No calendário nacional da saúde, existe data para importantes questões que muitas vezes passam despercebidas, seja por preconceito ou por vergonha. Uma delas é o Dia Internacional da Incontinência Urinária (14 de março), que chama atenção para uma condição que atinge cerca de 200 milhões de pessoas no mundo. Estima-se que 1 em cada 4 mulheres sofram escapes de xixi a partir dos 35 anos.
Muito comum, mas não normal, a condição pode ocorrer em diversas fases da vida e em situações cotidianas, como prática de atividades físicas que exigem mais esforço, ao tossir e espirrar, durante a gestação, nos pós-parto, menopausa, entre outras. Mas muita gente sofre calada com o problema e sequer revela para o médico.
È o que mostra uma pesquisa recente realizada pela Intimus, marca de cuidados femininos da Kimberly-Clark. De acordo com a pesquisa, 80% das entrevistadas nunca conversaram sobre incontinência urinária com seus médicos. O estudo revelou ainda que 39% das brasileiras consideram os temas da menstruação e escapes de xixi estigmatizados e acabam não buscando ajuda por vergonha e insegurança.
Mulheres não buscam ajuda ou informações sobre os escapes de xixi
E, sobre conhecimento em relação ao tema, 85% das brasileiras entrevistadas conhecem e entendem o tema dos escapes de xixi, mas, ainda assim, não buscam ajuda nem falam a respeito — mesmo entre amigas — por medo ou vergonha — mostrando quanto o assunto, de fato, é estigmatizado.
Apenas 36% das mulheres entrevistadas já buscaram informações sobre escapes de xixi e 28% desconhecem qualquer tipo de prevenção. Ainda assim, quando o tema surge durante as consultas, 61% das mulheres tiveram a iniciativa de perguntar a respeito, enquanto 39% só comentaram quando foram questionadas. E muitas mulheres ainda atribuem as situações de escape a fatores pontuais, como infecção urinária e movimentos involuntários (tosse, espirro e gargalhada).
Quando questionadas sobre menstruação, a maioria das entrevistadas costuma tirar dúvidas referentes à menstruação com o ginecologista (64%). Elas também consultam sites, blogs e fóruns (52%) e outras mulheres (47%). Pensando nisso, o Dia Mundial da Incontinência Urinária reforça que uma comunicação aberta entre pacientes e médicos é fundamental para quebrar tabus e garantir um tratamento efetivo.
“Tem assuntos que a gente não fala, que não dividimos com as pessoas e sofremos caladas, como escapes de xixi, menstruação, ressecamento, candidíase, hemorroida… São situações comuns, mas não são normais! Precisamos ter mais informações e procurarmos um especialista no assunto. A incontinência urinária deve ser tratada como um problema da saúde da mulher”, destaca a autora e apresentadora Rafa Brites, de 36 anos.
Conhecida por falar e defender abertamente temas importantes, como saúde mental e maternidade, ela tem chamado também a atenção das seguidoras quando o assunto é saúde íntima e autocuidado.
“Durante a nossa vida a menstruação vai fazer parte de várias fases da nossa jornada e os escapes de xixi que são comuns, mas não são normais, podem também ocorrer em algum momento. A gente tem que buscar mais informações, produtos adequados, procurar orientação de profissionais da área de saúde, ter um diagnóstico correto porque a incontinência urinária precisa ser tratada e vista como uma questão de saúde. Por isso é muito importante buscar ajuda médica e do acompanhamento de um especialista”, destaca Rafa.
Sentimentos associados pelas mulheres à menstruação e aos escapes de xixi
Ao longo de todo o estudo, expressões, como “autoaceitação”, “autoconhecimento”, “normalização da fisiologia feminina”, “inclusão”, “prevenção”, “confiança” e “empatia”, aparecem bastante nas falas das entrevistas. Os quatro sentimentos mais associados aos escapes são desconforto (68%), vergonha (51%), insegurança (47%) e descontrole do corpo (35%).
A instabilidade de humor é mais associada com menstruação por 38% das respondentes. Já os escapes de xixi são mais relacionados à fragilidade do corpo feminino por 32% das respondentes, bem como algo vergonhoso. O fator comum aqui é o sofrimento, que está no mesmo patamar para os dois temas.
Algo que deve ser “escondido” ou que “não deve ser nomeado” é pouco associado com ambos os temas — apenas 3% das respondentes. Porém, a menstruação, apesar de normal, é ligeiramente mais associada com sujeira/nojo (11%).
Para a ginecologista Rebeca Gerhardt, conversar com o médico é a primeira coisa a se fazer, pois o especialista é a pessoa mais indicada para investigar as causas, trabalhar no melhor tratamento explicar sobre a condição. “É por isso que falar sobre o tema é importante. Assim, as mulheres vão se sentir cada vez mais à vontade para lidar com os escapes de xixi, e essa troca com outras mulheres que passaram ou passam pela condição também é importante”, afirma.
45,5% das mulheres acima dos 40 convivem com o problema
Para a ginecologista Rebeca Gerhardt, a condição ainda é tratada como uma doença de pessoas de idade mais avançada, o que não é verdade. Apesar de causar grande desconforto e impacto na qualidade de vida de homens e mulheres, a perda involuntária de urina é mais comum do que se imagina. Segundo o estudo Brasil LUTS, 45,5% das mulheres acima de 40 anos convivem com incontinência urinária, que pode ser causada por diversos fatores.
“A incontinência urinária pode acontecer em qualquer momento da vida da mulher por diversos fatores, como genética, sobrepeso, durante a gestação ou no pós-parto, ou até mesmo durante a prática de esportes de alto impacto. O importante é que ao primeiro sinal de escape, a pessoa procure a ajuda de um especialista para o diagnóstico e tratamento adequado”, reforça.
Experienciar escapes de urina ao tossir, espirrar, rir ou até se movimentar pode ser bastante incômodo no dia a dia e não deve ser encarado como algo normal, independentemente da idade. Situações como essas podem indicar uma incontinência urinária por esforço, o tipo mais comum entre as mulheres, com 20,4% dos casos, aponta o estudo Brasil LUTS.
Já a incontinência urinária por urgência, que faz parte do quadro da síndrome da bexiga hiperativa, é caracterizada por uma vontade repentina de urinar e a incapacidade de conseguir controlar até chegar ao banheiro. Segundo o mesmo estudo, esse tipo afeta 14,9% das mulheres.
Homens também sofrem com incontinência urinária
Apesar de afetar mais mulheres, a incontinência urinária também impacta a qualidade de vida dos homens, especialmente depois dos 70 anos. Segundo o estudo Brasil LUTS, 14,7% convivem com a incontinência urinária, sendo mais prevalente a perda urinária relacionada à urgência, que representa 9,4% dos casos.
O mesmo estudo aponta que dentre todos os sintomas urinários, a incontinência é a que mais está associada à insatisfação do tratamento.
“Incontinência urinária está no topo da lista dos tópicos que geram maior desconforto entre as pessoas, principalmente, entre as mulheres. Nesse cenário, o sucesso do tratamento está diretamente relacionado à capacidade de médico e paciente atuarem em sinergia: o médico no papel de avaliar e acolher as demandas daquele(a) paciente, priorizando a continuidade e a satisfação do tratamento, que tem como objetivo minimizar os sintomas e melhorar a qualidade de vida, enquanto o paciente deve observar e compartilhar quais são as situações que mais geram desconforto e a frequência em que elas acontecem”, explica Marcos Freire, urologista e gerente médico sênior na Astellas Farma Brasil.
Obesidade e doenças que comprimem a bexiga são alguns dos fatores de risco, assim como a idade. E com o envelhecimento da população, espera-se que as demandas dos serviços de saúde em relação ao manejo da incontinência urinária aumentem no futuro.
“O que devemos normalizar é um envelhecimento com qualidade de vida, autoestima e diálogo para discutir soluções para os desconfortos da rotina. Sabemos que é importante fortalecer a musculatura do assoalho pélvico, ou seja, praticar exercícios que foquem no conjunto de músculos responsáveis por sustentar a bexiga, uretra e o útero. Além disso, hoje existem diversos medicamentos com eficácia comprovada para casos de incontinência de urgência, especificamente, que podem devolver uma rotina sem interrupções”, finaliza o Dr. Marcos.
Sobre os estudos
O estudo Brasil LUTS foi o primeiro grande estudo de base populacional realizado para avaliar sintomas do trato urinário inferior (LUTS) no Brasil, que tinha como objetivo avaliar a prevalência e o incômodo das LUTS na população com mais de 40 anos em cinco grandes cidades do Brasil: São Paulo, Porto Alegre, Recife, Belém e Goiânia.
Ao todo, 5.184 pessoas foram entrevistadas por telefone, no período de 1 de setembro a 31 de dezembro de 2015. Dentre os participantes, 53% eram mulheres e a faixa etária com maior número de respondentes foi entre 50 a 59 anos, representando 34%.
Já a pesquisa Menstruação e Escapes de xixi: investigando estigmas sobre os temas, realizada pela Intimus, em parceria com a Grimpa — consultoria de pesquisa de mercado e consumo, entrevistou, em outubro de 2022, 1.210 mulheres, de 18 a 45 anos, das classes sociais A, B e C e de todas as regiões do País.
“Os dados reforçam a importância de debate sobre o ciclo menstrual e os escapes de xixi, para que as mulheres conheçam seus próprios corpos e, sobretudo, busquem por seu bem-estar e saúde, sem estigmas e desinformação”, destaca Marisa Cury Cazassa, da Kimberly-Clark no Brasil.
Rafa Brites concorda: “Todos esses dados reforçam a importância de falar mais sobre o tema, ter mais debate, ter roda de conversa para que as mulheres conheçam seus próprios corpos, busquem por informações e soluções para o bem-estar, sem ter vergonha, sem desconforto e principalmente sem desinformação que isso é a pior coisa”, pontua.
Cinco dicas para lidar com a incontinência urinária
1. Conheça seus gatilhos
Cada caso é particular e a incontinência pode depender de diferentes gatilhos, porém, alimentos ácidos ou apimentados podem agravar o quadro. Você deve estar ciente de quais são os alimentos, bebidas e/ou atividades que estão relacionadas a episódios de perda de urina.
2. Exercícios de fortalecimento
Uma maneira útil de reduzir o escape é fortalecer os músculos do assoalho pélvico. Você pode fazer isso com ioga, pilates, tai chi, caminhada e exercícios de Kegel. O truque é garantir que você faça da forma correta — é preciso prática para encontrar e alongar adequadamente os músculos do assoalho pélvico.
3. Conexão nutricional
(Excesso) de peso, dieta e obesidade estão intimamente ligados à incontinência. No entanto, modificações simples, como pequenas mudanças na dieta ou perda de peso, podem ter um grande impacto nesta condição.
4. Consulte um médico
Obter aconselhamento profissional específico para sua incontinência oferece a melhor chance de reduzir ou mesmo eliminar escapes. Para facilitar a conversa, anote e compartilhe com seu médico as seguintes informações: quando e com que frequência acontece, o nível de incontinência e quaisquer gatilhos que causem um escape.
5. Esteja preparado
Depois de um momento constrangedor, é fácil desistir de atividades que você amava. Mas ficar à margem não é a resposta. Mantenha seus produtos de higiene pessoal preferidos em sua bolsa e também leve roupas íntimas e calças sobressalentes, caso ocorra um vazamento fora de casa.
Fonte: Plenitud e Astellas Farma Brasil, com Redação