrente da doença resulta na criação de aderências e cicatrizes nesses locais.

Como consequência do crescimento de tecido cicatricial, mudanças anatômicas ocorrem, as quais impedem o funcionamento das trompas, onde ocorre a fecundação. Nos ovários, a qualidade do óvulo e a ovulação também são prejudicadas”, explica a médica.

Para as mulheres com endometriose que conseguiram engravidar, há um risco maior de gravidez ectópica e aborto espontâneo. Após as 24 semanas de gestação, essas mulheres também apresentam mais chances de sofrer complicações, como hemorragias e parto prematuro.

A infertilidade também é um sintoma grave da endometriose. Embora algumas mulheres não sintam dor intensa, elas enfrentam dificuldades para engravidar e o diagnóstico da doença vem, muitas vezes, quando a mulher apresenta a dificuldade em conceber”, explica Dr. Quintairos.

Por esse motivo, essas gestantes devem ser acompanhadas durante toda a gravidez. “Procure seu médico para receber as recomendações adequadas e o melhor tratamento para o seu caso. Assim, é possível ter o total controle sobre a situação e uma gestação mais segura”, completa a Dra Karla.

‘A doença dos seis Ds’: doença pode levar à infertilidade

Entre os sintomas mais frequentes da endometriose estão as chamadas “6 Ds”, um conjunto de manifestações que indicam diferentes tipos de dor associados à doença; Por isso, a doença é identificada pelos médicos como a “doença dos seis D’s”. Os sintomas incluem:

  • Dismenorreia: caracterizada por cólica menstrual intensa;
  • Dispareunia: dor durante a relação sexual;
  • Disquesia: dor ou dificuldade para defecar;
  • Disúria: dor ou dificuldade ao urinar;
  • Dor pélvica crônica: dor constante na região pélvica, que pode ocorrer ao longo de todo o mês, independentemente do período menstrual;
  • Dificuldade para engravidar: um dos principais fatores de infertilidade;

Tratamento pode envolver hormonioterapia e cirurgia

A escolha do tratamento depende da gravidade da endometriose e dos sintomas apresentados pela paciente. De acordo com p  presidente da Comissão de Endometriose da Febrasgo, o tratamento da endometriose deve sempre começar com uma abordagem clínica, o que pode incluir melhorar a dieta ou usar hormônios que inibem a ovulação, com o objetivo de reduzir a ação do estrogênio no organismo e controlar a evolução da doença.

O tratamento inicial geralmente é feito com anticoncepcionais hormonais ou progestagênios, que ajudam a reduzir ou interromper os ciclos menstruais. Isso diminui o estímulo hormonal sobre as lesões de endometriose”, conta Dr. Quintairos.

Caso o controle da dor e a melhora na qualidade de vida não sejam alcançados, e a paciente continue sofrendo com os sintomas, o tratamento cirúrgico pode ser considerado. A cirurgia é reservada para situações mais complexas ou quando o tratamento clínico não apresenta resultados satisfatórios.

O tratamento cirúrgico é indicado principalmente nas formas mais graves da doença ou quando há comprometimento de órgãos importantes, como intestino ou ureter. A decisão de partir para a cirurgia depende da localização da endometriose, seja no intestino, no peritônio, nos nervos ou nos ovários”, ressalta o especialista.

Como melhorar a qualidade de vida

Como se trata de uma doença inflamatória, no entanto, adotar um estilo de vida saudável pode melhorar significativamente a qualidade de vida das mulheres afetadas, de acordo com o especialista.

Manter-se ativa, praticando exercícios físicos regularmente, evitar o ganho de peso, beber bastante água e reduzir o consumo de substâncias oxidantes, como carnes em excesso e alimentos ricos em açúcar, são estratégias que podem ajudar a controlar o processo inflamatório no corpo. Além disso, seguir uma dieta equilibrada e evitar alimentos que promovem a inflamação contribui para o bem-estar geral”.

Março Amarelo – Dia de Luta contra a Endometriose

Este é o terceiro anos da sanção da lei 14.324/2022, que instaurou o Dia de Luta contra a Endometriose (13 de março), além da Semana Nacional de Educação Preventiva e Enfrentamento à Endometriose.

dia escolhido é em homenagem à primeira edição da EndoMarcha no Brasil e no mundo: 13 de março de 2014. A ideia do projeto surgiu em outubro de 2014, quando a cidade de Campo Grande (MS) instituiu 13 de março como Dia Municipal de Luta contra a Endometriose – e a Semana Nacional.

Em 2016, a lei foi para âmbito estadual, em Roraima, e, em 2019, se transformou que em projeto de lei na Câmara Federal e acabou sancionada.

Com Assessorias

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