O Brasil celebra o mês das mulheres com um dado expressivo: o país ocupa o terceiro lugar mundial em participação feminina em publicações científicas, segundo o levantamento Elsevier-Bori (2024). Na base da formação, elas já são maioria, representando 55% dos alunos de mestrado e doutorado, de acordo com a Capes – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior,
No entanto, por trás dos números, as trajetórias de pesquisadoras em instituições públicas e na indústria revelam que o caminho para a equidade ainda passa pelo desafio de conciliar a excelência acadêmica com a vida pessoal e a maternidade. Apesar das barreiras, a ciência brasileira tem sido marcada por contribuições femininas de grande impacto.
Mais novo motivo de orgulho nacional, a bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ganhou reconhecimento internacional ao liderar pesquisas sobre a regeneração da medula espinhal a partir da polilaminina, proteína derivada da placenta humana com resultados promissores na reversão de quadros de paralisia.
Outras mulheres relevantes, como Suzana Herculano-Houzel, referência em pesquisas sobre neurociência, Elisa Frota Pessoa, pioneira da física moderna no país, e Mayana Zatz, destaque na genética humana, ajudaram a consolidar o protagonismo feminino na pesquisa nacional.
Pesquisadora do CNPEM ganha prêmio internacional por inovação que reduz uso de animais em testes
Outro destaque recente é a pesquisadora Ana Carolina Migliorini Figueira, que desenvolve métodos alternativos aos testes com animais em laboratórios e lidera o grupo de engenharia de tecidos do CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais).
Ela e seu grupo de pesquisa criam miniórgãos artificiais que reproduzem o fígado humano e são usados para testar a toxicidade de moléculas da indústria farmacêutica que são candidatas a novos fármacos. Desta forma, contribuem para a redução de testes em animais. Por este trabalho, Ana Carolina foi uma das 25 cientistas contempladass na América Latina pelo Prêmio 25 Mulheres na Ciência – 3M.
A premiação é voltada para mulheres que desenvolvem pesquisas de visibilidade, inovação e impacto social com foco na indústria. O anúncio foi feito no Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciên
Esse reconhecimento valoriza uma linha de pesquisa que busca unir ciência de ponta, inovação e impacto social. Nosso objetivo é desenvolver metodologias mais éticas, eficientes e acessíveis, que possam ser usadas amplamente pela indústria e por laboratórios de pesquisa. Para isso, buscamos desenvolver testes que sejam mais baratos e possam ter aplicações mais abrangentes”, afirma a pesquisadora.
Além do prêmio da 3M, Ana Carolina é uma das 13 finalistas do Prêmio Lush, e a única representante da América Latina na categoria Ciência. . Sua escolha se deve ao trabalho geral desenvolvido por sua equipe no CNPEM buscando alternativas ao uso de animais em pesquisas.
A Lush é uma empresa inglesa de cosméticos naturais com alcance global. O prêmio reconhece projetos “animal free” inovadores, concedendo financiamento internacional para pesquisa. O anúncio dos vencedores será em maio, e a entrega do prêmio será em Londres.
Atualmente, seu grupo de pesquisa no CNPEM trabalha na fase piloto de validação do método, que envolve testes colaborativos com outros laboratórios para padronização do protocolo, com perspectiva de torná-lo um método internacionalmente validado. A expectativa é que, futuramente, a técnica permita reduzir centenas de testes em animais para apenas alguns poucos ensaios finais, mantendo a segurança e a eficácia exigidas pela regulação.
O trabalho faz parte das atividades do CNPEM como polo de inovação em métodos alternativos, no âmbito da RENAMA (Rede Nacional de Métodos Alternativos), rede coordenada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. O CNPEM é um dos três centros nacionais da RENAMA, ao lado da Fiocruz e do Inmetro, sendo responsável pelo desenvolvimento de novas metodologias e capacitação de pesquisadores.
Maternidade potencializa a excelência científica, diz pesquisadora da UnB
Para Licia Mota, “é preciso aprender a conciliar o tempo de produzir conhecimento científico com o tempo de gerar vidas”
Apesar dos avanços e reconhecimentos, ainda que tardios, como no caso de Tatiana, a realidade ainda é muito desigual. Muitas mulheres vivem a maternidade na academia de forma solitária, silenciosa e exaustiva por ausência de políticas claras e apoio institucional.
Para Licia Mota, reumatologista do Hospital Universitário de Brasília (HUB) e professora da Universidade de Brasília (UnB). a dualidade existente na experiência da maternidade na pós-graduação, um fator que pode tanto impulsionar a excelência científica quanto levar à exaustão das pós-graduandas e à perda de talentos.
Apesar de avanços como a inclusão da licença-maternidade no Currículo Lattes (desde 2021) e a Lei nº 13.536/2017 (prorrogação de bolsas) sejam vitais, a mudança cultural é urgente”, diz De acordo com Licia, a ciência não perde quando acolhe a maternidade, mas sim quando torna o caminho inviável para mulheres.
O problema é um modelo de formação que ainda trata a maternidade como exceção, risco ou fragilidade, quando ela é parte da vida real de muitas cientistas. Garantir extensão de prazos sem penalização, proteger bolsas durante licenças e formar orientadores sensíveis a essas realidades não são concessões. São investimentos científico”, ressalta.
Para a pesquisadora, que soma uma vasta experiência no acompanhamento de dezenas de pós-graduandas, a maternidade não é oposta à produção de ciência de qualidade, nem deve ser vista como um entrave, mas como um potencializador de competências.
Pelo contrário: gestar, parir e amamentar desenvolve competências essenciais como planejamento extremo, gestão de tempo, resiliência, foco e maturidade emocional, que enriquecem a pesquisa, mas raramente são valorizadas como habilidades acadêmicas”, pondera.
Para a pesquisadora, essas competências são ativos valiosos que, quando apoiados, transformam a maternidade, durante a pós-graduação, em uma experiência planejada, desejada, rica e bem-sucedida. O entrave, do seu ponto de vista, está justamente no modelo atual dos programas de pós-graduação que ainda não foi desenhado para acolher essa realidade.
Eu tive meus filhos durante o meu doutorado e, com base na minha experiência pessoal e profissional, entendo que temos a necessidade urgente de aprender a conciliar o tempo da ciência com o tempo da maternidade. Só temos a ganhar ao aprender que a presença de mulheres na ciência deve ir além do estímulo à vocação, precisa ter foco na permanência, nas condições reais de formação e na equidade ao longo do percurso. Caso contrário, seguimos celebrando entradas enquanto perdemos talentos no meio do caminho”, ressalta.
Ciência na alimentação: entre o Lattes e a maternidade
A nutricionista Aline Marcadenti, pesquisadora do Instituto de Pesquisa do Hcor, também destaca que penas em 2021 o CNPq permitiu a inclusão da licença-maternidade no Currículo Lattes, após demanda histórica da comunidade científica. Para a pesquisadora, a mudança representou um avanço simbólico, ainda que tardio, ao reconhecer impactos reais da maternidade na trajetória acadêmica das mulheres
Ela ainda cita outros obstáculos presentes na carreira científica feminina, como diferenças salariais, menor acesso a espaços de publicação e reconhecimento profissional. A trajetória de Aline exemplifica os desafios e as conquistas das mulheres no ambiente científico brasileiro. Sem incentivos de iniciação científica na graduação, ela trilhou seu caminho focada em como os dados podem salvar vidas.
Natural de Canela (RS), ingressou na área acadêmica sem acesso à iniciação científica durante a graduação e conciliando trabalho e estudos. Foi na saúde pública que encontrou o estímulo para se dedicar à pesquisa, especialmente à coleta e análise de dados aplicados a problemas reais da população.
Ela construiu uma carreira marcada pela superação de barreiras estruturais e pela defesa da ciência como ferramenta concreta de transformação da saúde pública. Hoje, suas pesquisas sobre alimentação, fatores de risco incluindo genéticos e doenças crônicas, como obesidade, diabetes e enfermidades cardiovasculares.
Um março de sua carreira está a participação no estudo DICA Br, desenvolvido em parceria com o PROADI-SUS e o Ministério da Saúde, com foco em evidências científicas para subsidiar políticas públicas. Para Aline, a ciência só é plena quando chega à mesa do brasileiro.
Mais do que produzir artigos científicos, ela defende que a pesquisa só cumpre seu papel quando se traduz em políticas públicas, tecnologias e estratégias de prevenção. Seu objetivo é aprofundar estudos que considerem a diversidade regional e genética do Brasil, ampliando o acesso à alimentação saudável e reduzindo riscos de doenças crônicas.
A ciência precisa sair dos artigos e se converter em tecnologias que melhorem o acesso à alimentação saudável”, defende.
Indústria farmacêutica: onde a liderança feminina é realidade
Ainda no setor privado, a presença feminina tem sido o pilar para o desenvolvimento de novos tratamentos. Na Prati-Donaduzzi, uma das maiores indústrias farmacêuticas do país, o cenário de liderança feminina é robusto: mais de 60% do quadro de colaboradores é composto por mulheres, inclusive em áreas de alta complexidade, ocupando cargos estratégicos em pesquisa e liderança.
Amanda Moscibroski, pesquisadora-chefe farmacotécnica da companhia, é um exemplo dessa força. Ela lidera equipes dedicadas a criar novas formulações de medicamentos, um processo que vai da seleção de insumos à validação para o mercado. “Transformamos conhecimento científico em produtos acessíveis e de alta qualidade”, conta Amanda, que se inspirou em mulheres como a Dra. Carmen Donaduzzi, cofundadora da empresa.
A especialista também destaca o crescimento da presença feminina nas salas de aula e nos laboratórios. “No Brasil, as mulheres já superam a presença masculina em diversas etapas da carreira científica. Somos maioria no ensino superior e na pós-graduação, especialmente em áreas como Ciências da Saúde, Biológicas e Humanas. Essa liderança feminina se estende a um nível global: o país se destaca por ter uma das mais altas proporções de mulheres pesquisadoras ativas no mundo, chegando a quase 50% da força de pesquisa”, explica.
Amanda ressalta que o investimento privado na qualificação dessas profissionais — financiando mestrados e doutorados — é o que permite transformar o conhecimento de bancada em produtos acessíveis à população. Algumas iniciativas despertam o interesse de crianças e adolescentes pela ciência também contribuem para abrir portas para meninas interessadas em ingressar na ciência.
Um exemplo é o Clube da Ciência Biopark Educação – desenvolvido pelo parque tecnológico fundado pelos mesmos criadores da Prati-Donaduzzi. O projeto convida jovens de 4 a 17 anos a participarem de atividades semanais nos laboratórios de Ciência, Inovação, Programação e Robótica, durante o contraturno escolar.
‘O que mantém a gente na ciência é a curiosidade’
Microbiologista reforça que a curiosidade técnica desenvolvida no laboratório é o que mantém as mulheres na ciência, mesmo diante da competitividade de ambientes masculinos
A curiosidade sempre foi o fio condutor da trajetória da paulistana Nathalia Nascimento, bióloga marinha de formação. Desde a infância, o interesse em compreender o comportamento dos animais e os mecanismos da natureza despertou um olhar investigativo que a conduziu ao laboratório e, mais tarde, consolidou a ciência como escolha profissional.
Essa trajetória individual dialoga com um movimento mais amplo de ampliação da presença feminina no campo científico. Foi nesse contexto de formação e afirmação profissional que Nathalia construiu sua atuação acadêmica: da iniciação científica ao trabalho de conclusão de curso (TCC) e o mestrado em biodiversidade, dando sustentação a uma atuação que hoje transita entre o conhecimento técnico e o mercado.
Ao longo desse período, Nathália desenvolveu pesquisas com foco em ecotoxicologia animal e histopatologia, o que a levou a transitar também por áreas como bioquímica e biologia molecular. Ela permaneceu no ambiente laboratorial até 2021, período em que consolidou uma base técnica multidisciplinar. “Acredito que toda essa vivência acadêmica fez com que eu pudesse exercer o trabalho científico em diferentes contextos”, explica.
Após essa etapa, passou a atuar na assessoria científica, ampliando sua interface com diferentes áreas da pesquisa. Há cerca de seis meses, ingressou no setor comercial, onde aplica o conhecimento científico adquirido ao longo da carreira para dialogar com o mercado e propor soluções voltadas à pesquisa e à inovação.
A curiosidade me fez entrar no laboratório, onde iniciei minha vida na pesquisa. Eu analisava exatamente como era a saúde dos animais, e era essa curiosidade, de entender como eles sobreviviam ou como lidavam com essas situações, que me movia”, relembra a jovem bióloga Nathalia Nascimento, hoje na assessoria científica da Kasvi, empresa brasileira dedicada a oferecer soluções para pesquisa, ciência, diagnósticos, estudos e novas descobertas.
Mesmo em um ambiente que dialoga diretamente com o mercado, a bióloga destaca que a essência científica permanece presente em sua rotina profissional, e que a curiosidade segue como motor central da carreira.. É essa busca constante que permite propor soluções de diagnóstico inovadoras. Para ela, o crescimento feminino no setor está ligado a uma nova mentalidade de independência e ao direito de sonhar com carreiras que exigem dedicação total.
A insegurança sempre vai existir, mas o que mantém a gente na ciência é a curiosidade. Mesmo sem referências agora, essa curiosidade pode levar você a responder uma pergunta que pode salvar o mundo. Então, não se sinta insegura, mantenha a curiosidade, porque ela pode levar muito longe”, complementa.
Na avaliação da Nathália, o crescimento da presença feminina na ciência está diretamente relacionado a uma mudança de mentalidade das mulheres em relação às suas próprias escolhas e possibilidades. “Eu percebo essa mudança e acho que ela vem muito da independência da mulher. Hoje, a mulher pensa em casar, ter filhos, mas não só nisso. Ela também se permite sonhar com a carreira e, a pesquisa, é uma área que vem crescendo e exige dedicação total”, afirma.
Essa transformação, no entanto, não elimina os desafios enfrentados ao longo da trajetória profissional. Durante sua atuação em laboratório, a paulistana aponta a competitividade como um obstáculo recorrente na inserção de mulheres em ambientes mais masculinos. “Estamos ocupando esses espaços e mostrando que é possível”, destaca.
Com Assessorias








