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O rapaz bonito e cheio da vida aí da foto tinha apenas 17 anos. E sua história comoveu e mobilizou muita gente nas redes sociais.  Com suspeita de febre amarela, o estudante Luiz Fernando Valente Rodrigues estava internado desde a última quinta-feira (11) no Rio de Janeiro, lutando pela vida. Possivelmente por conta do agravamento da doença, o jovem teve uma hepatite fulminante e precisava urgentemente de um transplante de fígado, mas seu quadro se agravou e ele não resistiu. A morte cerebral do rapaz foi confirmada nesta quarta-feira (17), por volta das 14h,  pelo hospital na Tijuca (RJ) onde ele estava internado. A suspeita de febre amarela foi confirmada na quinta-feira (18) à noite pela Secretaria de Estado de Saúde.

“É com grande pesar que a direção do Hospital São Francisco na Providência de Deus (HSF) informa a confirmação do diagnóstico de morte encefálica do paciente Luiz Fernando Valente Rodrigues, às 14 horas do dia 17 de janeiro, em decorrência de um edema e hemorragia cerebral, causados por hepatite fulminante. A equipe de médicos e enfermeiros e a direção do Hospital São Francisco na Providência de Deus se solidarizam com a família e os amigos de Luiz Fernando, um jovem que certamente cumpriu sua missão nos seus 17 anos de vida”, informa a nota, assinada por Eduardo Costa Pinto, coordenador médico do Serviço de Transplante do HSF.

Na véspera, a mãe do rapaz, Fernanda Iara Tavares, agradeceu o carinho e a solidariedade das pessoas que se mobilizaram pela internet para tentar localizar o fígado para Luiz e também para doar sangue para ele diretamente no hospital. “Diante de todas as últimas notícias, são muitas informações, tenho me privado de redes sociais, apesar de não responder, tenho visto todas as mensagens de carinho e afeto de todos os lado. Me sinto cuidada e amparada por toda a cidade. A dor é inenarrável neste momento! Mas para esclarecer toda situação e dar uma informação real, o Luiz hoje se encontra em um quadro irreversível. Então estamos aguardando a hora dele chegar!!”, escreveu.

A Secretaria de Estado de Saúde ainda aguarda resultados do exame que pode comprovar se o rapaz realmente foi vítima da febre amarela – a pasta confirmou mais duas mortes pela doença – agora são quatro casos, com três óbitos no estado este ano. No primeiro comunicado do hospital, a equipe de médicos e enfermeiros afirmava que “dedicou todos os esforços possíveis e tecnologias disponíveis para salvar a vida de Luiz Fernando”. O hospital – nem a família – confirmaram se os órgãos do rapaz seriam doados. Com a suspeita de febre amarela, o procedimento não seria autorizado, segundo fonte do hospital. O corpo foi levado para Miguel Pereira (RJ), onde a família reside, onde foi velado e sepultado nesta quinta-feira (18).

Entenda o caso

Após três dias de angústia para a família e amigos, que realizaram uma ampla campanha pela internet, o fígado compatível com Luiz foi finalmente localizado na madrugada de segunda-feira (15), no Mato Grosso. Mas poucas horas antes de receber o transplante, o paciebnte sofreu uma hemorragia cerebral que, segundo os médicos, o impossibilitava de receber o órgão. Na segunda-feira, também em nota à imprensa, o hospital lamentou o caso e informou que não era possível realizar o transplante hepático.

“O paciente desenvolveu um quadro de hepatite fulminante, uma forma grave da doença, na qual o fígado é gravemente afetado, gerando perda da coagulação do sangue e consequentes hemorragias. O caso teve priorização nacional e a Força Aérea Brasileira disponibilizou um jato para fazer o transporte do órgão. Mas, infelizmente, na madrugada dessa segunda-feira, o quadro do paciente se agravou e Luiz Fernando teve sangramento cerebral, o que causou um dano irreversível e o impossibilita de receber um novo fígado através de um transplante”, disse Eduardo Fernandes,  chefe da equipe de transplante hepático do hospital.

Apesar do diagnóstico de um quadro irreversível, amigos e parentes mantiveram a esperança. E a campanha #umfígadoparaoluiz não foi interrompida. Além de pedidos de um fígado novo para o rapaz, os parentes e amigos reforçaram o pedido para doações de sangue.  No final da tarde de segunda-feira, mais de 100 pessoas haviam comparecido ao setor no hospital para doar em nome de Luiz.

“Continuem as orações e o que a gente mais quer que todos vocês entendam, que aconteça o que acontecer, o caso do Luiz não será em vão. Luiz veio para esse mundo pra mostrar a força do amor e da união! Não desistam nunca! Lutem até o fim!”, escreveu, emocionada, a tia do rapaz, Samantha Lobo Christófaro, no Facebook.  “Só mais uma coisa, não desistam de vir doar o sangue! O hospital precisa muito ajudar outras pessoas que como o Luiz, precisam de ajuda!”, completava.

Caravana para doação de sangue

Pelo Facebook, vários depoimentos,de famosos e anônimos, foram gravados em todo o país, como o dessa menininha, de apenas 3 anos, moradora de Paty do Alferes, município vizinho a Miguel Pereira, onde mora Luiz. Uma caravana chegou a ser organizada em Paty para trazer doadores ao Rio de Janeiro nesta terça-feira (veja o link).

“De tanto ver a foto do Luiz ela perguntou quem era. Daí contei a história dele e disse que os artistas estavam fazendo vídeos ela pediu pra fazer também e me fez prometer que um dia ela vai ver ele pra orar com ele… Ela é muito amorosa e não para de falar dele um minuto agora. Já deu tudo certo #somostodosluiz“, escreveu a mãe da menina, Letícia Silva.

“Que tristeza! Mas a história dele serviu para despertar a consciência sobre a importância da doação de órgãos e sangue. Força à família e aos amigos do rapaz 🙏🏼”, escreveu a jornalista Luiza Xavier no grupo JornalistasRJ, no Whatsapp, onde o caso ganhou destaque.

Doação: família e amigos precisam saber

Em números absolutos, o Brasil é o segundo maior transplantador do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. O país possui o maior sistema público de transplantes do planeta e atualmente cerca de 95% dos procedimentos são financiados pelo SUS. Os pacientes possuem assistência integral e gratuita, incluindo exames preparatórios, cirurgia, acompanhamento e medicamentos pós-transplante. O índice de doações de órgãos também vem aumentando progressivamente nos últimos anos no Brasil.  No entanto, cabe às famílias a decisão sobre a doação de órgãos, o que muitas vezes dificulta o acesso de quem necessita. E, infelizmente, 43% delas dizem ‘não’. 

Pesquisa da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), divulgada em março de 2017, mostra que a taxa de doadores de órgãos no Brasil aumentou 3,5%, atingindo 14,6 doadores por milhão de habitantes em 2016. A expectativa era alcançar 15,1 doadores por milhão de habitantes. Segundo dados da ABTO, houve um crescimento de 24% entre 2012 e 2016. Ainda assim, esse número está abaixo do índice observado em países que se destacam na doação. No entanto, a expectativa e trabalho da entidade são para que haja um crescimento continuado, em torno de 10% ao ano, nos próximos anos.

A meta, porém, esbarra numa questão cultural: existe muita desinformação e falta de conscientização sobre o processo decisório. O principal entrave para não concretizar o transplante é a recusa familiar. Em 2016, 43% das famílias rejeitaram a doação de órgãos de seus parentes. O estado do Maranhão apresenta a situação mais crítica do país: 69% das famílias maranhenses disseram não à doação. Do outro lado, o estado do Paraná tem a melhor taxa de doação de órgãos do país, com índice de recusa familiar de 34%.Mesmo, em vida, a pessoa avisar sobre a vontade de ser doadora de órgãos fica sob a responsabilidade da  família autorizar o transplante.

“A situação mais comum é quando os interessados deixam de comunicar aos seus familiares a decisão de serem doadores e assim, deixam de ajudar a salvar mais vidas. Familiares e amigos precisam saber desse desejo para passá-lo à frente e para que as doações aconteçam”, afirma o cirurgião cardiovascular José Lima Oliveira Júnior, integrante da Comissão de Remoção de Órgãos da ABTO.

De acordo com nefrologista e presidente da ABTO, Roberto Ceratti Manfro, muitas vezes, a negativa ocorre porque os familiares não sabem do interesse dos seus pais, filhos e cônjuges, por exemplo, em relação à doação de órgãos. “Não há documentos ou protocolos para registrar o desejo de doação em vida. A pessoa que tiver interesse em doar deve simplesmente avisar sua família e amigos de sua decisão”, destaca Manfro. Esse deve ser o principal ponto de atenção para aqueles que querem dar uma nova chance a uma nova vida.

Fila do transplante x órgãos desperdiçados

Só em 2016, foram realizados 22.489 transplantes no Brasil, considerando os seguintes órgãos e tecidos: rim, fígado, pâncreas, coração, pulmão e córnea. O estudo aponta crescimento no número de transplantes de rim (5,8%), fígado (7,4%) e córneas (7,6%). Porém, houve redução nos transplantes de coração (3,6%), pulmão (6,5%) e pâncreas (6%).

Atualmente, no Brasil, existem, aproximadamente, 35 mil pessoas aguardando por um transplante. Entre as 34.542 pessoas que esperavam por um transplante em dezembro de 2016, 21.264 aguardavam rim, 10.923 córnea, 1.331 fígado, 282 coração, 172 pulmão, 539 pâncreas e rim e 31 pâncreas.

Outro dado que chama a atenção é o baixo aproveitamento de órgãos dos potenciais doadores notificados. No primeiro semestre, somente 31% dos 5.309 potenciais doadores notificados foram aproveitados. Em países desenvolvidos o índice de aproveitamento varia entre 60% e 70%. Em 2016, o número de potenciais doadores subiu para 10.158, contra 9.698, em 2015,  9.351, em 2014, e 8.871, em 2013. Apesar do aumento, foram apenas 2.981 doadores efetivos, ou seja, 71% dos potenciais doadores (7.177) foram descartados, enquanto 2.013 pessoas morreram na fila aguardando um transplante.

Doação apenas em caso de morte encefálica

A pesquisa da ABTO mostra que a taxa de doadores efetivos cresceu 11,8% no primeiro semestre de 2017, passando de 14,6, doadores por milhão de habitantes para 16,2. Com esse resultado, o Brasil está bem perto de alcançar a meta proposta para 2017, que é de 16,5 doadores para cada milhão de habitantes. Os índices positivos foram possíveis graças ao aumento da taxa de notificação de potenciais doadores de 4,5% e da taxa de efetivação da doação de órgãos de 7,2%.

Os números de doações podem aumentar a partir do momento que mais pessoas compreenderem esse processo simples – mas, muitas vezes, desconhecido por aqueles que querem ser doadores. “Informação é a base para qualquer tomada de decisão. Queremos, cada vez mais, trazer relevância para esse tema, destacando que um doador pode salvar ou melhorar as vidas de até 10 outras pessoas”, pontua o nefrologista.  Ele reforça que a doação é um ato de solidariedade, talvez o único que alguém pode fazer após a morte.

No Brasil, o único tipo de óbito que permite a doação de órgãos é a morte encefálica, a qual após confirmada, a família é consultada de forma respeitosa e empática para saber se a decisão foi manifestada pela pessoa que faleceu. Caso isso não tenha acontecido, a família é consultada sobre a possibilidade da doação e assim pode decidir.

 

Panorama da doação de órgãos no Brasil

Cinco estados destacaram-se na doação de órgãos, de acordo com a pesquisa da ABTO: Santa Catarina, Paraná, Distrito Federal, Rio Grande do Sul e Ceará. Os números nesses estados estão próximos ao de países com destaque na doação, como Espanha (39,7 doadores por milhão de habitantes); Croácia (39,0); Bélgica (32,4); Portugal (28,6) e EUA (28,5).

SC (36,8 pmp) – aumento de 22%
PR (30,9 pmp) – aumento de 42%
DF (25,7 pmp) – queda de 9,5%
RS (25,2 pmp) – aumento de 15%
CE (24,9 pmp) – aumento de 6%

De acordo com Dr Lima, faltam campanhas para alertar a população sobre a importância da doação de órgãos. Ele é idealizador do Setembro Verde, campanha nacional que visa conscientizar os brasileiros sobre a doação de órgãos. A ABTO também reforça o portal Outra Vida Nova Chance com o objetivo de esclarecer as principais dúvidas sobre o assunto, derrubar mitos e incentivar essa ação que pode ajudar a salvar milhares de vidas. Confira mais informações sobre se tornar ou apoiar a causa no site oficial da ABTO e no portal Outra Vida Nova Chance.

Conheça um passo a passo sobre doação de órgãos

Como poderei ser doador de órgãos após a morte?

Para ser doador não é necessário deixar nada por escrito, mas é fundamental comunicar à sua família o desejo da doação. A família sempre se aplica na realização deste último desejo, que só se concretiza após a autorização desta, por escrito.

Como proceder com o potencial doador cadáver

Considera-se como potencial doador todo paciente em morte encefálica. No Brasil, o diagnóstico de morte encefálica é definido pela Resolução CFM Nº 1480/97, devendo ser registrado, em prontuário, um Termo de Declaração de Morte Encefálica, descrevendo os elementos do exame neurológico que demonstram ausência dos reflexos do tronco cerebral, bem como o relatório de um exame complementar.

Para constatação do diagnóstico de Morte Encefálica é, inicialmente, necessário certificar-se de que:

1. O paciente tenha identificação e registro hospitalar;

2. A causa do coma seja conhecida e estabelecida;

3. O paciente não esteja hipotérmico (temperatura menor que 35º C);

4. O paciente não esteja usando drogas depressoras do Sistema Nervorso Central;

5. O paciente não esteja em hipotensão arterial.

Após essas certificações, o paciente deve ser submetido a dois exames neurológicos que avaliem a integridade do tronco cerebral. Estes exames são realizados por dois médicos não participantes das equipes de captação e transplante. O intervalo de tempo entre um exame e outro é definido em relação à idade do paciente (Resolução CFM 1480/97).  Após o segundo exame clínico, é realizado um exame complementar que demonstre: Ausência de perfusão sanguínea cerebral; ou Ausência de atividade elétrica cerebral; ou Ausência de atividade metabólica cerebral; Consentimento Familiar.

Após o diagnóstico de morte encefálica, a família deve ser consultada e orientada sobre o processo de doação de órgãos. A entrevista deve ser clara e objetiva, informando “que a pessoa está morta e que, nesta situação, os órgãos podem ser doados para transplante”. Esta conversa pode ser realizada pelo próprio médico do paciente, pelo médico da UTI ou pelos membros da equipe de captação, que prestam todas as informações que a família necessitar. Este assunto deve ser abordado em uma sala de ambiente calmo, com todas as pessoas sentadas e acomodadas.

Principais Causas de Morte Encefálica

  • Traumatismo Crânio Encefálico;
  • Acidente Vascular Encefálico (hemorrágico ou isquêmico);
  • Encefalopatia Anóxica e Tumor Cerebral Primário

O que fazer após o diagnóstico de Morte Encefálica?

Após o diagnóstico de morte encefálica, deve acontecer a notificação às Centrais de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDOs). Para isso, o médico deve telefonar para a Central do seu Estado informando nome, idade, causa da morte e hospital onde o paciente se encontra internado. Essa notificação é compulsória, independente do desejo familiar de doação ou da condição clínica do potencial doador de converter-se em doador efetivo.

O óbito deve ser constatado no momento do diagnóstico de morte encefálica, com registro da data e horário do mesmo. Pacientes vítimas de morte violenta são obrigatoriamente autopsiados. Após a retirada dos órgãos, o atestado de óbito é fornecido por médicos legistas (Instituto Médico Legal). Pacientes com morte natural (Acidente Vascular ou Tumor Cerebral) recebem o atestado de óbito no hospital.

Fonte: ABTO e São Francisco na Providência de Deus, com Redação

Post atualizado às 20h desta quinta-feira (18 de janeiro de 2018)

 

 

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